A valorização e divulgação da gastronomia moçambicana dentro e fora do país é quase inexistente, o que “tira sono” aos chefes de cozinha e desmotiva o exercício da profissão.

Como todo o trabalho é precedido de “sonho e gosto”, os fazedores de culinária recorrem a palavras, sempre que se deparam com esta realidade que é, para eles, triste.

Essas e outras observações são feitas pelo prestigiado cozinheiro moçambicano, Beto Graça, que este ano completa 33 anos de percurso no universo gastronómico.

Chef Graça, como é sobejamente conhecido, já elevou a bandeira nacional em vários países, cozinhando para o mundo. Numa das viagens trouxe ao país a medalha de ouro. 

Mesmo com tanto prestígio, vasta experiência e medalhas ganhas, Beto Graça lamenta o facto de em Moçambique não se dar o devido valor à culinária.

“A culinária moçambicana peca num único aspecto: falta de divulgação”, desabafa.

Apesar de serem pratos com prestígio internacional, Graça entende que se devia pegar nesse aspecto, como o sal que apimenta os alimentos na panela, valorizar-se mais esta arte e olhar-se mais para os seus fazedores.

Sobre a remuneração dos chefes de cozinha, Graça é de opinião que o problema está na parte das unidades hoteleiras que não olham muito para isso, sublinhando o facto de hoje haver cozinheiros moçambicanos talentosos que merecem ser reconhecidos.

“O carinho, a promoção de feiras, momentos de shows e oportunidade de diálogo com os clientes nos restaurantes são algumas formas que podem ser usadas para promover essa arte”, explicou o chefe de cozinha Beto Graça.

Aliado ao parecer do mais antigo chefe de cozinha está a principiante Paula Soares, no universo culinário há dez anos. No entanto, só recentemente atingiu o estatuto de chefe.

Paula Soares reconhece que não é fácil fazer carreira de cozinheiro em Moçambique devido à fraca remuneração e desvalorização da profissão. Mesmo ela está na profissão mais por paixão do que por dinheiro.

“Aqui em Moçambique ninguém reconhece a carreira de cozinheiro, embora todo o mundo coma e goste de boa comida. Nós temos grandes chefes de cozinha que trabalham fora do país, e quem nem são mencionados entre nós porque ninguém se interessa por esta profissão”, diz, deplorando o pouco salário que auferem resultante desta actividade. “Quando negociamos um preço com alguém, ela aceita mais depois recua, isso coloca em causa o trabalho”.

Outro problema ligado à remuneração tem a ver com o patronato que não paga mediante o trabalho que exercem, daí que o único “furo” de melhorar os rendimentos sejam trabalhos extras.

A cozinheira salienta que da mesma forma que são promovidas galas de moda, desporto e outros eventos similares, devia-se também organizar, com a mesma pompa, festivais de culinária para prestigiar os fazedores dessa bela arte por todos apreciada.

Uma questão de segurar as oportunidades

O nível de elevação da culinária, quer moçambicana quer brasileira, está na insistência e busca de oportunidades dos seus fazedores, apesar de não ser de todo fácil, principalmente quando não há motivação, defende Rui Tavares, cozinheiro brasileiro residente em Moçambique há cerca 10 anos.

Tavares, que “pilota” panelas há 20 anos, acredita que ao fazer bom uso das oportunidades que aparecem diariamente com diferentes personalidades, e usando as redes sociais para divulgar o trabalho, possível começar-se a lutar pela valorização da classe dos cozinheiros.

“As oportunidades devem ser conquistadas e aproveitadas. É preciso ser-se profissional, independentemente daquilo que os outros julgam de nós. Se não há reconhecimento num determinado lugar, este virá de qualquer outro ponto”, frisa Rui Tavares, adicionando tratar-se de uma questão de empenho e de força de vontade que as outras coisas virão, tal como é o caso da remuneração.

“É importante procurar sempre e nunca desistir e nem parar”, aponta. 

Beto Graça e Rui Tavares proferiram essas declarações numa feira gastronómica onde juntava a gastronomia moçambicana e brasileira.

Trata-se de um evento que uniu aproximadamente mais vinte e cinco chefes de cozinha, onde cada um, num intervalo de tempo de 10 a 15 minutos, demonstrava os seus “dotes” culinários, aplicando a criatividade naquilo que foi chamado de “encontros saborosos gastronómicos”.

A iniciativa dos dois cozinheiros tem o condão de querer conferir maior prestígio à arte de cozinhar.

Pretendem igualmente criar uma oportunidade de intercâmbio entre os cozinheiros moçambicanos e brasileiros, provando pratos e petiscos.

Como cartão-de-visita, a gastronomia moçambicana esteve recheada de matapa com caranguejo, frango à zambeziana, mucapata, quiabo com camarão, tripas de cabrito, o famoso “kongue”.

