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MARIA Celeste Mac-Arthur, nome de uma das mais renomadas fotojornalistas moçambicanas. Há dias passou à reforma, depois de 41 anos ininterruptos de uma imaculada carreira que a fez conhecer a sua terra de lés-a-lés e alguns países pelo mundo fora.

Nascida no distrito de Marromeu, na província de Sofala, Celeste Mac-Arthur começou a sua carreira no então “Notícias da Beira” em 1976. Tinha na altura 18 anos de idade e revela que nunca havia antes pegado numa máquina fotográfica. “Eu vim às escuras”.

Testemunhou a transformação do “Notícias da Beira” em “Diário de Moçambique” “bebendo” sempre, na humildade que a caracteriza, da experiência de vários profissionais com os quais trabalhou.

A sua passagem em definitivo à aposentação no dia 30 de Setembro foi, naturalmente, o pretexto para os “dois dedos” de conversa que decidimos manter nesta página.

Em definitivo, porque ela já estava há dois anos, mas acabou prolongando esse período até que, finalmente, em finais do mês passado deixou oficialmente de “clicar”. E a conversa iniciou mesmo desta maneira:

Celeste, gostaríamos que partilhasse com os nossos leitores um pouco da sua história no jornalismo moçambicano.

E, sem “papas na língua”, a fotojornalista contou-nos que principiou a sua carreira no “Notícias da Beira”, onde aprendeu o ABC com Fernando Veloso e Carlos Rodrigues. Por algum tempo, trabalhou na Foto Estúdio para aprender algumas técnicas de revelação de filmes.

Depois regressou à casa. Nessa altura, já fazia coberturas de comícios, futebol, basquetebol, andebol e outras modalidades desportivas.  Em 1981, o “Notícias da Beira” deixou de existir e nasceu o actual “Diário de Moçambique” (DM).

Participou em vários cursos. Fez coberturas presidências de Samora Machel, Joaquim Chissano, Armando Guebuza e, agora, Filipe Nyusi.

“Já fotografei quatro presidentes”, congratula-se, lembrando que também fotografou todos os governadores que já passaram pela província de Sofala, alguns dos quais designados ministros-residentes.

Estudar terreno

FOI nestas e noutras circunstâncias que Celeste Mac-Arthur diz que compreendeu que uma reportagem fotográfica não é só o “click”. “Há técnicas. É preciso estudar o terreno, fazer enquadramentos e quanto maior quantidade de coisas a observar melhor. O repórter-fotográfico tem de ser um grande observador. Ser sagaz”, recomenda, aos mais novos na profissão.

Nas suas palavras, na altura em que iniciou a profissão, como não houvesse televisão, a imagem era muito importante, muitas vezes mais do que o texto. A uma pergunta que não podia calar sobre como era o ambiente sendo ela a única mulher no meio de tantos homens, Celeste respondeu nos seguintes termos: “Mesmo por ser mulher, os homens incentivavam-me. Mas, eu própria, fazia o meu esforço acotovelando-me com eles para obter as melhores imagens. Quando me empurravam eu também empurrava”.

Ainda assim, reconhece a complexidade do trabalho, mas que os colegas como o falecido Kok Nam e Naita Ussene nas viagens protegiam-na em diversos momentos. O decano e também já falecido Ricardo Rangel, embora não viajasse muito, também o fazia.

Celeste diz que os outros colegas também a apoiavam, entre os quais o seu próprio marido, o falecido jornalista e poeta Heliodoro Baptista, que fazia críticas muito duras às suas imagens, contudo sempre com intuito de ajudá-la a melhorar.

Os momentos mais marcantes

Quisemos saber dela sobre os grandes momentos que marcaram o seu percurso ao longo destes 41 anos. Celeste Mac-Arthur recordou-se da primeira vez que fotografou o Presidente Samora Machel na Beira, durante a ofensiva organizacional.

“Lembro-me que estava grávida, mas tinha que subir ao pódio. Sentia que transportava uma grande responsabilidade nas minhas costas. Fiz o meu melhor, acho, explicou Celeste.

A propósito do Presidente Samora, Celeste Mac-Arthur recorda com muita emoção o seguinte:

“Sempre que me encontrasse conversava comigo, perguntava, menina, tudo bem? E fazia muitas perguntas. Aquilo marcou-me. Devo lembrar, no entanto, que Samora Machel tratava os jornalistas sempre de forma muito especial. Queria saber se estavam bem, se já tinham comido e coisas assim”.

Um outro grande momento foi quando o então director Botelho Moniz foi buscar-me à casa para ir fotografar o incêndio nas bombas de gasolina da Munhava, num ataque inimigo que tinha acontecido, na altura da guerra civil dos 16 anos.

Outras experiências igualmente marcantes aconteceram fora do país. A primeira no Quénia, em 1985, numa conferência mundial de mulheres. A segunda no Brasil, em 2012, na conferência mundial sobre o ambiente. “No Quénia, nunca tinha visto tanta mulher junta. No Brasil nunca tinha visto tanta gente junta. É difícil descrever a sensação. Só estando no terreno”.

Uma profissão de sacrifícios

A CONVERSA era contagiante. Por isso, não resistimos a perguntar se a profissão de fotojornalista nunca chegou a pôr em causa o seu lar, o seu dever de mãe e esposa, por ter de trabalhar, às vezes, até altas horas; por ter de viajar, não raras vezes, no meio de homens!

A nossa entrevistada não se sentiu incomodada, disse que não podia dizer que isso nunca tenha acontecido. Assumiu, portanto, que essa situação realmente já lhe trouxe constrangimentos, pois, nas suas palavras, o homem pode não falar, mas no fundo tem um sentimento.

“Contudo, o meu marido nunca propôs que eu deixasse de trabalhar. Eu também sempre batalhei para manter a minha independência e ajudou-me a manter na profissão”.

Duas perguntas marcaram o fim desta entrevista. Uma sobre que mensagem poderia deixar às outras mulheres nesta hora em que está a sair e, a outra, se aconselharia alguma mulher a seguir o fotojornalismo.

“Temos de lutar pelos nossos objectivos. Ter um foco. Nunca digam que já chega. Acerca do jornalismo, repito, eu vim às escuras. A profissão é boa. Tens de lidar com muitas pessoas, mas abdicar de muitas coisas. É uma profissão de sacrifício. Lembro-me que na Rádio Moçambique, no meu tempo, só havia locutoras, as mulheres não iam à rua. Só mais tarde! Mas digo, vale a pena”.

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