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RECENSEAMENTO GERAL DA POPULAÇÃO: A contagem que moldará políticas públicas no país

Por Jornal Notícias
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ETELVINA DOS SANTOS

ZAIDA Jama tem 42 anos, vive na localidade de Macubulane, no distrito de Magude, província de Maputo, numa moradia de dois cómodos, sem água canalizada, casa de banho convencional ou energia eléctrica.

Viúva desde 2019, cria dois filhos menores com base no que produz num campo agrícola familiar, no Bairro Themo. Apesar das dificuldades e vicissitudes da vida, ambos estão inscritos no sistema de ensino, onde  frequentam a 5.ª  e 8.ª classes.

Esta não é uma realidade isolada nesta região, que carece de tudo um pouco em termos de serviços essenciais. Em conversa com o “Notícias”, Jama contou que faltam unidades sanitárias, escolas secundárias, fontes de água potável, vias de acesso em condições e, como consequência, o transporte público.

“A localidade conta com um socorrista que presta cuidados primários. Contudo, nem sempre há disponibilidade de medicamentos. Assim, quando o estado de saúde agrava-se temos de percorrer longas distâncias até à unidade sanitária mais próxima, na vila-sede de Magude, desembolsando pelo menos 200,00 meticais para custear o transporte, muitas vezes em motorizadas”, disse.

Para a realização das tarefas diárias, como lavagem da roupa, loiça e cozinhar, recorrem a poços artesanais, pois no fontanário local não jorra água há algum tempo.

Estas e outras realidades foram encontradas em várias localidades e povoados de Magude pelos recenseadores treinados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) para a realização do censo-piloto, que decorreu de 1 a 15 de Agosto nos cinco postos administrativos.

O objectivo da operação era testar a prontidão rumo ao V Censo Geral da População e Habitação, previsto para Agosto de 2027. Pela primeira vez, o acto será totalmente digital. Pretende-se, assim, que eventuais falhas operacionais e metodológicas sejam corrigidas antes do processo.

Os dados produzidos, depois de 10 anos desde a realização do último censo, respondem a questões como “Quantos Somos?”; “Como Somos?”; “Onde Vivemos?” e “Como Vivemos?”, apontando disparidades regionais no acesso a cuidados de saúde, água potável, educação, emprego e outros aspectos cruciais para uma melhor qualidade de vida da população.

As estatísticas deverão orientar ao Governo e parceiros na criação ou aprimoramento de políticas públicas, planeamento estratégico e tomada de decisão sobre investimentos em áreas estratégicas para o desenvolvimento do país.

Teste de prontidão

O DISTRITO de Magude foi palco da testagem de prontidão nacional para realização do V Censo Geral da População e Habitação entre os dias 1 a 15 de Agosto. Os dados experimentais apontam para a existência, actualmente, de 68.492 habitantes.

A avaliação revela um crescimento populacional desde 2017, ao sair de 58.920 habitantes, com projecções para perto de 63.840 pessoas.

Deste universo, 36.398 são mulheres, representando mais de 50 por cento, o que significa que para cada 100 mulheres há 88 homens. Os dados apontam ainda que  26.413 são menores de 15 anos e 98 por cento das crianças até os 11 anos frequentam a escola, taxa de frequência que reduz nas classes seguintes.

Durante a visita aos 16.230 agregados familiares foi possível, igualmente, aferir que pelo menos 19.499 pessoas trabalham ou estão à busca de emprego. Assim o distrito tem actualmente a malha cartográfica mais actualizada ao nível nacional e uma das mais alinhadas aos padrões internacionais, em África.

Felizarda Macucule, residente no Bairro Movane, foi uma das abrangidas pelo censo-piloto. Relata que ao escalar a sua residência os recenceadores procuraram saber, por exemplo, quantas pessoas viviam na casa, número de filhos, dos que frequentavam a escola, se tinham alguma doença ou deficiência.

Foi-lhes questionado ainda sobre o acesso à energia eléctrica, água potável, cobertura da rede de telefonia móvel, nível de escolaridade, produção agro-pecuária e outros.

