A DOIS de Março de 1906, no Posto Administrativo de Chidenguele, em Gaza, nascia Amélia Macôo, uma mulher que hoje, 111 anos depois, continua com uma capacidade de recontar a sua história de vida com uma lucidez de fazer inveja.

Encontramo-la na sua casa no bairro Boquisso, no município da Matola, onde a família se juntou a fim de celebrar o seu 111º aniversário natalício. No local estava uma das suas duas filhas, parte dos 19 netos, 61 bisnetos e 62 trinetos.

Fisicamente cansada, mas desinibida, Amélia Macôo revelou parte do seu trajecto de vida, desde a sua infância, juventude, casamento e ida à África do Sul até se instalar onde reside desde 1962.

Tal como todas as crianças da sua época, nasceu e passou a infância em Chidenguele nas condições em que se vivia naquela época. Sob a dominação colonial, cresceu a trabalhar o campo e a cuidar das actividades domésticas.

O Chope é a língua com que sempre se comunicou com os familiares e amigos.

Amélia Macôo casou-se na década de 1930 e desse matrimónio nasceram duas filhas, a primeira em 1931, Helena Rafael Novela, agora com 86 anos e a última em 1933, Cristina Rafael Novela, com 84, ambas vivas e mães dos 19 netos de vovó Amélia.

Tal como em todos os casamentos, o seu não foi um mar de rosas. Teve altos e baixos mas segurou a barra para transmitir o exemplo às filhas, ensinando-lhes que todos os problemas podem ter uma solução. A situação complicou quando viu o marido ser levado para o xibalo e não mais regressou.

Depois de muitos anos de espera pelo marido que nunca mais voltava, rumou, desesperada, para a vizinha África do Sul, movida pela agitação de amigos, à procura de melhores condições de sobrevivência.

Antes disso, fez trabalho forçado de transporte de areia para a construção da actual Estrada Nacional Número Um. Terão sido estas mesmas actividades que levaram o marido para parte incerta, supondo-se que este tenha sido morto.

NA ÁFRICA DO SUL PARA ESCAPAR AO “KUTXINGA”

Amélia Macôo fez trabalho forçado (Xibalo) até princípios da década de 1940 quando o seu marido foi levado para a então Lourenço Marques (actual Maputo), de onde nunca mais regressou. Dado como desaparecido (morto), teve que ser submetida ao “Kutxinga”, cerimónia de purificação da viúva que consiste em esta manter relações sexuais com um parente do malogrado, preferencialmente um irmão do marido.

Não concordando com este procedimento, contra a expectativa de todos, Amélia Macôo fugiu para a então Lourenço em 1940, de onde rumou para a vizinha a África do Sul em busca de sossego e melhores condições de vida.

Permaneceu neste país até 1960 quando regressou para Moçambique e se fixou no Boquisso, de onde nunca mais saiu. Revela que não sente remorsos dessa sua atitude porque sempre achou que era apenas mulher do desaparecido marido e que ninguém mais poderia tocá-la.

“Neste percurso todo, passei mal porque fui obrigada a ficar longe das minhas filhas e da minha família. Mas não concordava com esse procedimento. Também acreditava que o meu marido poderia voltar”, acrescenta.

Voltou para visitar as filhas e a família em Chidenguele, mas a ideia era permanecer em Lourenço Marques e recomeçar uma nova vida.

É a partir desta zona residencial, na altura composta maioritariamente por machambas, que Amélia Macôo acompanhou os grandes acontecimentos nacionais, como é o caso da proclamação da Independência, a 25 de Junho de 1975, e a assinatura do Acordo Geral de Paz, a 4 de Outubro de 1994.

Também foi a partir destas terras que soube do nascimento de grande parte dos seus netos, bisnetos e trinetos, bem como de todos os outros membros da sua família.

VIDA SEM VÍCIOS NO SEGREDO DE TUDO 

Para a anciã, a sorte de completar 111 anos é, em primeiro lugar, divina mas também pode ser resultado de uma vida passada sem qualquer tipo de vícios. “Nunca gostei de passar noites. Não bebi até os meus 60 anos e nunca fumei. Mesmo agora, bebo um copo de vinho apenas quando recebo visitas na minha casa ou em eventos familiares”, afirma.

Tal como sempre viveu, Amélia Macôo conta que aconselha as filhas, netos, bisnetos e trinetos a manterem uma vida distante dos vícios como condição primeira para manterem a longevidade e com alguma lucidez.

Acrescenta que ao longo do seu percurso de vida não faltaram tentações, mas teve que ser forte para poder superar todos os obstáculos que surgiram na vida, particularmente quando se viu forçada a trabalhar no Xibalo, em virtude de seu marido ter desaparecido.

“Não tinha alternativa e era isso que me sobrava naquela altura, mas soube ser forte e escapei graças à minha persistência e vontade de não ser um mau exemplo para a minha família”, conta Amélia Macôo, para quem a vida é igual para todos, mas as pessoas podem escolher a melhor forma de viver sem complicações.

SEMPRE DEU EXEMPLOS DE COMO GERIR A VIDA

Cristina Rafael Novela, a segunda e última filha de Amélia Macôo, revelou que a mãe sempre foi uma mulher com capacidade de transmitir exemplos de como superar qualquer diferença que surgisse na convivência familiar, bem como com outras pessoas.

