Quinta-feira, 3 Abril, 2025
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O fenómeno dos influenciadores digital e a ilusão da fama instantânea

Por Jornal Notícias
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AMÁVEL PINTO


O AVANÇO das tecnologias de comunicação, em especial das redes sociais, tem vindo a alterar profundamente a forma como nos relacionamos, comunicamos e nos posicionamos no espaço público. Contudo, esta revolução digital tem também revelado o seu lado mais obscuro.
As redes sociais tornaram-se, não raras vezes, armas nas mãos de indivíduos oportunistas e mal-intencionados. A disseminação de notícias falsas, as chamadas “fake news”, transformou-se numa perigosa ferramenta de manipulação, afectando a credibilidade de instituições, figuras públicas e até mesmo o equilíbrio social.
Mas o problema não se limita à desinformação. Assistimos hoje a uma romantização da ideia de que qualquer pessoa, munida de um telemóvel “topo de gama” e algumas “dicas milagrosas” pode tornar-se num “influencer” digital. Cria-se assim uma ilusão perigosa: a de que o sucesso está ao alcance de todos, bastando para isso saber captar atenção, independentemente do conteúdo ou da ética por detrás da mensagem.
Esta banalização do conceito de influência esconde uma realidade muito mais complexa. Os grandes influenciadores internacionais não operam sozinhos; contam com equipas de marketing, especialistas em comunicação, “designers”, estrategas e analistas.
Existe uma máquina profissional por de trás de cada “post” viral. No entanto, esta verdade raramente é transmitida aos jovens que, movidos por desespero ou necessidade, apropriam-se de nomes e imagens alheias, chegando a denegrir reputações com o objectivo de ganhar visibilidade.
É fundamental recordar que o uso indevido da imagem ou nome de terceiros pode configurar crime, como têm demonstrado vários processos judiciais nos últimos tempos.
É imperativo que a sociedade compreenda que a tecnologia é, sim, uma ferramenta poderosa de comunicação e inovação. Porém, o seu uso requer responsabilidade. Vivemos numa era em que uma simples vírgula pode alterar o sentido de uma mensagem e desencadear consequências legais ou sociais de grande impacto.
Todos, de alguma forma, desejamos ser ouvidos, influenciar, participar activamente na vida pública. No entanto, sem um nível básico de escolaridade, torna-se difícil comunicar de forma eficaz com um público cada vez mais desinformado e emocionalmente instável.
Um dos efeitos colaterais mais graves desta corrida pela fama digital é a degradação dos valores sociais e académicos. Jovens com menos recursos sentem-se pressionados a adquirir equipamentos de última geração, muitas vezes a qualquer custo, para produzir conteúdos que os destaquem.
Em casos extremos, esta pressão tem levado alguns à prostituição ou a outras formas de exploração. Tudo em nome de uma ilusão vendida por uma sociedade que valoriza mais a imagem do que o conhecimento.
Chegámos ao ponto em que se vai ao médico com diagnósticos copiados da internet e se contesta a autoridade do profissional de saúde. Esta desvalorização do saber técnico e científico, alimentada pela confiança cega em “influenciadores”, é sintoma de uma doença social mais profunda.
A juventude, maior consumidora desta realidade digital, está a perder a visão do futuro. A instrução académica é desvalorizada, substituída por conteúdos rápidos, efémeros e vazios.
Enquanto os mais velhos, movidos pelo lucro fácil, criam plataformas e alimentam este ciclo vicioso, vão deixando uma geração sem ferramentas para continuar a inovar. A sociedade precisa urgentemente de repensar a forma como educa, orienta e prepara os jovens para um futuro digital mais consciente, sustentável e, sobretudo, humano.

Foto: Dmitry Marchenko

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