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INFÂNCIA ENCURTADA: O avanço precoce do ciclo menstrual

Por Jornal Notícias
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EDÍLIA MUNGUAMBE

O INÍCIO do ciclo menstrual, também conhecido por menarca, ainda é uma realidade pouco discutida e cercada de tabus em muitas famílias. Contudo, cada vez mais cedo, o corpo das meninas começa a dar sinais de mudança.

Nos últimos anos verifica-se a chegada precoce da menstruação em muitas raparigas, um fenómeno que levanta alertas sobre impactos físicos, emocionais e sociais, bem como questionamentos sobre as causas, consequências e os desafios impostos à saúde e desenvolvimento infantil.

Aos nove anos, Berta Nhacengo, ainda brincava de boneca, mas enfrentou alterações no corpo, que antes só apareciam na adolescência. Ela viveu uma experiência que a colocou diante de uma realidade para a qual não se sentia preparada: a primeira menstruação.

O episódio, lembra, foi marcado por surpresa, medo e silêncio.“Ao regressar da escola vi sangue na roupa e inicialmente achei que havia me aleijado”, conta.

Sem saber do que se tratava, Berta mostrou o sangramento à mãe. Embora também estivesse surpreendida pelo ocorrido, por conta da idade, esclareceu-a que era o início do ciclo menstrual. 

“Eu não entendia porque isso estava a acontecer comigo tão cedo. Nenhuma das minhas amigas falava sobre isso. Mas, a minha mãe procurava tranquilizar-me, explicando que não se trata de nenhum problema de saúde”, sublinhou.

Embora tivesse orientação em casa, no ambiente escolar era diferente, porque não tinha ninguém para conversar sobre o assunto.

Actualmente, com 24 anos, Berta Nhacengo avalia que a experiência poderia ter sido menos difícil, se houvesse educação menstrual desde cedo. “Se alguém tivesse explicado antes que isso podia acontecer, eu não teria ficado tão assustada”, afirmou.

Palmira Rodrigues é uma jovem de 28 anos, que teve sua infância marcada pelo início do ciclo menstrual aos 11 anos. Segundo relatou, quando o sangramento apareceu pela primeira vez, ela não sabia o que estava a acontecer.

O momento ocorreu enquanto tomava banho com as primas, as primeiras a identificar o sucedido, embora também não soubessem explicar exactamente o que significava o período menstrual.

A situação foi comunicada à mãe, que inicialmente não acreditou, mas quando percebeu que as roupas da filha ficavam sujas com frequência aceitou que o ciclo menstrual tinha realmente começado.

Palmira conta que a reação da progenitora não foi acompanhada de explicações claras, pois sentia vergonha de abordar o assunto. “Ela orientou-me a não ter amizade com homens. A explicação sobre que cuidados de higiene devia tomar quando estivesse no período menstrual foram ensinados pela minha cunhada”, explicou.

Por não ter acompanhamento adequado, acrescenta, este momento foi de medo e questionamentos e acreditava que o início da menstruação não era algo normal, tendo optado por se distanciar das amigas com receio de julgamentos e comentários.

A fonte lembra que já passou por diversas situações constrangedoras, mas duas marcaram a sua infância. Uma delas foi quando na escola sujou as roupas e até à carteira, e a outra em que o absorvente caiu enquanto caminhava num local bastante movimentado. 

Palmira Rodrigues avançou que a situação começou a mudar anos mais tarde, já no ensino secundário, quando outras colegas também entraram na adolescência e o tema passou a ser abordado sem tabus. 

Alimentos industrializados antecipam puberdade

Luís Walle destaca factores contribuem para o início antecipado da menstruação

A MENARCA marca uma fase importante no desenvolvimento feminino. Este processo ocorre a partir do amadurecimento do eixo hipotálamo–hipófise–ovários, conjunto de glândulas do sistema endócrino responsável pela produção hormonal.

