Director: Júlio Manjate   ||  Directora Adjunta: Delfina Mugabe

CELEBROU-SE ontem, 8 de Março, o Dia Internacional da Mulher. A propósito da efeméride, o Notícias abordou jovens mulheres para falarem sobre alguns assuntos que as inquieta na actualidade. As gravidezes precoces e o receio do uso de contraceptivos encabeçam a lista das preocupações.

Entendem que o problema tem a ver com o facto de não estarem a ser compreendidas na sociedade quando optam em namorar e buscar ajuda para evitar uma gravidez indesejada.

Explicam que, por exemplo, quando algumas pessoas da comunidade ou mesmo os pais ficam a saber que a filha (não casada) adoptou algum tipo de contraceptivo moderno, ela é discriminada e conotada com uma mulher de má vida, que quer se envolver com vários parceiros sexuais.

“Há muita discriminação. Só de as pessoas saberem que estás a usar contraceptivos, olham-te mal. Consideram que podes influenciar negativamente as filhas. Pior quando emagreces ou engordas, associam esta mudança ao uso de contraceptivos para não engravidar”, queixou-se uma adolescente de 17 anos, que pediu anonimato.

Para as entrevistadas, é esta forma de pensar de alguns membros da sociedade que contribui para que muitas jovens e adolescentes tenham receio de fazer o uso de contraceptivos. Outras, fazem à revelia dos pais por temer represálias.

Como resultado, avançam, as raparigas guiam-se por aquilo que ouvem das experiências das amigas ou de colegas de turma. Engravidam sem estarem preparadas para cuidar da criança, muito menos ter que passar a viver na casa do namorado, para onde muitas são levadas pelos respectivos familiares quando acontecem este tipo de casos.

“Quase todos os anos assistimos à situações de colegas que engravidaram e perderam a escola. Acredito que não é por falta de informação que isto acontece, sobretudo aqui na cidade de Maputo. Alguns pais limitam-se a dizer que namorar não é bom mas já não têm o cuidado de explicar, em caso de namoro, como a filha ou o filho deve proceder para evitar doenças ou o nascimento de filhos não planificados”, referiu E. Macuácua, 18 anos.

 

Estatísticas oficiais indicam que o uso de contraceptivos modernos, entre as mulheres em idade reprodutiva (15-49 anos), não supera 30 por cento em Moçambique. A situação é mais crítica entre as jovens.

Moçambique figura na lista dos países com altos índices de casamentos prematuros no mundo, onde uma em cada três meninas casa-se antes dos 18 anos, sobretudo nas zonas rurais. 

Famílias com visões diferentes

Na conversa, a equipa de Reportagem do Notícias percebeu que muitas das raparigas entrevistadas já ouviram falar de planeamento familiar. Contudo, dizem que, em muitas situações, não encontram apoio da família que desencoraja o uso dos contraceptivos entre as jovens.

“Depende de cada família. Há pais que conversam com os filhos e aconselham a buscar ajuda de profissionais de saúde para a escolha de algum método contraceptivo. Outras não aceitam ou nem querem saber, desaconselham as raparigas a aderir”, disse E. Macuácua, 18 anos e estudante da 12ª classe.

No caso dela, a jovem conta que tem conversado com a mãe sobre a sexualidade. É nesses momentos que falam da existência de contraceptivos, as vantagens na prevenção da gravidez e as desvantagens.

“Em nenhum momento a minha mãe disse, claramente, que eu deveria ou não aderir aos contraceptivos. Quando comecei a namorar, por iniciativa própria, procurei ajuda de profissionais da Saúde para fazer a escolha de um método compatível  com o meu organismo. Com isso, não quer dizer que deixei o preservativo, uso mas todo o cuidado é pouco, em caso de o dispositivo romper ficarei grávida”, disse a jovem.

Para E. Macuácua, os contraceptivos são uma oportunidade para as jovens poderem exercer os seus direitos sexuais e reprodutivos sem colocar em causa as suas vidas.

A mesma percepção tem a C. Fernando, 18 anos, que também é aluna da 12” classe. Embora não tenha experimentado algum método contraceptivo, C. Fernando acredita que os contraceptivos ajudam a planificar melhor o nascimento dos filhos.

“Ainda não experimentei, porque não namoro, mas tenho familiares que estão a usar os contraceptivos. Algumas deixaram de fazer o uso porque já se sentem preparadas para ter filhos. Outras querem mudar de método”, disse a jovem.

Experiências negativas

Maria António e Joana Ribeiro são duas adolescentes de 16 e 17 anos de idade que apontam a gravidez precoce como sendo uma das grandes preocupações desta camada social.

Ambas estão na 11ª classe e já namoram mas ainda não se decidiram se querem ou não fazer o uso de contraceptivos. O receio reside na falta de uma explicação clara sobre os prós e contra dos métodos.

“Fala-se muita coisa sobre os contraceptivos. Alguns dizem que são bons, outros dizem que não porque provocam hemorragias, corrimento recorrente, perda ou ganho de peso repentino. Fala-se mais dos aspectos e experiências negativas”, opinou Maria.

As jovens, cujos nomes são da nossa autoria, uma vez que pediram anonimato, lamentam, por um lado, o facto de os activistas que se fazem à sua escola (Secundária da Lhanguene) não serem muito elucidativos na explicação sobre os contraceptivos e, por outro, o desinteresse demonstrado por algumas das suas colegas sobre métodos de planeamento familiar. 

“As coisas não são bem percebidas. Pensa-se que é só colocar o implante, por exemplo, e prontos. Em casa, os pais não falam muito sobre o assunto e nos limitamos a ouvir a experiência que cada uma de nós tem e dai tiramos as nossas conclusões que nos podem levar a caminho certo ou errado”, referiu Joana Ribeiro.

O apelo destas meninas é de se promover debates nas escolas, em fóruns pequenos, onde os jovens e adolescentes possam se esclarecer melhor sobre os contraceptivos. Apelam ainda aos pais a serem mais abertos e interactivos com os filhos quando o assunto é a sexualidade.

O desafio do uso do preservativo

Usar o preservativo como meio de protecção de gravidez e de doenças de transmissão sexual constitui ainda um desafio entre jovens e adolescentes.

Embora todos reconheçam que garante a dupla protecção e acessível para os jovens, assumem que não usam de forma frequente, expondo-se a vários problemas.

Geraldo Mauane, 20 anos, é um dos nossos entrevistados que admite que no início da fase do namoro não tinha noção dos perigos que corria ao se envolver sexualmente sem protecção. “Só estava preocupado em experimentar. Quando a menina dizia que o preservativo aleijava, a solução era tirar. Felizmente, aprendi que estava a colocar a minha vida em risco. Podia ter lhe engravidado ou contraído doenças”, conta.

Glória Eugénio, 18 anos, também é contra o preservativo. Revelou que aprendeu que os outros contraceptivos são para mulheres que já têm filhos porque tem efeitos colaterais que podem levar a infertilidade, nascimento de filhos com problemas de saúde, entre outros problemas.

“Como é que hei-de usar outros contraceptivos como pílula, implante, dispositivo intra-uterino ou injecção se não sei se faço filhos ou não. Aprendi da minha mãe que usando os contraceptivos, a menina vai se desleixar e se envolver com qualquer homem por pensar que está protegida da gravidez. Então, não acho que seja uma coisa boa para jovens e adolescentes”, opinou Glória Eugénio.

EVELINA MUCHANGA

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