Director: Júlio Manjate   ||  Director(a) Adjunto(a): 

AO amanhecer, Afonso já sabe que o Armando e o Alberto estarão bocejando a sua graça, por volta das oito, naquela esquina da Laurentina, entre as avenidas 25 de Setembro e Guerra Popular. Ambos são polícias municipais.

Nesse posto, o jovem motorista de “chapa” sabe que tem de depositar alguns meticais nos bolsos desses agentes. Ante os passageiros, que igualmente já se habituaram ao ritual, finge um sorriso e prossegue o percurso.

O depósito funciona tal qual uma assinatura de ponto. E nos moldes em que funciona, já assumiu carácter institucional, tal é o à-vontade daqueles agentes.

Noutro ponto da cidade, debaixo do sol destas alturas do Verão, na fila para tratar o registo criminal, pessoas, sobretudo jovens, queimam, enquanto vêem outras que, com uns meticais entregues ao guarda “ali de casa”, passam à frente.

A outros, basta uma simples chamada à entrada ou sms para, igualmente, serem atendidos de imediato. De braços cruzados, os “frustrados” por terem poucos meticais no bolso, por honestidade ou por desconhecerem pessoas importantes, apenas olham.

Estes dois retratos mostram-nos a nossa actual sociedade, em que alguns funcionários do Estado usam tal epíteto para “viver à custa do pacato cidadão”, que nada mais está a fazer senão tentar dar seguimento às suas necessidades diárias.

“A vida é assim mesmo, meu irmão. Teus sobrinhos lá em casa querem pão na mesa”; “Dá lá um refresco”; “O cabrito come onde está amarrado”. Estas são algumas de várias expressões que se ouvem quase diariamente nas repartições dos serviços públicos.

A naturalidade com que tais processos ocorrem e são aceites nos leva a cogitar a possibilidade de tais hábitos já se terem enraizado a ponto de serem percebidos como naturais.

De facto, a história é normalmente preenchida por crónicas sobre algum evento palaciano, os poucos que se debruçaram sobre os fracos consideram que os mesmos tendem apenas a obedecer às regras estabelecidas pelos príncipes.

Com efeito, depreendemos que a impunidade de actos corruptos conduz a sociedade a, igualmente, tornar-se corrupta. Quem perde nisto são aquelas figuras que Clarice Lispector – escritora brasileira – designou de bobos, em certo texto – ignoremos a acepção literal do adjectivo.

Trata-se de pessoas honestas que querem conduzir as suas vidas sem espertezas, cuja ética se assemelha à discutida por Kant. A sua educação básica ensinou que o roubo, a mentira são condenáveis em qualquer circustância.

Em poucas palavras, podemos dizer que a impunidade também pune. De forma justa? Nem os juristas consideram a justiça justa.

Nesses gestos, o Tema de Fundo considera autêntica falta de respeito aos princípios básicos de educação. O comportamento de um afecta toda a cadeia. Um gesto maldoso de um dos sócios compromete toda a soceidade. Será que estamos esquecidos que não temos ways e cunhas em todas as instituições? Ou esse é o fundamento?

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