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ATELLIER DE LETRAS: Quero ser ponte

Por Jornal Notícias
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KÁTIA NASCIMENTO*

GOSTO da metáfora da ponte. A sua simbologia é poética: elo, união, interacção, comunicação entre duas realidades distintas, ultrapassar obstáculos para alcançar um propósito, tudo isso está intrínseco na metáfora da ponte.

Quero sempre ser ponte.

Saí do Brasil para estudar as cosmologias afro-brasileiras em Cuti, cuja potência da sua obra resgata a identidade dos negros-brasileiros, desde há muito tempo. No entanto, cheguei em Portugal e conheci a escritora moçambicana Paulina Chiziane, que não só resgata identidades, por meio das suas cosmologias (foco da minha pesquisa), como também escancara situações com imensa coragem africana, justificando o orgulho que temos das nossas raízes. A partir daí, juntei os dois autores, com aspectos em comum, para serem explorados numa tese de doutoramento.

Já estudiosa de Cuti, tornei-me, então, obstinada por Paulina Chiziane e sua obra e tudo o mais que diz respeito a ela e que está ao meu alcance. Quero conhecê-la pessoalmente e a seu mundo, “vasto mundo”… “mais vasto é meu coração”, como diria Drummond, pois quero sempre ser ponte.

Mas o destino, ou a displicência, impediu-me de fazer a viagem para Maputo, que estava marcada para o mês de Maio. As passagens já estavam compradas, já havia todo um roteiro a ser desenrolado: pessoas a conhecer e aulas para serem ministradas. Seria lindo! Eu iria encontrar, finalmente, Paulina Chiziane, que enfeita todo o quarto português, onde vivo hoje, com a sua prosa poética espalhada pelos cantos. Ela, que foi uma das grandes surpresas literárias da minha vida académica, que se tornou objecto de estudos avançados no curso de doutoramento em Literatura de Língua Portuguesa que faço na Universidade de Coimbra. E eu estaria com ela, face a face, meudeusdoceu, seria o auge!

Mas, infelizmente, não foi possível, a burocracia impediu-me.

Mas o destino e, talvez (mas só talvez), a displicência ofereceram-me mais uma oportunidade de conhecer “A Varanda do Frangipani”, do querido Mia Couto, por meio da literatura. Sempre a literatura me proporcionando prazeres! Desta vez, na forma de textos que escreverei para este senhor de 100 anos: o jornal Notícias.

Creio que chego em boa hora porque quero sempre ser ponte, daquelas pontes simples de se ver, como as de treliça sobre um córrego, que são belas na sua simplicidade, mas carregam uma estrutura resistente a tudo pelo que ali passará, pois esse tudo é dissipado pela interligação de uma rede de triângulos, assim como Moçambique, Portugal e Brasil, quando descobrem, através das suas culturas, um meio de construir um mundo melhor.

Quero sempre ser ponte.

*Kátia Nascimento é escritora brasileira, doutoranda em Literatura de Língua Portuguesa, pela Universidade de Coimbra kn.katianascimento@gmail.com

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