Quinta-feira, 3 Abril, 2025
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É preciso falar o que se sente diante do que se vê  

Por Jornal Notícias
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LUARA MARTINS DE OLIVA SANTOS*

AINDA que haja tristeza e o que se vive gere desconforto (não um desconforto por estar em uma situação confortável e dela sair, pois há choques de realidade), ainda assim é preciso ver a beleza das coisas para que o que é triste não domine o nosso coração.

Estar em África tem me cobrado isso. Aqui está a minha ancestralidade e a de boa parte do povo brasileiro. E aqui se vê, de forma mais intensa, as marcas de uma colonização que terminou recentemente.

Aqui também se vê um povo que, na oralidade, resistiu e, assim, fala suas línguas originárias, como o xichangana e tantas outras. No Brasil, houve um apagamento total, e ficamos apenas com a língua do colonizador. Não falamos tupi, não falamos línguas crioulas.

Na falta de água por um ou dois dias, no preço elevado dos alimentos, na energia pré-paga revelam-se as limitações com as quais a maioria da população vive. Mas há riqueza aqui, é preciso destacar.

As comemorações locais, os ritmos musicais, a marrabenta, as roupas coloridas feitas de capulana, a alegria deste povo tão diverso, especialmente ao observarmos o país do Norte ao Sul.

A música de Stewart Sukuma, os grafites de Coana, as palavras da Paulina Chiziane e o pensamento de Mia Couto também são expressões da riqueza de Moçambique. O machismo aqui também se apresenta em cenas que encontramos nas ruas, como o assédio.

As mulheres, com seus cabelos trançados e com laces, e os bebés em “slings” (panos para levar os bebés ao colo) marcam o dia-a-dia em Maputo.  

No Xipamanine, há comerciantes nas ruas a vender roupas, alimentos, uniformes escolares e temperos. Os mercados são muitos, com verduras (a agricultura familiar é muito forte aqui), artigos para os trabalhos dos curandeiros, peixe seco e vestimentas com pelagem que representam os trajes usados pelos guerreiros.

Na Baixa, encontram-se artigos diversos e com preços menores; se pechinchar, consegue-se fazer bom negócio. Nas ruas, há alfaiates que, por 400 ou 500 meticais, confeccionam roupas com as capulanas (calças, camisas, vestidos). Muitas lojas são administradas por indianos.

No Rei das Camisetas, é possível comprar camisetas coloridas de algodão a 180 meticais (18 reais); se comprar mais de 10 unidades, o valor cai para 160 meticais. Vende-se de tudo: galinhas vivas, badjias (bolinho de feijão), canhu (bebida fermentada de amarula), ovos cozidos, cerveja 2M, Fanta de ananás. A vida acontece num ritmo acelerado e adaptar-se ao fuso horário, também, é uma questão.  

A gentileza e a bondade me alcançam. Aparecem nos sorrisos das pessoas pelas quais passo nas ruas, na explicação que o senhor Jorge Anselmo nos deu, no Museu Nacional da Moeda, no “hello” dos comerciantes nas feiras, nos vários cumprimentos de bom dia, na vizinha Luciana, que me doou galões de água para que pudéssemos tomar banho.  

Ademais, aqui há algumas peculiaridades. Ao sair do supermercado, deve-se apresentar na porta o cupom fiscal (recibo) para carimbarem, e no ônibus (machimbombo) furam o bilhete para que o passageiro não desça antes e o entregue a alguém.

O trânsito é bastante intenso. Os carros disputam espaço com os txopelas (transporte com dois lugares), com os “chapas” (vans) e com os pedestres. Assim, a vida acontece aqui em Maputo. Os dias passam, o tempo também. Moçambique, África, Oceano Índico, planeta Terra, Sistema Solar, Via Láctea, infinito.

*Pesquisadora brasileira, na área de geografia

Fotos: Luara Olivia

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