A VILA de Inchope, no distrito de Gondola, província de Manica, está a registar um crescimento assinalável, mas a falta de água potável para o consumo e para atender ao ímpeto do desenvolvimento continua um empecilho.

Localizado no posto administrativo com o mesmo nome, a 45 quilómetros da sede do distrito de Gondola, Inchope é atravessado pelas Estradas Nacionais Número Um e Seis e pela linha férrea Beira-Machipanda, que liga o Porto da Beira aos países do hinterland.

Com uma população estimada em 14 mil habitantes, a vila de Inchope constitui assim o ponto de confluência obrigatória, onde diariamente cruzam centenas de pessoas, entre nacionais e estrangeiras, idas de vários pontos do país e da região austral de África, a caminho dos mais diversos destinos.

Aproveitando-se da situação, centenas de pessoas, entre nacionais e estrangeiras, estas últimas maioritariamente somalis, procuram ganhar a vida, socorrendo-se das mais variadas iniciativas empreendedoras, desde a confecção de alimentos, passando pelo comércio, arrendamento de quartos para repouso até à venda de produtos diversos.

O “Notícias”, que esteve recentemente no local, constatou que ali vende-se um pouco de tudo, desde produtos agro-pecuários, bebidas, vestuário, objectos de adorno, obras de arte, material de construção, entre outros.

Terminais de transportes, hotéis, pousadas, restaurantes, bares, mercearias, lojas, gasolineiras, “take aways”, perfilam nas margens das duas estradas. Estes empreendimentos, para além de tornarem Inchope um autêntico entreposto comercial, fazem-no de um centro de cruzamento de culturas, línguas e valores, um local multifuncional onde quase todos vendem e todos compram, numa frenética procura de meios de ganhar a vida para garantir o sustento diário e combater a pobreza.

Como que para acompanhar este movimento, o sector público está a registar assinalável crescimento do ponto de vista de infra-estruturas.

Porém, este ímpeto, movido em parte pelo ambiente favorável que o país vive nos domínios político, económico, social e cultural, não está sendo acompanhado por uma adequada provisão de água potável, que constitui neste momento o maior “calcanhar de Aquiles”.

Se no passado o drama das famílias era viver sob a ameaça de não ter o que comer no dia seguinte, presentemente a falta de água potável, o acesso limitado aos cuidados de saúde, a falta de uma escola à medida da evolução da vila e o desemprego, são alguns dos problemas que mais afectam, pela negativa, o progresso de Inchope.

O problema de água é dos mais antigos e dura há várias décadas, porém, a sua solução parece, a cada dia, mais remota, apesar das frequentes queixas dos residentes locais, que não perdem a oportunidade de apresentar aos dirigentes a vários níveis, que escalam esta vila em visitas de trabalho, que por seu turno não se eximem de justificar e prometer.

O factor dinheiro tem pesado na equação conducente a uma solução definitiva para o problema. Para além disso, outros factores que interferem negativamente nas iniciativas visando a provisão de água para Inchope têm a ver com os solos rochosos, a profundidade do lençol freático e a longa distância que separa o vilarejo das fontes alternativas.

Com efeito, foram identificadas e colocadas várias opções e fontes de financiamento. A primeira indicava, pelo menos, 6.3 milhões de euros para o estabelecimento de um sistema isolado de abastecimento de água para Inchope e a segunda, 2.6 milhões de dólares norte-americanos para ligar a vila ao sistema de Chicamba, a partir da vila de Gondola.

Com a primeira opção, o executivo de Manica pretendia erguer um sistema cujo precioso líquido poderia ser captado a partir dos rios Metuchira ou Muda, integrados na bacia do Púnguè, o que passaria pela construção de represas para a retenção da água nestes afluentes.

Segundo pesquisas efectuadas na altura pela Administração Regional de Águas do Centro (ARA-Centro), já teriam sido identificados quatro prováveis locais, onde seriam erguidas as referidas represas.

Para lançar repto à iniciativa, a então governadora de Manica, Ana Comoane, juntara em Inchope, distrito de Gondola, diferentes actores ligados ao sector de água num encontro que visou encontrar soluções, a curto e médio prazos, para a gritante escassez de água potável na vila. Porém, volvidos mais de cinco anos, nada transpira que possa alimentar a esperança da população local, quanto à solução do problema que tem implicações drásticas na higiene individual e colectiva e quase sempre degeneram em problemas de saúde pública.

