Quinta-feira, 3 Abril, 2025
Início » PEÇA TEATRAL “AS SUBSTITUTAS”: Uma comédia baseada em tragédias

PEÇA TEATRAL “AS SUBSTITUTAS”: Uma comédia baseada em tragédias

Por Jornal Notícias
270 Visualizações

LUCAS MUAGA

QUANDO o sino tocou, o relógio marcava 19.09 horas. Alguns mais exigentes poderiam até queixar-se do atraso de cerca de dez minutos. Mas ninguém se importou. Não havia razão para queixas e, no fundo, percebia-se. Afinal, quem ia ver “As Substitutas”, peça da companhia M’beu Macarte e encenada por Isabel Jorge, sabia que o teatro tem a sua própria cadência. E o público estava lá, pronto para o espectáculo.

O Centro Cultural Franco-Moçambicano estava lotado na quinta-feira e quase cheio na sexta. Nos dois dias do espectáculo, os amantes desta arte cénica não hesitaram em comparecer. E, se os ponteiros do relógio teimavam em avançar, o público, sereno, aguardava o momento em que as luzes finalmente se apagariam.

Na sexta-feira, por exemplo, a fila à entrada não era assim tão longa, mas o público, como que a imitar os próprios artistas, não tinha pressa de segui-la. Por momentos, o espectador pareceu ter incorporado a liberdade dos actores que, normalmente, não estão muito ligados a formalidades. E dava para perceber este pequeno atraso, afinal havia muita gente por atender e desmentia-se a ideia segundo a qual ninguém mais se  interessa pelo teatro.

Uma a uma, as pessoas ocuparam os seus lugares. As actrizes, embora parecesse que estavam escondidas atrás da cortina preta, aguardavam no camarim. “As Substitutas” não dependiam muito dos truques tradicionais de palco, pois a encenadora optara por uma abordagem mais criativa. As luzes apagadas criaram um espaço misterioso, permitindo às actrizes posicionarem-se no palco sem que o público se apercebesse, quase como um jogo de escondidas.

Enquanto aguardavam, os espectadores olhavam atentamente para o cenário montado: três mesas. Uma pequena, ao centro, que “conversava” com as outras duas maiores nas extremidades. Uma cabeceira sugeria o que estava para vir. Era uma sala, um bar, um quarto? Ou talvez os três ao mesmo tempo? O teatro estava, mais uma vez, a desafiar as convenções e a fazer o mundo caber na “palma” do palco.

Finalmente, o espectáculo começou. O início foi marcado por cânticos evangélicos, entre os quais o melancólico hino “Segura na mão de Deus”. O tom era claramente de funeral. A peça começou e terminou com a morte, mas depressa o riso tomou conta da cena. É que “As Substitutas” é uma comédia sobre várias tragédias.

Frases como “Estes gajos são todos iguais” e “Todos os homens são um lixo” surgiram, ao longo da apresentação, como um convite a reflexões sobre as relações sociais, o choque entre homens e mulheres. Como tantas outras mulheres, as personagens estavam, de alguma forma, marcadas por traumas. A peça revelava-se, então, como uma crítica à violência, à ignorância e às falhas políticas. Um teatro que não só reflecte, mas também vive as experiências dos outros.

As quatro actrizes eram “As Substitutas”. E o nome não era produto de mero acaso. As próprias, durante o evento, se explicaram: “Somos pagas para lamentar os outros”. Ou seja, nos funerais, elas substituem as pessoas próximas do malogrado e choram por elas. É como dizia o anúncio: Quatro mulheres, quatro histórias e uma profissão invulgar: são contratadas para chorar em funerais. Mas, entre lágrimas e rivalidades, “As Substitutas” transformam o luto num espectáculo inesperado. É adaptada da peça “Another One’s Bread”, de Mike Van Graan, com direcção de Isabel Jorge. 

A peça é interpretada por Sufaida Moiane, Xixel Langa, Yolanda Fumo e Carmelita Coana. Enquadra-se nas celebrações do Mês da Mulher- Março – e do Dia Mundial do Teatro, 27 de Março.  

Leia mais…

Artigos que também podes gostar