Do lado brasileiro o cardápio foi a feijoada, picanha, frango a passarinho, alcatra, mucapata de camarão.

Ocasião para divulgar a marca

Um dos momentos marcantes desta feira de gastronomia foi a demonstração, em 15 minutos, de diversos pratos por parte dos cozinheiros.

No momento em que demonstravam os seus dotes, eles faziam também do evento uma ocasião para lançar a sua marca mostrando, sem limites, o que de melhor sabem fazer.

Alberto Martinho é cozinheiro há 30 anos, proveniente da província de Cabo Delgado, na cidade de Pemba. Trabalhou em vários restaurantes na sua província, mas depois, através de alguns patrocinadores, chegou a Maputo, em 1995, onde trabalhou em vários restaurantes e pastelarias.

Só para realçar, Martinho, sendo moçambicano, começou por confeccionar pratos italianos e depois os moçambicanos. E diz ele que aprende diariamente com a sua esposa.

Alberto Martinho confessa que para além de demonstrar em pouco tempo o seu “dote”, viu no evento a oportunidade de promover a sua boa imagem aos consumidores que estiveram presentes.

“Sempre que estou num evento procuro fazer o máximo para que as pessoas depois me procurem. Quando alguém pede para eu cozinhar, não procuro agradar o patrão, mas sim as pessoas que vão comer, porque pelo menos dois ou três pessoas vão procurar meus trabalhos”, garante Alberto Martinho.

Assim como Martinho, está Person Dande, chefe de cozinha há dezoito anos, saiu da província de Nampula, concretamente em Nacala, para Maputo, só para demonstrar aos “maputenses” o que há de melhor na sua terra.

“Aproveito essa oportunidade para divulgar por meio de conversas os pratos típicos de Nacala, como siricir, matapa de mandioca com castanha, xima preta, tocosada”, disse Person Dande.

Mas também além da marca, os cozinheiros foram unânimes em afirmar que o evento serviu para a troca de experiências e união dos mesmos para tornar notória a sua existência na sociedade.

Frango à Zambeziana e Feijoada na liderança 

Dentre os vários pratos ao dispor dos consumidos na feira, os mais procurados foram o famoso frango à zambeziana e a querida feijoada brasileira.

Lelé Davoni, uma das presentes no evento, dirigiu-se logo a mesa para provar a feijoada preta do Brasil. Tudo porque, segundo contou, queria comer diferente.

“Já faz muito tempo que não como a feijoada brasileira, por isso decidi provar primeiro, mas também não abri mão de sabores como a matapa, que é a nossa comida moçambicana”, disse Davoni.

Aconselhou que, na próxima edição, os pratos devem ser acompanhados de algumas bebidas mais conhecidas dos dois países, sejam elas tradicionais ou de reconhecido mérito.

Assim como Davoni, estava Cecília Bastos que decidiu experimentar o frango à zambeziana, por uma mera curiosidade, pois havia o provado.

“Usei este evento para provar esta delícia porque só ouvia falar”, contou.

Enquanto uns escolhiam pratos simplesmente para provar, outros usaram o momento para retornar às suas origens, isto numa só refeição.

Este é caso de Neyde Loia, nascida em Tete. Sem hesitar, serviu-se de uma mucopche e mucapata. Mucopche é por ser filha de gente originária da tribo nhungwe, e a feira deu oportunidade dela relembrar os sabores da sua terra natal.

“É uma oportunidade ímpar voltar às minhas raízes, por isso logo que vi estes pratos no cardápio não hesitei, servi. Sinto-me em Tete”, afirmou.

Assim como Neyde Loia, vários consumidores deixaram ficar a ideia de que este evento deve ser promovido gradualmente outras iguarias como forma de elevar ainda mais a gastronomia moçambicana.

A feira gastronómica não foi caracterizada apenas por delícias de pratos. Foram servidos momentos musicais, cujo cardápio eram os moçambicanos Miguel Xabindza, David Daniel e brasileiro Robson.

Nilza Gune

 

Câmbio

Moeda Compra Venda
USD 58,31 59,47
ZAR 4,74 4,83
EUR 70,23 71,64

25.01.2018   Banco de Moçambique

Opinião & Análise

AGORA que se aproxima o período eleitoral - a 10 de Outubro realizam-se as ...
2018-04-20 00:30:00
O ACTUAL cenário que se desenha com a provável mudança de ...
2018-04-20 00:30:00
HÁ sensivelmente um mês, a Inglaterra lançou um autêntico ...
2018-04-20 00:30:00
UNS chamam “praxe académica” e outros ...
2018-04-19 00:30:00
O GOVERNADOR de Inhambane, Daniel Chapo, antes de exercer a actual ...
2018-04-19 00:30:00