JÁ a eclosão da II Guerra Mundial revela um “Notícias” alinhado com a política portuguesa de “neutralidade”, demonstrando sempre o temor por novas incursões alemãs no Norte do território, a exemplo do que acontecera durante a I Guerra Mundial, quando a dominação portuguesa em Cabo Delgado ficou praticamente isolada em volta de Porto Amélia, hoje Pemba.

É praticamente a partir do meio da década de cinquenta que se pode encontrar um “Notícias” mais preocupado com assuntos africanos, grande parte em resultado do surgimento do Estado “boer” na África do Sul e da alteração da política colonial inglesa relativa às suas colónias em África e Índia.

Começam, desde então, a aparecer no Jornal opiniões mais acesas da necessidade do reforço das relações com a África do Sul, em particular no reforço do uso do caminho-de-ferro e porto de Lourenço Marques, mas ainda referências à importância do envio de mão-de-obra moçambicana para as minas de ouro do rand.

O efeito do movimento internacional e africano a favor das independências das colónias em África, nos finais de 1950, nas páginas do “Notícias” é coincidente com o surgimento de uma série de novas opiniões mais abertas sobre o futuro da colónia, quer do ponto de vista económico quanto financeiro, mas também com a abertura da sua redacção a “vozes” mais liberais e críticas da sociedade colonial.

O despertar para este novo ciclo político em Moçambique é, sem dúvida, despoletado pelo início da guerra em Angola, a 15 de Março de 1960. A sociedade colonial portuguesa foi como que acordada pelo grito de António de Oliveira Salazar, então Primeiro-Ministro de Portugal, quando afirma “para Angola e em força”!

Se em 1920 os irmãos mulatos Albasini até tinham jornal próprio, em finais de 1950 o “Notícias” não tinha na sua redacção um único homem de cor, e dos nados em Moçambique apenas se destacava Guilherme de Melo como jornalista, sobre quem pesou muito a influência política e intelectual do poeta Reinaldo Ferreira.

Novos protagonistas na informação 

POR isso, no início dos anos 60 nota-se que as portas do “Notícias” abriram-se a uma série de novos protagonistas da informação, através da sua edição do “Notícias da Tarde”, onde aparecem artigos e poemas de Gita Honwana e mais tarde do seu irmão Luís Bernardo, de José Craveirinha, Noémia de Sousa, Rui Nogar e Rui Knoffli, ou a fotografia de Ricardo Rangel.

Este curto período de aparente abertura na informação em Moçambique, do qual não se pode excluir o jornal Diário de Moçambique, na Beira, controlado pelo Bispo da Beira Don. Soares Resende, terá tido o seu ponto mais alto com o surgimento do jornal “A Tribuna”.

Tendo por mentores um grupo de jovens liberais que já se opunham à política repressiva colonial, e do qual fazia parte o jovem advogado Adrião Rodrigues (que viria a ser o primeiro Governador do Banco de Moçambique), “A Tribuna” é lançada em 1962, tendo como seu chefe de Redacção Gouveia Lemos e contando com a colaboração de nomes como José Luís Cabaço, Luís Bernardo Honwana, José Mota Lopes, José Craveirinha, Ricardo Rangel, Eugénio Lisboa e Rui Knoffli.

Não sendo um jornal com uma política abertamente anti-colonial, ele provocou o regime levando-o a apertar o cerco às publicações do “Notícias”, quer através da censura, quer por dificuldades financeiras criadas ao seu proprietário.

“Naturalmente”, em 1963, o Capitão Simões Vaz sentiu-se obrigado a vender a sua participação ao Banco Nacional Ultramarino, que, de imediato, ganhou o poder de nomear o director do jornal “Notícias” e, através dele, impor a linha editorial mais conveniente ao regime colonial.

“A Tribuna”, que no seu primeiro número se atrevera a publicar uma entrevista com Ben Bella e em cujos artigos denunciava a situação de pobreza dos negros e as condições de vida nos seus bairros de caniço, foi fustigada pela censura, levando a que Gouveia Lemos se demitisse e que os seus principais colaboradores tivessem de abandonar aquele projecto.

 

Controlo apertado da linha editorial

O “Notícias” e as suas publicações passaram desde então a estar sob o controlo da administração colonial e a sua linha editorial assumiu-se como braço de propaganda ao regime salazarista, em particular, aos desígnios da defesa de Moçambique como parcela integrante do espaço português contra os “desígnios de forças ao serviço do comunismo internacional”, umas vezes mascarado por figuras chinesas, outras por papões de crianças, numa alegoria aos regimes chinês e soviético. Os nacionalistas que combatiam pela independência passaram a ser designados por “turras”.

É interessante notar que o jornalista e redactor escolhido para liderar esta linha editorial foi Guilherme de Melo - autor do livro “Raízes do Ódio”, publicado em 1965 e que a PIDE (polícia política portuguesa) havia retirado de circulação, por considerar que atentava contra a sua política colonial de integração racial em Moçambique.

É a partir de 1968, quando a guerra de libertação já se estendera à província de Tete, que o “Notícias” mais acentuou a defesa dos “valores da Pátria portuguesa”.

Depois de em 1968 ter sido nomeado como director-adjunto do jornal, em 1969 Guilherme de Melo escreveu uma extensa série de reportagens sob o título “Moçambique Norte – Guerra e Paz”, que são publicadas na primeira página do jornal, ao mesmo tempo que cria o espaço “Coluna em Marcha”, onde os soldados portugueses podiam exprimir as suas opiniões sobre os “factos” da guerra que travavam contra a Frelimo.

