REZA a história que o jazz brotou das canções de escravos africanos nas plantações de Nova Orleãs, na zona sul dos Estados Unidos da América, no século XX.

Tal como nestes campos, o saxofonista Moreira Chonguiça está a semear na More Jazz Big Band a futura geração de músicos moçambicanos que poderão enveredar por este estilo.

Ao perceber que esta lavoura não poderia ser feita apenas com as suas mãos, o etnomusicólogo convidou duas “velhas raposas” do jazz: professor Orlando Conceição e o norte-americano Ernest Dawkins.

Foram ainda desafiados o saxofonista Timóteo Cuche e o baixista Hélder Gonzaga.

Aquando do seu lançamento em 2014, Orlando Conceição, que de prontidão assumiu o desafio, já dizia que a expectativa era “produzir músicos de qualidade que respondam também aos anseios de qualquer pessoa”.

Uma das primeiras missões do “mestre” foi identificar terrenos férteis. Foi o que aconteceu. Escolheu alguns dos seus alunos no Instituto Nilia e na Escola Nacional de Música, que ao longo das aulas davam indicação de que algum trabalho iria florescer.

O EMBRULHO QUE MUDOU O PERCURSO

Shakil Assane, de 15 anos, a frequentar a 8.ª Classe, foi um deles. É membro da Orquestra More Jazz Big Band há três anos. Recorda de ter chegado em casa e deparar-se com um embrulho do pai. Ao abri-lo, eis que era um reluzente saxofone tenor.

Embora “no princípio tocasse de forma desinteressada”, Shakil aceitou o convite e actualmente dedica uma hora do seu dia ao instrumento, sem contar com os dias de ensaio com a orquestra.

Hoje, três anos depois, o jazz é parte do seu quotidiano e até já projecta uma carreira musical. Por outro lado, Shakil Assane reconheceu que o projecto mudou o “meu comportamento e a minha disciplina”.

As suas referências são os lendários Manu Dibango, Sonny Rollings, para além do seu professor Moreira Chonguiça. Porém perspectiva mergulhar no “blue”.  

Neste sentido, depois de ter participado do “workshop” jazz - meet a man behind de artist (jazz - o homem por trás do artista), orientado esta quinta-feira por Hugh Masekela, em Maputo, Shakil disse ter saído com lições que o ajudarão na sua arte.

“Temos de aprender dos nossos avós a nossa cultura para incorporarmo-la na nossa música”, disse.

Prince Shona, 14 anos, igualmente a frequentar a 8.ª Classe, sopra saxofone alto. A sua integração não se difere da que teve Shakil. Parece que a oferta surpresa de saxofones é o padrão.

Quando começou as aulas de música há cinco anos tocava flauta, mas o professor Orlando farejou que saxofone era a melhor opção. Prince Shona aceitou e é com ele que trabalha.

“Desde pequeno ouvia jazz em casa porque o meu pai gosta. E às vezes junta amigos para algumas sessões”, contou.

É neste contexto que os hipnotizantes sopros de Charlie Parker, John Coltrane, Miles Davis…vertem no seu ouvido. E o jovem vê-se encantado!

Prince Shona diz que não passa de um estereótipo que este género musical é dedicado a pessoas de idade avançada, até porque ainda gracejou observando que “se não gostou desde cedo, é pouco provável que vá gostar já adulto”.

Assumidamente apreciador do jazz, diz vislumbrar uma sólida carreira como músico. O género musical é já uma certeza, não descartando, porém, a fusão com outros géneros musicais.

MENINAS INSTRUMENTISTAS

Este projecto está a laborar uma cultura nova no cenário musical moçambicano. Habitualmente as mulheres estão associadas aos trabalhos vocais. São escassos os exemplos delas a destacarem-se conduzindo outro instrumento musical. Mas há meninas na More Jazz Big Band.

Emanuela Sueia é uma delas. Aos 18 anos frequenta o primeiro ano do curso de Psicologia Clínica, numa das universidades de Maputo. Toca piano há sete anos. E desde 2014 integra esta orquestra.

Devido às férias do Ensino Geral, nos níveis primário e secundário, os ensaios estão interrompidos, por essa razão a encontramos na Escola Nacional de Música (ENM).

Sentada diante do piano, contou que a relação com o instrumento começou ainda na creche.

“Estive numa escolinha onde tinha aulas de piano. Quando chegou a altura de ir à escola primária pedi ao meu pai me colocasse numa em que pudesse continuar a lidar com música. Foi assim que entrei para a ENM”.

Emanuela teve a oportunidade de executar a bateria, clarinete, mas a paixão pelo piano só cresceu. Já conta sete anos nesse percurso. Entrou para Big Band a convite do seu professor, Timóteo Cuche.

“[Na orquestra] aprendo muito e tenho a oportunidade de conhecer artistas com os quais posso colher elementos novos para incluir na minha música”, disse a pianista.

Confessou que este projecto constitui um incentivo para o seu sonho de um dia constituir um trio que explore as sonoridades do jazz, dando concertos dentro e fora do país. Cory Henry, Herbie Hancock são as suas fontes de inspiração.

Por outro lado, diz-se satisfeita por fazer parte de uma geração que poderá mudar e “matar” os preconceitos e estereótipos sobre a mulher a tocar instrumentos musicais.

“É bom saber que há uma mudança, porque acredito que há espaço para todos”, acrescentando que “nós também tocamos”, concluiu.

Atija Monteiro estava sentada do outro lado da sala. Tem 20 anos. Faz segundo ano do curso de Psicologia Organizacional. Toca saxofone alto.

Foi com a mão de Timóteo Cuche. “Quando entrei não tinha uma mínima ideia do que se tratava, só com o tempo é que descobri e estou a gostar da experiência”, admitiu.

Atija conta que entrou para a escola de música em 2010 para aprender a exercitar, mas desistiu no ano seguinte. Em 2013 voltou e não parou. Mas desta vez para o saxofone.

Rendida às sonoridades e solos de Ivan Mazuze, Mindi Abair, Candy Dufler, Kamasi Washington sonha em ser produtora e compositora de música instrumental.

A saxofonista é ainda membro da banda feminina da Escola de Comunicação e Artes (ECA), o que a leva a crer que “estamos a mudar com os estereótipos e a mostrar que é possível os jovens abraçarem o jazz em Moçambique”.

LEONEL MATUSSE JR

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