Quilómetros à busca de água

Enquanto a solução da falta de água não chega a Inchope, a população é obrigada a percorrer mais de 20 ou 45 quilómetros para encontrar um fontanário. A zona de Siluvo, no distrito de Nhamatanda, na província de Sofala, chega a ser a alternativa para algumas pessoas, o que é condicionado à disponibilidade de meios de transporte, que entretanto, nem todos residentes possuem ou têm condições financeiras para o efeito.

Neste contexto, as mais de 14 mil pessoas que habitam Inchope, disputam os 10 poços e furos, entre públicos e privados presentemente operacionais na região. No global, a sede de Inchope conta com 13 fontes, sendo que destas três estão avariadas e, para agravar o cenário, a maioria da água que jorra nas torneiras é salubre e imprópria para o consumo humano.

O chefe do Posto Administrativo de Inchope, Augusto Roque, disse ao “Notícias” que existem ao nível do território do posto 53 furos e poços para atender uma população estimada em cerca de 50 mil habitantes. Destas fontes, sete são tradicionais e igual número tem as bombas avariadas. À semelhança da sede da vila, a água é salubre.

A dispersão da população, tanto na sede como em todo o posto administrativo, faz com que a distribuição geográfica das fontes não seja proporcional ao número de habitantes, sendo por isso que a maioria dos moradores continua a ser obrigada a percorrer longas distâncias para ter acesso a um fontanário.

Este facto origina défice em algumas regiões e abundância noutras, o que encoraja o surgimento de oportunistas que se dedicam à revenda de água a preços especulativos, afectando, sobretudo, a população da sede do posto administrativo.

Nesta região, um recipiente de 20 litros que se compra nas fontenárias a cinco meticais, chega a ser revendido a 17 meticais. Os vendedores justificam tais preços com a necessidade de cobrir as despesas em transporte ou para compensar o esforço físico empreendido para puxar as carrinhas de tracção manual (txovas).

O chefe do posto refere que a maior parte das pessoas carentes do precioso líquido e que são vítimas deste negócio são os residentes da sede do posto administrativo, por sinal o ponto de maior convergência de pessoas e onde florescem inúmeros empreendimentos turísticos e comerciais, os quais para o seu funcionamento necessitam de água.

Como consequência, maior parte dos empreendimentos ficam sem água e o pouco que se providencia é trazido de Nhamatanda ou Gondola em recipientes. Nestas condições tem sido bastante difícil manter a higiene necessária, como reconhece Charles Machinga, gerente da Pensão “Pumane”.

“Nós que temos viaturas trazemos a água de Gondola ou Siluvo, Nhamatanda. Agora imagine a população sem estes meios onde a vai buscar”, questionou Charles, para quem o problema já é antigo e é do conhecimento das autoridades locais de quem esperam uma solução. Enquanto o problema não é resolvido, a população que reside em regiões distantes de fontes seguras vai usando a água imprópria para o consumo humano, tirada de poços tradicionais e riachos, o que provoca, com frequência, doenças de origem hídrica, como diarreias e cólera.

Algumas destas fontes improvisadas, mau agouro, localizam-se também a grandes distâncias, sendo que a população percorre mais de sete quilómetros a pé para aceder ao  riacho mais próximo.

Todavia, para tirar água dos poços tradicionais é preciso pagar valores monetários aos proprietários, sendo cinco meticais o mínimo que se cobra por cada recipiente de 20 litros. Regra geral, esta água é consumida sem passar por nenhum processo de tratamento.

Mulheres e crianças as mais sacrificadas

A falta de água potável em Inchope afecta mais as mulheres e crianças que diariamente são obrigadas a percorrer longas distâncias, sacrificando outras actividades de sobrevivência ou escola.

A imagem de mulheres, jovens e crianças com recipientes de água na cabeça ao longo das estradas nacionais número um e seis denuncia o drama por que passam os residentes de Inchope. Trata-se de um problema que persiste há vários anos e que afecta, sobretudo, as famílias de baixa renda, que não têm condições de adquirir água até para higiene pessoal, lavar a sua roupa, utensílios domésticos e cozinhar.

