A FOME no país e na província de Manica, em particular, está sendo assunto do passado, mercê do empenho dos camponeses, pequenos e grandes produtores, impulsionados pelo Plano Estratégico para o Desenvolvimento da Agricultura (PEDSA) 2011-2020.

Um dos grandes desafios deste plano é a transformação estrutural do sistema de produção, dominado por pequenos produtores de subsistência, para médios e grandes produtores comerciais, bem como o desenvolvimento da agro-indústria assente no aumento da produção e da produtividade.

Neste contexto, o Executivo está a implementar o Programa Nacional de Mecanização Agrária (PNMA) que contribui com soluções práticas e dinâmicas atinentes à promoção do emprego, melhoria da produtividade e competitividade do sector agrário, como preconiza o Programa Quinquenal do Governo na sua prioridade número três.

Constitui objectivo geral do programa, aumentar os níveis da produção e da produtividade agrária para um crescimento médio anual de, pelo menos, 7 por cento, segundo preconiza o PEDSA, que aponta o aumento da área lavrada e o uso de pacotes tecnológicos como um dos desafios na perspectiva de melhorar os níveis da produção e da produtividade agrária.

Constituem também objectivo do PNMA, contribuir para o aumento da renda dos pequenos produtores, através da provisão de serviços mecanizados e desenvolvimento da cadeia de valor, bem como melhorar o nível e a qualidade de preparação dos solos e das operações subsequentes às lavouras. Assim, para o desenvolvimento do sector agrário, Moçambique identificou 15 cadeias de valor estratégicas, das quais seis prioritárias para dinamizar a competitividade no sector agrário, incrementar as exportações, garantir a segurança alimentar e nutricional da população e reduzir a dependência das importações para suprir o défice prevalecente.

Arroz, feijão, hortícolas como repolho, tomate e cebola, raízes e tubérculos, nomeadamente mandioca, batatas doce e reno, avicultura e bovinicultura são alguns dos produtos que integram as 15 cadeias de valor em que figuram, igualmente, cereais como milho, soja, gergelim e trigo.

Na lista dos produtos estratégicos e prioritários privilegiados para a exportação foram indicados seis, a destacar a banana, açúcar, castanha de caju, algodão, macadâmia e paprica, enquanto para a revitalização foram eleitos o chá, café, copra, sisal e citrinos, como laranja, tangerina, toranja e limão.

O Ministro da Agricultura e Segurança Alimentar, José Pacheco, que apresentou, recentemente, uma reflexão sobre os caminhos que podem conduzir o país à dinamização da competitividade no sector agrário, insistiu que o alcance destes objectivos passa pela transformação estrutural e gradual dos produtores, da agricultura de subsistência para uma agricultura orientada para o mercado.

Com efeito, afirmou que aumentar o rendimento agrícola por unidade de área, melhoria da gestão e maneio na criação do gado e avicultura e assumir as cadeias de valor, associativismo e cooperativismo, as parcerias público-privadas-produtores, transferência de tecnologia, bem como melhorar os sistemas de produção, intensificar e diversificar a produção e ter foco na industrialização são o caminho que deve ser seguido para o alcance desta agenda.

Falando em Chimoio, o governante lembrou que o país comporta, neste momento, 4.268.585 explorações agrícolas, das quais 99 por cento são do sector familiar, 98 por cento realiza a agricultura de sequeiro, emprega 72 por cento da população economicamente activa, que contribui com 25 por cento para o Produto Interno Bruto (PIB), e 16 por cento para as exportações nacionais.   

Com efeito, para salvaguardar o aumento da produção e da produtividade, o ministro defendeu ser necessário dar primazia às componentes de investigação, visando gerar e disseminar tecnologias, assistência técnica aos produtores e mecanização e irrigação.

Nesta perspectiva e para dinamizar a produção no sector agro-pecuário, afirmou ser recomendável a provisão da semente básica, de ciclo curto, cultura de tecidos, agricultura de conservação, uso das estufas, das tecnologias pós-colheita, produção de vacinas, inseminação artificial e produção de embriões.