As reportagens em questão foram feitas alguns meses depois do assassinato do Presidente Eduardo Mondlane, a que o “Notícias” não deu especial relevo, afirmando posteriormente que o mesmo resultava de divisões internas dentro da Frelimo, prenunciando o fim da guerra.

À distância do tempo em que os factos de “Moçambique Norte – Guerra e Paz” foram registados, é interessante verificar quanto esse livro revela sobre o estado de espírito da “nação portuguesa” em Moçambique à época – o sentimento de isolamento, de desespero, de impotência e derrota que imperava entre os soldados portugueses.

Uma leitura atenta de “Moçambique Norte – Guerra e Paz” mostra que não só os soldados portugueses, mas também os seus oficiais estavam cansados e não percebiam o que estavam a defender e por que estavam a dar as suas vidas em Moçambique. Mas essa é uma leitura feita hoje, não a que se queria fazer passar na altura.

O destaque dado às reportagens de “Guerra e Paz” não foi o mesmo que, em 1970, mereceram as notícias sobre a “Operação Nó-górdio”, dirigida pelo General Kaulza de Arriaga, a qual se anunciava como a machadada final nas intenções de a Frelimo alcançar a independência pela via armada.

As anunciadas vitórias foram sendo esfumadas pela publicidade sobre o crescimento económico, a construção predial em Lourenço Marques, o surgimento de novos e atractivos serviços financeiros de vários bancos, o florescer de novas indústrias, desde o calçado às metalomecânicas, o sucesso das campanhas açucareiras, a beleza de Lourenço Marques como cidade de luz e glamour para os turistas sul-africanos e, com especial relevo, os feitos e vitórias dos jovens desportistas no basquete, hóquei, natação e das vedetas do futebol que singravam em Portugal.

No período entre 1971 e 74, para o “Notícias” a guerra resumia-se a algumas escaramuças isoladas em alguns distritos do território moçambicano a que a imprensa internacional dava relevo desmesurado, inventando histórias como o massacre de Wiriamu, ou sobre as verdadeiras razões por detrás da expulsão dos “Padres Brancos” em Tete, ou omitindo o envio compulsivo de estudantes da Universidade de Lourenço Marques para cumprir o serviço militar. 

Para o leitor assíduo do “Notícias”, a situação militar em Moçambique caminhava segura para a pacificação, o território respirava saúde económica e financeira, a inter-acção racial e social era amena.

“Notícias” e o golpe de Estado em Portugal

ASSIM percebe-se como e por que a direcção e a redacção do “Notícias” foi apanhada de surpresa pelo golpe militar de 25 de Abril de 1974, em Portugal.

Mas quem, de facto, ficou incrédulo e chocado com a notícia foram os leitores do “Notícias”. Primeiro pela inesperada queda do regime e, nos dias seguintes, quando se aperceberam que o golpe não se limitava à metrópole, mas que com ele vinha o advento da independência de Moçambique.

Deste sentimento são reveladoras as primeiras páginas do “Notícias” - a de 24 de Abril de 1974 e depois aquela que noticiou o golpe de estado em Portugal.

No dia 24 é dado especial destaque à vitória de John Vorster nas eleições que acabavam de decorrer na África do Sul em “defesa da manutenção do apartheid”, surgindo ainda nessa primeira página destaque para as declarações do chefe do exército colonial em Moçambique reafirmando: “não daremos quartel ao inimigo onde quer que ele esteja”.

Já sobre o golpe, o “Notícias” preferiu buscar palavras amenizadoras na declaração do chefe da junta militar golpista, General António Spínola, sobre a necessidade de “manter a Unidade da Pátria e não desmerecermos o sangue derramado nas terras do ultramar”.

A única leitura que se pode fazer daquilo que o “Notícias” quis então transmitir aos seus leitores era de, nada estava perdido, Moçambique ainda era Portugal, era preciso acreditar que ninguém havia caído em nenhum precipício.

A leitura das edições das semanas seguintes a esse golpe de estado não revela o que, entretanto, se estava a passar dentro do próprio jornal e em Lourenço Marques relativo à recusa dos jornalistas em submeterem os seus artigos à censura, exigências de leitores para que o jornal desse informação mais precisa e alargada sobre o que os verdadeiros líderes militares do golpe pensavam relativamente à autonomia e independência das colónias, as manifestações estudantis em Lourenço Marques, os preparativos para a celebração do sempre proibido dia 1.º de Maio ou até o aparecimento de bandeiras da Frelimo em alguns bairros da cidade capital.

O primeiro grupo político mais esclarecido a dar a cara sobre a situação política em Moçambique deu-se a conhecer a público nos primeiros dias de Maio de 1974 e disso o “Notícias” fez notícia. Tratava-se dos “Democratas de Moçambique”, então liderados por Almeida Santos e de que faziam parte outros intelectuais da praça entre advogados, economistas, sociólogos, estudantes, funcionários públicos e muitos ex-presos políticos da Frelimo, que se deram a conhecer na sede da Associação Africana em Lourenço Marques. Rui Baltazar, Mário Machungo, José Luís Cabaço, José Craveirinha, Malangatana Valente Ngwenya, Domingos Arouca, Raposo Pereira, Pereira Coutinho, Rui Nogar e Mateus Sansão Mutemba faziam parte desse grupo que, desde logo, declarou que a situação política de Moçambique passava pelo reconhecimento da Frelimo como interlocutora para a negociação sobre o seu futuro.

Em negociações, cujos termos nunca foram tornados públicos, o “Notícias” passou a ter como seu director um membro dos “Democratas de Moçambique”, o advogado Pereira Coutinho, tendo como seu adjunto José Luís Cabaço (que viria a ser Ministro dos Transportes e posteriormente Ministro da Informação).

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