Nascida em 1933, Cristina revela que cresceu distante da mãe quando esta se encontrava na vizinha República da África do Sul à procura de melhores condições de vida para si e para as suas filhas.

“Eu vivia com meus avós em Chidenguele. Quando minha mãe foi para a África do Sul devia ter seis ou sete anos, mas quando ela voltou conseguiu apagar o tempo que estivemos distantes. Sempre foi uma mulher que soube ensinar-nos como superar as diferenças da vida”, conta.

Cristina começou a viver maritalmente em 1955 e dessa convivência nasceram 12 filhos, dos quais dez estão vivos. “Minha mãe regressou em 1960, mas desde então a nossa vida foi sempre de proximidade e em nenhum momento lembramos que ela andou distante de nós. Esse sentimento é meu e da minha irmã que continua a viver em Chidenguele”, conta.

Para Cristina Novela a grande bênção é o facto de a mãe poder viver mais de cem anos e apesar disso continuar a poder dialogar com os seus filhos, netos, bisnetos e trinetos que vêem nela uma fonte de inspiração dada a sua capacidade de unir as pessoas.

“Só nos últimos anos é que ela deixou de ir a machamba. Mas sempre foi uma pessoa exemplar que conseguiu mostrar o que é certo e o que é errado. Sofre nas noites porque a idade já não lhe ajuda, mas é um orgulho ter ela viva”, defende Cristina Novela.

APRENDEMOS SEMPRE COM SUAS EXPERIÊNCIAS

“Nunca alguém na família chegou a esta idade por isso é que para nós é um orgulho ter uma avô lúcida, inteligente e que está à altura de esclarecer-nos quando cometemos um erro…”, defende Cecília Sansão Nhantumbo, 58 anos de idade, uma das netas mais velhas de Amélia Macôo.

Segundo disse, a avô é uma pessoa incrível e que revela uma capacidade extraordinária de lembrar as coisas todas pelas quais ela já passou e transmitir aos mais novos aquilo que é bom e o que é mau.

“É claro que uma pessoa com esta idade não pode estar completamente lúcida, mas ela é fenomenal. Lembra de coisas que ninguém pode imaginar e consegue identificar todos os netos, bisnetos e trinetos”, afirma Cecília Nhantumbo.

Disse ainda que outra coisa boa que a avô tem é a capacidade de identificar os erros que as pessoas cometem, independentemente de quem quer que seja. “Quando as filhas eram, por exemplo, ela consegue nos alertar e trazer-lhes à razão, sem que isso crie crispação no seio da família”, acrescenta.

Cecília Sansão Nhantumbo, mãe de três filhos, afirma que por causa dessas qualidades todas os filhos mantêm uma boa relação com a bisavô, a quem se preocupam em querer saber com alguma frequência, afinal é alguém a quem só tem a aprender.

VALORIZAMOS A NOSSA COESÃO

Armando S. Nhantumbo, 62 anos de idade, pai de três filhos, é outro neto da anciã Amélia Macôo, para quem a avô é motivo de orgulho porque apesar da sua idade avançada é uma das pessoas que garante a coesão da família.

Nhantumbo afirma que desde que se conhece como homem guarda apenas memórias boas da sua relação com a mãe da sua progenitora. “Lembro que os momentos maus com a minha avó datam da época da guerra dos 16 anos em que ela mesmo não aceitava que passássemos uma noite com ela aqui no Boquisso.

“Foi um período chato porque estávamos habituados a ficar na sua casa nos fins-de-semana, mas ela mesmo não deixava e isso foi realmente triste porque deixávamos a ela sozinha mesmo que houvesse vontade contrária”, conta Nhantumbo, para quem para além disso foram apenas memórias positivas e que valem a pena lembrar.

Tal como a irmã, Armando S. Nhantumbo afirma que seus filhos mantêm uma boa relação com a avô e isso mostra que ela nunca constitui uma preocupação para a família, não obstante alguns estarem cada vez mais distantes porque o hábito dos telemóveis faz com que as pessoas se visitem menos.

SEMPRE DESENCORAJOU VÍCIOS

Conhece Amélia Macôo há mais de 40 anos e desde esse período guarda na memória o ensinamento de que os vícios da noite, do álcool e do tabaco são prejudiciais à saúde por isso devem ser evitados a todo o custo. Esta é a afirmação de Fernando António, 44 anos de idade, bisneto da centenária, para quem a idade da bisavó é motivo de muito orgulho.

António conta que a bisavó sempre acarinhou a todos seus netos, bisnetos e trinetos e exemplo disso, segundo disse, é que dividiu a sua machamba por todas estas pessoas e sem mostrar privilégios a nenhum deles.

“Mas o mais engraçado é que mesmo sendo de gerações diferentes, a minha bisavó sempre nos desencorajou ao consumo do álcool porque esta é uma substância prejudicial para a saúde e, tal como ela diz, não viveremos até a idade que ela atingiu”, afirma.

Acrescenta que passou muito tempo até ele descobrir que a bisavó consumia bebidas alcoólicas e mesmo assim só se lembra de ter a visto a beber uma taça de vinho em ambientes festivos e nunca noutros fóruns.

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