Na componente assistência técnica aos produtores, salientou a necessidade do aumento da cobertura, oferta e procura de serviços de apoio para o incremento da produção, produtividade e apoio no acesso à assistência técnica, tendo em consideração a utilização racional e sustentável dos meios e factores de produção.

Casos de sucesso que despontam

EM Manica, mais de um milhão e 244 mil hectares foram lavrados e semeados na campanha agrária 2016-2017. Desta área, a mecanização agrícola contribuiu com 316.405 hectares, sendo 77.488 para tractores e 238.916 para tracção animal, o correspondente a uma percentagem de 7,54 e 23,25 por cento, respectivamente.

Sobre a tracção animal, pelo menos 2054 criadores de bovinos foram treinados em técnicas atinentes durante a campanha finda. Ao longo do último triénio, o número de criadores treinados ascendeu a 12.667, num projecto executado com apoio de Millers International, em parceria com a Land OʼLakes.

No global, de acordo com a directora provincial de Agricultura e Segurança Alimentar de Manica, Sónia Namahumbo, a implementação do PNMA está a revolucionar a agricultura nos últimos 10 anos.

Estão disponíveis, no âmbito da mecanização agrária, na província, 267 tractores, dos quais 55 integram os 12 parques de máquinas que funcionam em 10 dos 12 distritos de Manica, com excepção de Machaze e Mossurize, e um centro de prestação de serviços agrários localizado em Catandica, no distrito de Báruè. Os distritos de Vanduzi e Macate possuem dois parques cada.

Do total dos tractores arrolados no âmbito da mecanização agrícola, 212 foram alocados ao sector privado, instituições públicas de ensino e investigação e singulares no quadro do Plano Estratégico de Desenvolvimento do Sector Agrário.

A nossa Reportagem soube que esforços estão em curso com vista ao estabelecimento de parques de máquinas em Machaze e Mossurize, onde até ao momento não foram identificados produtores elegíveis para gerir os parques.

Sónia Nhamahumbo esclareceu que o problema prende-se com a falta de capacidade financeira dos proponentes para a sua comparticipação na aquisição dos tractores, aclarando ser um dos critérios de elegibilidade e adjudicação, a posse, pelo proponente, de 50 por cento do valor global do equipamento.

Dos concursos lançados para o efeito, segundo a fonte, os candidatos dos dois distritos nenhum foi apurado. “O problema não é da falta de disponibilidade do equipamento para a constituição dos parques nos dois distritos, mas sim da inelegibilidade dos concorrentes que não têm dinheiro para comparticipar, mesmo com o apadrinhamento do Governo, que chegou a baixar o valor para 25 por cento”, disse a directora provincial.

No global, segundo ela, os equipamentos agrícolas adquiridos no âmbito do Programa Nacional de Mecanização Agrária absorveram um investimento de cerca de 80 milhões de meticais, dos quais 78.387 milhões aplicados nos parques de máquinas e 1.606 milhões em apoio ao produtor privado, a título de crédito.

Ausência de “caterpillars” emperra a mecanização

EMBORA os parques de máquinas estejam a contribuir para o aumento das áreas da produção e, consequentemente, da produtividade, eles representam um desafio enorme não só para os gestores, como também para os próprios produtores.

Os gestores, por exemplo, reclamam pelo baixo poder de compra por parte dos produtores, bem como da presença de sebos que dificultam o trabalho dos tractores em alguns campos. Eles são de opinião que o lote de máquinas incorpore um “caterpillar”, que deverá se ocupar pelo trabalho preliminar de remoção de sebos para facilitar as lavouras mecânicas.

As longas distâncias percorridas pelos tractores para chegarem às machambas dos interessados, associadas à dispersão destes campos de produção e às avarias dos próprios tractores, são apontadas entre os maiores constrangimentos, segundo Fabião Miguel, gestor do parque de máquinas de Vanduzi.

