AINDA na ressaca do 92.o aniversário deste jornal, não resisto a partilhar o orgulho que me enche por ser parte deste projecto. E não é um orgulho barato, que se explique apenas pelo facto de este ser um jornal nonagenário e uma referência obrigatória no jornalismo moçambicano.

Trabalhar para este jornal (e já o faço há um quarto de século) é uma missão que desafia os limites do jornalismo como um exercício comunicacional. Aqui aprende-se que há uma ética profissional que nos vincula enquanto jornalistas, mas que não nos desobriga de outros deveres como cidadãos de um país soberano, politicamente organizado e com estrutura e regras próprias.  

Ao longo da minha trajectória como jornalista desta casa, fui aprendendo, por exemplo, que não se pode esperar que, pelo facto de ser jornalista, o cidadão cometa um homicídio e não vá parar à cadeia, apesar de toda a notoriedade e “estatuto” que a profissão eventualmente outorga.

Na sua missão, este jornal contribui para a exposição e dissecação das relações sociais, representando-as, sem complexos, no melhor ou no pior do que elas produzem. Este é, na verdade, um projecto social porque aborda a vida e os sentimentos das pessoas, os seus modos de ser, de estar, de agir e de se manifestar, sem colorir nenhuma dessas características com estereótipos que coloquem umas acima das outras.

Ao longo da minha convivência nesta casa, fui aprendendo a respeitar as ideias dos outros, mesmo quando não concorde com elas. E são muitas as ideias que convergem por aqui, atraídas pela fiabilidade e confiança que o “Notícias” inspira como um veículo para elevar a voz das massas. Aprendi que respeitar ideias diferentes equivale a reconhecer que, no fundo, há muitas janelas a partir das quais se pode observar o mundo, o mesmo sobre o qual escrevo nas minhas notícias, crónicas ou reportagens.

O mais importante é manter fidelidade nos factos, nunca falseá-los ou transformá-los em arma de arremesso contra quem pense diferente.

Várias gerações de profissionais passaram por esta casa ao longo destes 92 anos. Umas com glória e outras nem tanto. De uma coisa estou certo: em qualquer delas, hão-de ter ficado lições profundas sobre como fazer jornalismo sem “descer do salto”, e sem hipotecar a dignidade individual ou de toda uma classe.

Estou ciente de que alguns vão falar de corruptos e malandros que porventura por aqui tenham passado mas, mesmo que tal tenha acontecido, o seu peso nunca foi suficiente para se sobrepor à disciplina e ética que sempre impediram a maioria de cobrar alvíssaras por uma entrevista, ou de chantagear alguma fonte sobre quem as pesquisas tenham conduzido a algum indício de culpa.

E foi aqui, nesta casa, onde aprendi que o mais importante no jornalismo contemporâneo não é tanto ser o primeiro a dar a notícia, mas sim ser o primeiro a dar a notícia correcta. Não há nada mais ingrato para um jornalista do que ser o primeiro a espalhar a calúnia, a difamação, o insulto e tudo o resto que diaboliza o jornalismo.

É nesta casa onde continuam a convergir muitos jovens vindos das escolas de jornalismo, que procuram acrescentar uma prática efervescente à teoria científica com que saem dos bancos da academia. E, com o mesmo vigor e sentido de responsabilidade, esta casa vai recebendo-os, um a um, para ajudá-los a complementar a sua formação técnica, e depois entregá-los ao mercado, quando oportunidade não haja de absorvê-los.

Este é o “Notícias” que conheço e do qual me orgulho de ser parte: íntegro, responsável e capaz de assumir publicamente e corrigir os erros que comete na sua dinâmica de trabalho. Foi assim no passado, é assim agora e será assim no futuro porque, para um jornal quase-centenário como este, nada melhor do que ser o poço de onde todos bebem.

E, com a devida vénia a Francisco Pinto Balsemão (In Editorial Expresso, 6.1.18), permito-me a corruptela: (o “notícias”) “…é o tal porto onde as pessoas inteligentes param, reflectem, pensam por si próprias, saem do turbilhão em que todos nos deixámos envolver, definem em liberdade o rumo que querem seguir”.

Fazemos jornalismo, não pirotecnia!

Júlio Manjate-Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Câmbio

Moeda Compra Venda
USD 58,31 59,47
ZAR 4,74 4,83
EUR 70,23 71,64

25.01.2018   Banco de Moçambique

Opinião & Análise

AGORA que se aproxima o período eleitoral - a 10 de Outubro realizam-se as ...
2018-04-20 00:30:00
O ACTUAL cenário que se desenha com a provável mudança de ...
2018-04-20 00:30:00
HÁ sensivelmente um mês, a Inglaterra lançou um autêntico ...
2018-04-20 00:30:00
UNS chamam “praxe académica” e outros ...
2018-04-19 00:30:00
O GOVERNADOR de Inhambane, Daniel Chapo, antes de exercer a actual ...
2018-04-19 00:30:00