Embora a menarca indique que o corpo feminino já possui condições biológicas para engravidar, especialistas alertam que isso não significa maturidade física, psicológica ou social para a gestação.

Segundo Luís Walle, ginecologista no Hospital Geral José Macamo, diversos factores contribuem para o início antecipado da menstruação. Entre os principais está a mudança no padrão alimentar, marcado nos últimos anos pelo uso crescente de produtos industrializados.

Explicou que a exposição a substâncias químicas usadas na agricultura, a exemplo dos adictivos para fertilizar e controlar pragas e produtos geneticamente modificados, alteram o funcionamento das glândulas endócrinas e o funcionamento geral do corpo.

“O outro factor é a alteração no clima, que influencia no desenvolvimento genético das populações. Temos igualmente a exposição à radiação, através do uso de aparelhos de telecomunicações, imagem, raio-x e tomografia. De alguma forma eles também interferem no funcionamento dos órgãos endócrinos”, sublinhou.

O ginecologista apontou que o envelhecimento da população, as alterações ou adaptação genética e a longevidade, também têm influência na menarca precoce.

“Se as mulheres têm filhos mais tarde, de maneira indirecta, há reorganização genética. Os descendentes passam a ter capacidade de engravidar mais cedo para compensar a falta de procriação que acontece naturalmente”, explicou ressaltando tratar-se de uma observação que carece de estudos científicos.

Como consequência destes factores, observa-se o desenvolvimento precoce das características sexuais secundários, como crescimento das mamas e aparecimento de pelos, seguido da menstruação.

Walle disse que a idade da primeira menstruação não é fixa. A média mundial situa-se em torno dos 12 anos, mas há variações significativas. Enquanto algumas meninas menstruam mais tarde, até os 17 ou 18 anos, outras apresentam a menarca de forma extremamente precoce, entre sete e nove anos, situação que tem se tornado cada vez mais frequente.

A menstruação precoce, explica, pode trazer consequências à saúde influenciando no surgimento de doenças como anemia, especialmente em meninas mal nutridas, afectando o desenvolvimento físico, psicológico e cognitivo.

“A antecipação da menstruação é um fenómeno adaptativo do corpo humano diante das transformações ambientais, tecnológicas e sociais. No entanto, trata-se de um processo difícil de reverter a curto prazo, já que alterações genéticas e ambientais levam décadas para mostrar resultados”, frisou.

Cuidar da alimentação desde os primeiros anos

Kátia Mangujo fala dos benefícios da alimentação saudável

SEGUNDO Kátia Mangujo, nutricionista no Ministério da Saúde, as práticas alimentares inadequadas levam ao aumento de células adiposas, que armazenam gordura.

As mesmas quando acumuladas em excesso contribuem para o excesso de peso, influenciando no  Índice de Massa Corporal elevado para certa idade. Este factor pode provocar a produção do harmónio leptina, que estimula a aceleração no processo puberal.

Neste contexto, a nutricionista recomenda o investimento na alimentação saudável logo nos primeiros anos de vida, considerada primeira infância. “A partir do momento em que a criança nasce, a mãe deve promover alimentação exclusiva com aleitamento materno, pois contribui para o equilíbrio hormonal”, anotou.

Explica que a prática ajuda ainda no desenvolvimento infantil e previne o possível desenvolvimento de obesidade, uma das causas da menarca precoce, bem como a resistência à insulina.

“Quanto maior for peso, maior é a chance desta criança começar a puberdade precocemente. Estudos mostram que meninas que praticam actividade física de alta intensidade normalmente têm menor concentração de células adiposas, facto que também interfere ou leva um atraso no início da menarca”, afirmou.

Kátia Mangujo recomenda a optar-se sempre pelos produtos naturais durante as compras, evitando ou consumindo com moderação alimentos fritos, gordurosos, adocicados, como bolachas, pipocas, chips, entre outros.

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