Dados facultados por Isidro Munjovo revelam que quatro tractores estão inoperacionais, sendo 3 em Báruè e um em Tambara e dois foram adquiridos com defeitos de fabrico, facto que não os permitiu laborar desde que chegaram nos parques de máquinas dos distritos de Macate e Tambara.

IRRIGAÇÃO: O milagre que as montanhas oferecem 

DOS mais de 20 mil hectares irrigáveis, nove mil estão, neste momento, a beneficiar dos 23 sistemas de rega que abrangem empreendimentos dos sectores privado, cooperativo e familiar nos distritos de Báruè, Vanduzi e Sussundenga, sendo que, na sequência, as suas condições de vida dos produtores estão a melhorar substancialmente.

Com efeito, a terra arável, outrora usada para a produção de subsistência na província, passou a acomodar empreendimentos agrícolas virados essencialmente para o mercado nos distritos, visando, entre outros objectivos, garantir o cumprimento dos negócios através de uma produção que pode ser feita durante todas as épocas do ano.

Há dias, o “Notícias” esteve nos regadios de Belasse, nos distritos de Vanduzi e Catandica, em Báruè, o primeiro pertencente a uma cooperativa de pequenos agricultores. Testemunhou o trabalho desenvolvido, visando combater a fome e aumentar a renda dos produtores. Os cooperativistas dedicam-se à produção de repolho, “baby corn” e piri-priri, numa área de 28 hectares, que vendem à Companhia de Vanduzi. Esta, por sua vez, exporta a produção para Inglaterra e Holanda. Já o regadio de Catandica é orientado à produção de fruteiras, como laranjeiras e litches, da empresa Serra-Choa Frutas, do Grupo Nzara Yapera, de Peter Waziwei, que também se dedica à produção da pêra abacate, exportada para Europa, através da Vestefália. Aqui soubemos que o regadio foi implantado, em 2015, com fundos próprios, extraindo as águas por gravidade, de uma nascente, a partir da cordilheira da Serra-Choa. O Fundo de Desenvolvimento Agrário (FDA), através do Programa Nacional de Fruticultura, forneceu 3000 mudas de litcheiras de variedade mauritius, importadas da África do Sul, que vão ser multiplicadas para posteriormente serem vendidas a preço bonificado aos fruticultores da região.

O director de produção da empresa Sementes de Nzara Yapera, Rungano Waziwei, informou que a nascente onde a Serra-Choa Frutas retira a água localiza-se a três quilómetros dos campos de produção, no mesmo local onde a associação Piscina também retira o precioso líquido para irrigar as suas fruteiras, desta feita com apoio e assistência técnica do Projecto de Desenvolvimento de Irrigação Sustentável (PROIRRI).

No global, de acordo com  a directora provincial de Agricultura e Segurança Alimentar, o PROIRRI investiu cerca de 270 milhões de meticais para estabelecer os 23 regadios implantados nos três distritos que durante todo o ano, para além do “baby corn”, piri-piri e abacate, destinados à exportação, produzem batata-reno, feijão, tomate, cebola, alho e semente de milho destinados ao consumo e à comercialização no mercado nacional.

Muitos destes regadios, segundo constatámos, beneficiam-se da água que brota das nascentes que proliferam nas montanhas da província. O precioso líquido, que outrora era drenado para os rios em direcção ao mar, nalgumas vezes causando estragos, passou a ser útil para a agricultura.

Produção pecuária imprescindível

APECUÁRIA é um dos sectores da agricultura que contribui, grandemente, para a melhoria da dieta e segurança alimentar da população. Com efeito, Manica não está atrás neste sector. Para além da produção de frangos, ovos e pintos em quantidades industriais, a província é das mais relevantes na produção do leite e seus derivados.

