Os residentes da localidade de Maqueze, distrito de Chibuto, em Gaza, vivem à base da pastorícia e agricultura, mas a chuva, há vários anos, teima em não cair, perpetuando a situação de extrema pobreza na região.

O verde das árvores e dos arbustos coloram o percurso de 97 quilómetros da cidade de Chibuto até Maqueze. As residências estão dispersas. A paisagem é composta por manadas de bois que desfilam no meio da estrada.

Estima-se que 18 mil, das cerca de 21 mil cabeças de bovinos de Chibuto, pertençam à localidade, havendo criadores que atingem a fasquia de sete mil animais.   

Entre solavancos e buracos, causados pelas chuvas anteriores na estrada de terra batida, a viagem é cansativa, mesmo se esta for feita numa viatura com tracção às quatro rodas, com os amortecedores em dia.

No caminho, chamou-nos atenção para o facto de que a precipitação que nos acompanhava, desde que saímos da cidade de Maputo, ter cessado nas imediações de Maqueze, tomando ali corpo a poeira, da areia seca.  

“Um dos problemas que mais nos incomoda é a falta de água”, comenta Safira Mahanjane, nascida naquela zona e que cedo saiu para estudar fora daquela região. Actualmente vive em Maputo. É membro da Associação dos Naturais e Amigos de Maqueze (ANAMAQ).

Em consequência da falta de chuva, o acesso à água, tanto potável, assim como para a agricultura e para o gado, é um exercício penoso, que pode colocar mães de família – algumas menores de idades devido aos casamentos prematuros – e jovens pastores a percorrerem longas distâncias à procura do precioso líquido.

Uma pequena reportagem publicada na edição de Outubro de 2005, neste matutino, indica tratar-se de um problema já antigo naquele posto administrativo, que ocupa uma área de 2.599 quilómetros quadrados.

O “desenrascanço” de sempre

A água para o consumo é retirada a “nove quilómetros daqui”, diz Souza Nhambe, na sede de Maqueze, gestor da pequena empresa privada que presta o serviço de distribuição do precioso líquido. A mesma é feita a partir da nascente do rio Chiguduguduine, no posto Administrativo de Alto Chonguene. As torneiras jorram 24 horas por dia.

Os furos e poços feitos na região só alcançam água salubre. “Antigamente, as nossas mães extraiam sal daqui para vender”, conta Sarifa, detalhando inclusive que “era sal fino”.

O pequeno sistema de abastecimento está em actividade desde Agosto de 2014. Actualmente conta com nove trabalhadores e um administrador, distribuindo uma média de 43.700 (quarenta e três mil e setecentos) litros diariamente.

O empreendimento é constituído por um tanque com capacidade para oitenta mil litros na margem do rio, onde é extraído. Há mais dois no Centro de Tratamento de Água, um com igualmente oitenta mil, soterrado, e um outro, alto, com 10 mil litros.

Souza Nhambe, nativo, conta que a aridez da terra, em resultado da escassez de chuva, constitui um embaraço à expansão do sistema para as 17 localidades.

“Queremos alastrar a distribuição, mas está a ser difícil, pior porque pagamos dezassete mil meticais, diariamente, pela máquina que alugamos para a escavação”, lamenta Souza Nhambe. A localidade de Mubotxua já se beneficia dessa água.

O gestor conta que no início da implementação do projecto houve uma resistência por parte dos nativos ao pagamento da taxa mensal pelo consumo de água. A percepção geral era de que o fornecimento seria gratuito.

“Não está fácil, mas já há sinais de mudança”, disse. Queixou-se de que os conterrâneos são resistentes em aceitar iniciativas dos nativos. Facto que considera ser uma das razões para o lento desenvolvimento a que está submetida a zona.

Souza Nhambe lamentou a pobreza extrema que está voltada a maioria da população, que, conforme dados de 2002, era constituída por 21.534, condicionando o pagamento da factura no final de cada mês.

De modo a contornar essa situação, a factura é enviada com 10 dias de antecedência e abre-se espaço para que o pagamento, desde que justificado o atraso, seja feito três meses depois.

