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A LINGUÍSTICA define dialecto como uma variante local ou regional de uma língua que se distingue pelas especificidades ao nível da pronúncia (fonética) e do vocabulário (léxico).

Significa que estas variações da língua têm um tronco comum, a partir do qual surgem as outras. Por exemplo, o Changana de Chibuto é diferente do Changana de Gazankulu, na África do Sul. Da mesma forma que o Português da Madeira é diferente do Português de Lisboa; o Ronga da KaTembe é diferente do que é falado na Manhiça, em Magude, entre outras regiões. Acontece o mesmo em relação a outros idiomas.

Neste sentido, não é correcto considerar que as línguas nacionais (Ronga, Macua, Sena, Ndau, Nyau, Changana, Bitonga, etc.) sejam dialectos. Elas são nossas línguas maternas que devem ser valorizadas porque nos identificam como moçambicanos e é através delas que transmitimos às novas gerações os valores mais nobres, como nação. Infelizmente, alguns concidadãos, sobretudo os que residem nas grandes cidades, têm vergonha destes idiomas. Durante a vigência do regime colonial português, as línguas maternas moçambicanas eram desvalorizadas e, por isso, consideradas pejorativamente “dialectos”, “landim”, “língua dos indígenas” e, na pior das hipóteses, “língua de cão”. Tudo isso com o intuito de menosprezar aquilo que é nossa pertença.

Todavia, a partir de 1975, embora o Estado moçambicano tenha adoptado o Português como idioma oficial, da comunicação mais ampla e de unidade nacional, as línguas maternas começaram a ganhar um estatuto diferente e, por isso, a ser valorizadas. 

Há dias ouvi uma mãe, no elevador do prédio onde resido, a repreender o seu filho, uma criança de quatro anos, por ter pronunciado uma palavra em Ronga: “akwini”? (o que significa “onde está”?, em Português). Visivelmente irritada e envergonhada com a situação, insurgiu-se ao ouvir a criança a falar:- Eh, onde é que aprendeste o dialecto?!… não diz mais isso, está bem?... é muito feia essa palavra. Quem te ensinou?! - Depois virou-se para a empregada que levava ao colo um outro menor e disse, exaltada:

- Não ensina tuas línguas aos meus filhos, não quero dialecto na minha casa…

- Não fui eu, senhora, acho que…-nem conseguiu terminar a frase, porque a patroa não o permitiu. Fiquei sem saber do desenlace do episódio porque, entretanto, cheguei ao meu destino.

Todavia, pude constatar quão necessário se torna cultivarmos o sentido de pertença, a nossa cultura, etc. O jornalismo permitiu-me, ao longo destes anos, interagir com várias pessoas, dentre as quais de outras culturas, com hábitos e princípios diferentes dos meus/nossos. Em muitos países africanos, sobretudo da região Austral, os seus cidadãos sabem dar valor às línguas maternas. É por isso que quando vamos a uma loja na África do Sul, no Zimbabwe, Suazilândia (actualmente E-Swatini), Lesotho, Botswana, só para citar alguns exemplos, os trabalhadores abordam qualquer pessoa, desde que seja negro, em Zulo, Siswati, ou em qualquer outra língua materna. Só falam em Inglês quando se apercebem de que estão diante de um estrangeiro. Ninguém tem vergonha de falar os idiomas de origem bantu nesses países, independentemente de ter ou não um curso universitário. Infelizmente, no meu país falar Changana ou Ronga, pelo menos nas zonas urbanas, parece sinal de falta de civismo, como se a educação fosse transmitida apenas na língua oficial.

A atitude daquela mãe revela falta de conhecimento. Primeiro, as nossas línguas, embora não tenham sido suficientemente estudadas (ainda), são tão importantes como o Português. São elas que veiculam a nossa cultura e os nossos valores como africanos. Segundo, o meio social em que vivemos, como defendem os sociolinguistas, é que molda a nossa forma de ser e de estar. Por isso, a criança só precisa de ouvir os outros para aprender, ainda que não seja essa a vontade dos pais. 

Delfina Mugabe-dmugabeahoo.com.br

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