O consumo de água imprópria extraída de nascentes não protegidas, como rios, e de outras fontes tem castigado milhares de pessoas em Inchope. Falando há dias ao “Notícias”, alguns moradores contaram o sofrimento que vivem, tendo solicitado ao governo a tomar medidas definitivas e urgentes com vista a pôr cobro ao drama.

Francisca José Saete, de 12 anos, é uma das crianças que poderá ver o seu futuro comprometido, pois tem que faltar à escola para procurar água para a família, na companhia da mãe.

Os progenitores são camponeses, por isso, nas horas vagas, vende água mineral e produtos de pronto consumo para os passageiros que escalam o cruzamento idos de vários pontos do país.

Sofrina Mateus, outra menor, de 13 anos, disse que tem de acordar às quatro horas da manhã todos os dias e percorrer, pelo menos, sete quilómetros para obter água no riacho, para depois ir à escola, onde entra às 7 horas.

“Tem sido muito difícil acordar. Isto constitui um grande sofrimento, mas não temos outra alternativa. Temos que ir buscar água, senão morreremos de sede”, disse.  

Marinela Gimo, 14 anos de idade, que frequenta a sétima classe na EPC local, várias vezes tem sido obrigada a faltar às aulas para ajudar a mãe que vai à machamba com o pai.

“Às vezes regresso do poço muito atrasada, por causa da enchente. Quando é assim, não vou à escola”, explica.

A falta de chuva é outra questão que está na origem da escassez de água. Micaela Sainete, uma jovem mãe de três filhos, explica que quando chove tiram a água das caleiras das casas, mas sem chuva, também a produção de feijão, amendoim, milho e hortícolas fica comprometida. A salvação tem sido a mandioca e a batata-doce, culturas que são resistentes à seca.

As condições de vida têm vindo a deteriorar-se à medida que o tempo passa. Ela afirma que a situação começou a agravar-se a partir dos meados de 2016 quando, devido à falta de chuva e ao conflito político-militar, perdeu quase toda a produção de feijão e milho, por sinal os únicos alimentos que a família confiava.

Reduzir os banhos pode ser opção

A economia de Inchope é impulsionada pelo comércio informal praticado na confluência das estradas nacional número um e seis.

Além da venda de produtos alimentares, a indústria hoteleira é a que mais cresce no local. Nas bermas das duas estradas despontam pousadas e pensões para responder à demanda suscitada pelo crescente número de pessoas que procura locais para repousar, facto favorecido pela localização geográfica.

O negócio de arrendamento de quartos para repouso é o que mais cresce nos últimos tempos, devido ao fluxo de pessoas que para lá vão à procura de transporte para vários pontos do país.

Além disso, os “chapas” que, por exemplo, fazem o percurso Nampula-Maputo geralmente têm Inchope como paragem obrigatória, durante a noite, facto que contribui para a grande procura de acomodação.

Embora se esteja a registar um crescimento da actividade hoteleira, a falta de água continua a ser a principal dor de cabeça para os utentes e proprietários. Na verdade, em Inchope os utentes e os proprietários das pousadas frequentemente trocam acusações sobre as condições de higiene derivadas da carência de água.

Os utentes exigem água para satisfazer as necessidades de higiene, mas os proprietários lutam por poupá-la para chegar para todos, ainda que seja para sacrificar alguns hóspedes, pois buscam-na em locais distantes, o que não é tarefa fácil.

António Milato, empregado de uma das estâncias de Inchope, disse que apesar de haver falta de emprego na vila, algumas pessoas acabam por abandonar os seus postos, quando são confrontados com a questão da falta de água. Ele disse ter conseguido o emprego de limpar e arrumar quartos, mas a dificuldade reside no facto de ter que ir buscar água longe para ser usada pelos clientes nos quartos.

“Tenho que buscar água na cabeça para todos os quartos, todos os dias, o que não é tarefa fácil”, desabafou.

Apontou que pelo trabalho que faz recebe mensalmente 2000 meticais, mas se a situação de abastecimento de água não melhorar, vai abandonar o emprego, pois prefere ocupar-se da venda de água às pensões e pousadas, as quais, segundo ele, poderiam pagar-lhe mais do que ganha actualmente.

“Vendendo a cada recipiente de 20 litros, por 17 meticais, dá um bom dinheiro”, indicou.

VICTOR MACHIRICA

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