Dados, recentemente, fornecidos por Jimis Deve revelam que Manica prevê atingir este ano 816.500 litros deste produto, de um total de 777.120 conseguidos no ano anterior. Durante o primeiro semestre deste ano, tinha atingido 52,8 por cento do plano anual.

A recente importação pela empresa Clifton Meadows e o fomento do gado leiteiro, com apoio da Land OʼLakes que beneficiaram os médios e pequenos criadores, são considerados alguns dos factores que determinaram o crescimento da produção leiteira da província.

Há dias, o “Notícias” visitou vários empreendimentos pecuários nos distritos de Vanduzi, Macate e Sussundenga e soube que, neste momento, Manica conta com um efectivo leiteiro de 900 cabeças, distribuídas pelos sectores comercial e familiar.

Dos produtores industriais, Jimis Deve apontou a Dan Moz, com 400 cabeças, Clipton Medows, com 355, e Agro-Mago, com 35. Raimundo Muguro, gerente da farma Clipton Medows, afirmou que a empresa regista uma produção média por cada cabeça de 17 litros de leite em duas mungições diárias, perfazendo uma produção diária global de 2465 litros.

A média mundial, segundo Farai Muguro, é de 18 litros por cada vaca, por dia, sendo ambição da empresa atingir tais níveis. O segredo do incremento dos níveis de produção leiteira, segundo a fonte, é a correcta suplementação com ração e silagem, para o que anunciou que a Clipton Medows possui 36 hectares de milho unicamente destinado à produção de silagem e feno para a suplementação dos animais.

Quanto à carne bovina, Jimis Deve disse estar prevista para 2017 uma produção de 2536 toneladas, enquanto para caprinos, suínos e galináceos a produção anual poderá situar-se em 152, 115 e 11.245 toneladas, respectivamente. Em termos de efectivos, o nosso interlocutor anunciou existirem na província 228.504 cabeças de gado bovino, 347.735 caprinos, 59.434 suínos e 946.088 galináceos.

O mercado, tanto para leite, quanto para a carne, está garantido, segundo a fonte, que aponta o fomento pecuário, no âmbito do FDD e a entrada em funcionamento de dois grandes matadouros, entre as quais o Moz Bieef, como sendo factores que contribuíram para o incremento da produção pecuária na província.

 “Condomínios verdes” estimulam produtos de bandeira

EM cumprimento da iniciativa presidencial “uma família, um hectare”, o Governo de Manica acaba de criar 12 campos agrícolas, conhecidos por “condomínios verdes”, como plataforma para o aumento da competitividade da produção e produtividade agrária, através da massificação dos chamados “produtos e culturas de bandeira”de que cada província épotencial.

Para Manica, foram eleitos como produtos de bandeira soja, milho, hortícolas e frango, cuja área cultivada aumentou em 11,43, 12,12 e 24,7 por cento, respectivamente. Para frango, a produção decresceu em 27,98 por cento, devido a vários factores, destacando a escassez de milho para a produção da ração, aliada àfraca produção registada na campanha agrícola 2015-2016.

No âmbito desta iniciativa, também desdobrada localmente por iniciativa “um funcionário, um hectare”, o Executivo provincial, através dos seus membros, lavrou 433 hectares de culturas diversas que se juntam aos cerca de dois milhões de hectares inicialmente planificados para a safra 2016-2017.

Assim, segundo apurámos, a província poderá atingir na presente safra uma produção estimada em mais de 3.5 milhões de hectares de culturas diversas, com um excedente avaliado em 530 mil toneladas. Este desempenho conta, pela primeira vez, com a participação direccionada dos membros do Governo a vários níveis e grupos sociais, incluindo jovens, combatentes da luta de libertação nacional e associações afins.

Em termos percentuais, prevê-se na presente safra um crescimento na ordem de 21,29 por cento em relação ao igual período do ano anterior, mas, segundo Sónia Nhamahumbo, com a implementação dos “condomínios verdes”, este plano poderá ser largamente suplantado.

VICTOR MACHIRICA

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