A MAFURREIRA já definhara. Melhor, vive sem vida passam anos. E não poucos. Não se recorda da última gestação. Aconteceu há anos. Ela que é a única árvore de fruta no mesmo espaço onde habitam outras espécies. Plantada pela natureza e isolada de outras árvores e agora sem os macacos que noutros tempos com ela brincavam, saltando de braço em braço, dos seus vários, de sorrisos nos lábios, alimentando-se dos seus vermelhos frutos. Acasalando-se e reproduzindo-se sob os seus braços protectores. A companhia das várias espécies de pássaros que em dias e canícula lhes oferecia a sua sombra. Cantavam e namoravam e ela sentia-se infinitamente alegre por aqueles momentos, por aquelas vidas.

Agora em completa solidão, acontece por vezes o abraço do vento sul que a faz recordar que ainda tem vida. Acontece por vezes a chuva que sem a pagar nada, lava-a o corpo e penetra a sua base fazendo com que os seus pilares mantenham a robustez que a sustentam, que faz com nas suas veias continue o trânsito normal do sangue que necessita para viver.

Um sentimento de medo e de esperança quando ele chegou para habitar o mesmo espaço. Medo porque aquele homem que caminhava na sua direcção podia trazer com ele um machado que pusesse fim à sua vida. Começou a tremer. Por outro lado, uma réstia de esperança de que aquele homem podia ser a companhia que lhe devolveria a fecundidade, a capacidade de, anualmente, fazer oferendas a outros seres.

O medo não durou. O homem não trazia consigo machado nenhum. Ficou tão contente que até um vento norte, apercebendo-se da alegria da mafurreira, a ela juntou-se e por tempo longo ela pôs-se a dançar. A dançar que o homem chegou a pensar que podia desconjuntar-se. Depois serenou. E veio a noite. E ele recolheu para o lugar que lhe foi reservado. Ela ficou na companhia das estrelas, na companhia da lua, na companhia do escuro. Ficou na recordação da recente visita/companhia e na expectativa do amanhecer para novo convívio. Para novo viver.

Ele teve uma noite sorridente. A primeira naquele lugar. E parte dela passou na protecção da grande copa da mafurreira, com a sua dança frenética patrocinada pelo vento norte. Acordou. Espreitou e viu-a serena e orvalhada. Iria visitá-la mais tarde. Que ainda se podia dar ao luxo de se permitir mais umas horitas de sono. E veio. E quando acordou, de novo, já o sol com a sua inclemência em tudo com vida, sem vida.

Com um banquinho na mão direita e telefone na outra, dirigiu-se à copa dela. Da mafurreira. Poisou o banquinho no chão verde. Sentou-se olhando para este. Não fossem as edificações que o limitam o horizonte visual, podia divisar pelo menos uma ilha, em tempos hospedeira de má memória para homens e mulheres, que na luta pela liberdade ali morreram no anonimato. Homens e mulheres dos tempos de ódio.

As edificações não o deixam ver aquela ilha encher as pupilas de água na imaginação do que foi viver desses filhos dos homens que outros filhos de outros homens negaram-lhes a liberdade, negaram-lhes o amor, negaram-lhes a vida.

Ele não consegue ver. Fica-se na contemplação de uma grande parede feita de cimento e ferro, de areia e pedra e depois pintada de branco que está na sua frente, das árvores inalcançáveis porque protegidas por essa parede de dimensão monstra.

Entre o seu lugar e a parede branca, um chão preto dividido ao meio por um verde de adornar. Verde é só de dizer, que várias são as cores naquele jardim. E no sentido norte e sul, circulam viaturas do tipo automóvel, carrinhas carregadas de gente que vem engordar o burgo, de machimbombos que transportam gente que vem engordar o burgo. É tudo o que pode ver e as horas se ecoando. E a mafurreira toda quietinha. Satisfeita porque já não sozinha naquela triste contemplação. Outro ser mais.

Do lado norte, um casal de galinhas de mato, assim a medo, a medo não. A cautelas como quem quer surpreender a caça, movimenta-se, pela vez primeira, dentro do território da mafurreira e dela não se aproximando. Com o olhar, ele acompanhou o casal que dengosamente se movimentava pelo espaço, que não é pequeno, debicando de passo em passo. Parando para comentar sabe-se lá o quê. Para lamentar a pouca o nenhuma oferta de alimentos. Não abundam ali restos de alimentos de outros seres, nem um bago de arroz sequer. Mas o casal não desespera.

Recolhe, sim, ao anoitecer, mas logo às primeiras horas é visto a explorar o território da mafurreira, que voltava a ter vida. Então, ele cuidou por que também tivessem uma refeição, depois refeições e não mais saíram. Ao casal, juntaram-se as galinhas pica-no-chão (o casal também pica no chão, mas é diferente destas), os patos. Os coelhos são uma graça. E com toda esta paisagem, a vida sabe-lhe a mel.

Quer comer carne de coelho que não tenha passado por sistemas de congelação, mas nem em sonhos deixar que um daqueles que andam aos saltinhos de um lado para o outro seja morto. Prefere viajar na esperança de encontrar um à venda na beira da estrada. E acontece encontrar. As galinhas e os galos, isso é para o abate. Aos patos, a mesma sorte. E não se dizem mal por isso, que viver é bem mais difícil do que morrer. E morrer para permitir que os outros vivam com alguma qualidade, deve dar alguma paz.

A mafurreira, depois de um interregno de anos, voltou a engravidar. E está agora carregadinha de gordinhos filhotes vermelhos. Isto para o espanto dele que nunca a julgou capaz de tamanho feito. E agradeceu-se a si mesmo por nunca lhe ter passado pela cabeça a ela se dirigir de machado em punho.

E o casal de galinhas de mato agora com uma catrefada de filhos. Sabia dos números no início, agora perdeu a conta. Enchem-no o território e com ele partilham a copa da mafurreira.

As galinhas do mato estão-se reproduzindo.

A mafurreira voltou a produzir.

Os homens e toda a criação da natureza em vida gregária.

A beleza da natureza.

Djenguenyenye Ndlovu

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