A energia eléctrica tarda em chegar

“O valor que pagamos pela água é muito alto”, observa Argélio Malate, jovem de 35 anos que ocupa o cargo de chefe de posto. Entretanto, reconheceu as melhorias que a instalação do sistema de abastecimento trouxe à vida das comunidades.

Sustenta a sua posição em relação aos custos considerando a forma como as pessoas vivem naquela região, em que o ensino geral, nas 11 escolas existentes, termina na 10.ª classe, obrigando muitos jovens a rumar a Chókwè, Chibuto, Xai-Xai e Maputo para concluir os seus estudos.

Regra geral, observa, eles não voltam. Instalam-se por lá e deixam um vazio de massa cinzenta que poderia impulsionar o desenvolvimento local.

O chefe do posto destaca que, por exemplo, a agricultura, que é praticada, ainda é de cabo curto, de subsistência, tendo como principais produtos o milho, o feijão nhemba e a batata-doce.

Argélio Malate, nascido em Chaimite, alguns quilómetros dali, defende a necessidade de incentivar os nativos a mudar a sua forma de ver o mundo, pois acabam vivendo desgraçados, apesar de serem, nalguns casos, proprietários de várias cabeças de gado.

Em parte, diz que tal ocorre por falta de energia eléctrica, que impossibilita a edificação de bancos em Maqueze. “O comércio de gado não tem onde conservar o dinheiro”, queixa-se o jovem.

Daí que um dos sonhos da comunidade, segundo conta, é ter acesso à rede da linha de Cahora Bassa. Actualmente, são alimentados por painéis solares e geradores, mas a primeira opção não suporta as necessidades domésticas básicas e a segunda, geradores, é cara.

A instituição bancária mais próxima está em Chibuto e a viagem para lá custa 120 meticais, o que representa 240, somando a ida e a volta.

Dormem em cima do dinheiro

Cruzamos com Carlota Nhampule, funcionária do Banco de Moçambique, que se encontrava a fazer uma pesquisa sobre as possibilidades de alargamento de serviços financeiros digitais, como o caso do Mpesa, por exemplo.

Durante a investigação, constatou que as pessoas dormem, literalmente, sobre o dinheiro, quando não enterram nos seus quintais e nas machambas, entre outras opções afins.

“Mas aqui há problemas de rede móvel; uma não funciona há um ano e as outras duas têm rede muito fraca”, disse Carlota Nhampule, defendendo que a energia eléctrica é uma das prioridades para Maqueze.

Depois de ter ouvido a classe dos comerciantes, a bancária concluiu que há oportunidades para o negócio bancário na região, havendo necessidade de se criar infra-estruturas que os acomodariam, assim como vias de acesso melhoradas.

“Circula muito dinheiro aqui em Maqueze, do negócio de carvão e da venda do gado bovino, mas é preciso que se criem infra-estruturas para atrair investimento”, disse a funcionária do Banco de Moçambique, que afirmou existirem várias oportunidades por se explorar em Maqueze, que podem gerar emprego e rendimentos, tanto para o investidor, assim como para a comunidade.

Uma luz acesa pela vontade

Em 2004, um grupo de nativos juntou-se para criar uma associação que pretendia, de acordo com o “Notícias” de 21 de Janeiro desse ano, “promover programas de desenvolvimento económico, social e cultural daquela localidade a favor dos locais”.

A agremiação designa-se Associação dos Naturais e Amigos de Maqueze (ANAMAQ). Nessa altura, consta do documento, foi eleito para a presidência da agremiação Betuel Mahajane, que no mês passado foi reconduzido ao cargo pelos seus pares.

Foi para apresentar o novo elenco directivo que no dia 24 de Março, sábado, deslocaram-se à localidade alguns membros da associação, onde ofereceram material escolar para crianças em situação de vulnerabilidade.

Deu-se primazia a menores órfãos de pai e mãe, a viver com parentes em condições económicas precárias. O objectivo, segundo contam, é ajudá-los no que for possível, de modo a salvar o seu futuro.

A entrega foi feita no espaço em que pretendem instalar a sua futura sede. Ainda é só capim e árvores antigas.

Sentado na sua estalagem, pouco depois da distribuição dos donativos, Betuel Mahajane disse que Maqueze está a desenvolver. Aponta que um dos indicativos é a construção de casas de alvenaria, que há alguns anos era impensável.

Antigamente, como ainda há, as casas eram feitas com material local. Eram pequenas cabanas redondas, cobertas por capim, sustentadas com paus de ramos de árvores, revestidas com argila.

Porém, “ainda não temos energia eléctrica, essa é a nossa maior preocupação neste momento e vamos buscar apoio junto das autoridades para que este projecto seja possível”, diz Betuel Mahajane.

Esse serviço público, prossegue, possibilitaria, por exemplo, a instalação de uma estação de rádio comunitária que informaria a comunidade sobre o que está acontecer no mundo, pois “estamos isolados”.

Recuando no tempo, recorda que Maqueze já produziu algodão em grandes quantidades, que era fonte de rendimento de várias pessoas, que actualmente estão dependentes do milho apenas.

Nessa altura, na década de 60, Betuel Mahajame recorda com nostalgia que “havia represas que nos garantiam água o ano todo mas que hoje já não funcionam”. Na sua opinião, poderia fazer-se um investimento para reactivá-las.

A ANAMAQ actualmente conta com 64 membros inscritos, que, de acordo com o presidente, pretende contribuir para “colocar Maqueze a andar”, com acções de lóbis junto ao governo no sentido de indicar as áreas mais críticas para intervenção imediata.

Foi nesse quadro que apontou, para além das já referidas, a educação para adultos, enquadramento dos jovens desempregados, energia eléctrica e uma estrada em condições.

“Estradas melhoradas poderiam incentivar os residentes a comprar carros”, já antes disso tinha comentado Argélio Malate, chefe do posto.

Por outro lado, a expectativa de Betuel Mahajane é que com as quotas dos associados e a boa vontade de gente com possibilidades desenvolver acções que ajudem a impulsionar o crescimento da região.

Resultado da guerra de desestabilização

Quando a noite chega no final de semana de Maqueze, há oásis no meio da escuridão, onde a música vai alta até ao raiar do Sol. A artilharia é sustentada por geradores a diesel e à gasolina. Jovens e crianças misturam-se em bamboleios frenéticos entre o consumo de bebidas alcoólicas e o fumo de cigarros.

Nas imediações da casa de pasto ao ar livre, estão as antigas lojas deixadas pelos colonos, que deixam adivinhar os projectos duradouros que tinham com a região. Hoje estão ocupados pelos nativos, que vão fazendo os seus negócios.

Até 1983, a maioria dos actuais residentes viviam dispersos da localidade-sede, indo apenas para vender algodão. “Os nossos pais, na era colonial, eram aldrabados, os sacos nunca passavam de 25 quilogramas na balança, por isso nossos pais nos mandaram à escola para estudar e poder negociar melhor”, recorda Betuel Mahajane.

A guerra de desestabilização levou as pessoas a juntarem-se num espaço protegido para fugir das atrocidades, e esse lugar era a actual sede de Maqueze, que, segundo conta, foi uma zona que não houve penetração dos que faziam a guerra.

Juntaram-se, nesse contexto, as famílias Nhambe, Macuacua, Mahajane, Muchanga, Matsimbe, Mate e Macamo, que hoje dominam a zona. Seu primeiro chefe era um Matsimbe.

O nome Maqueze vem de um vale que se chama Maquezene, que nasce no distrito de Chókwè para desaguar em Alto Changane, no rio Nhanquele.

LEONEL MATUSSE JR.

 

Câmbio

Moeda Compra Venda
USD 58,31 59,47
ZAR 4,74 4,83
EUR 70,23 71,64

25.01.2018   Banco de Moçambique

Opinião & Análise

AGORA que se aproxima o período eleitoral - a 10 de Outubro realizam-se as ...
2018-04-20 00:30:00
O ACTUAL cenário que se desenha com a provável mudança de ...
2018-04-20 00:30:00
HÁ sensivelmente um mês, a Inglaterra lançou um autêntico ...
2018-04-20 00:30:00
UNS chamam “praxe académica” e outros ...
2018-04-19 00:30:00
O GOVERNADOR de Inhambane, Daniel Chapo, antes de exercer a actual ...
2018-04-19 00:30:00