Assim, espera que os dados, compilados em dispositivos móveis e tecnológicos,  não sejam apenas números, mas um ponto de partida para minimizar as dificuldades enfrentadas pela comunidade, incluindo a falta de emprego formal, que já forçou muitos jovens a abandonar a região à busca de melhores oportunidades.

Neila Muchanga, residente em Magude-Sede, fez parte dos cerca de 200 recenceadores treinados para o processo. Contou que as duas semanas de censo foram de muito trabalho, com dificuldades que vão desde a desconfiança, falta de colaboração de algumas famílias e dificuldades de adaptação aos dispositivos de trabalho. Contudo, o objectivo foi alcançado.

“Muitos questionavam as razões pelas quais fazíamos questionários e esperavam algo em troca das informações prestadas. O nosso trabalho, para além de colher dados, era explicar sobre o processo e sua importância na melhoria das condições de vida, através de expansão, futuramente, dos serviços básicos”, disse.

Ajacência Cossa, controladora, explicou que em caso de recusa dos inquiridos era sua responsabilidade, em colaboração com os líderes comunitários, sensibilizar os cépticos a colaborar com os técnicos do INE.

Lideranças locais cruciais na mobilização

Lideranças comunitárias ajudam a sanar desconfianças sobre o processo. Manuel Mulhanga, secretário do Bairro Ricatlhana; e Alfredo Ernesto, chefe de “Themo”

AS lideranças locais e comunitárias desempenham papel essencial na mobilização e sensibilização da população para adesão e colaboração no levantamento de dados do  recenseamento geral.

São eles que conhecem as famílias residentes em locais mais isolados e o melhor horário para encontrá-las, ajudando ainda a quebrar os mitos e tabus persistentes em algumas regiões, onde se acredita que a intenção do censo é retirar talhões, por exemplo.

Manuel Mulhanga, secretário do Bairro Ricatlhana, acredita que a participação dos lideres é importante, pois estes  não só conhecem melhor as famílias, como também as suas limitações.

Contou que durante o censo-piloto trabalhou com os recenseadores, ajudando a explicar sobre a legitimidade do processo e das equipas que escalavam as residências, reduzindo a desconfiança ou receios sobre a contagem.

Contou que o novo modelo, mais tecnológico, é uma mais-valia, porque há muitos anos toda comunidade dirigia-se à casa do régulo para ser inscrita. Este processo poderia levar horas e até dias. Actualmente em pouco mais de 20 minutos os recenseadores obtém toda a informação do questionário.

Reconheceu que o distrito carece de melhorias em termos de prestação de serviços básicos. Por isso anseia que os dados vislumbrem as necessidades e auxiliem na implantação e/ou expansão dos cuidados de saúde, água, escolas e estradas.
Alfredo Ernesto, chefe do Bairro Themo, localidade de Macubulane, avançou não ter havido incidentes durante o processo, que abrangeu 56 residências. Em caso de falta de entendimento, por diversos motivos, inclusive a barreira na comunicação com pessoas com deficiência, intervinha, ajudando a sanar as dúvidas e/ou transmitir a informação pretendida pelos técnicos.  

Acrescentou que esta foi uma oportunidade de deixar a população de sobreaviso sobre a realização do Censo Geral em 2027.

Isabel Fumo, directora dos Serviços Distritais de Educação, Juventude e Tecnologia, disse que com a realização do teste Magude ganhou uma base de dados estatísticos mais organizada e actualizada, que terá impacto no processo de planificação.

Acrescentou que o envolvimento dos técnicos e agentes mobilizadores foi crucial para obtenção dos resultados. Indicou que os dados, embora experimentais, servirão de espelho para a tomada de decisões tendo em vista a melhoria da qualidade de vida da população.

Dados que auxiliam na tomada de decisões

Presidente do INE,  Eliza Magaua

O CENSO Geral da População e Habitação constitui a maior operação estatística do Estado, cujos resultados servem de base para o planeamento e formulação de políticas públicas nos sectores da Saúde, Educação, Habitação e Desenvolvimento.

A Presidente do INE, Eliza Magaua, explicou que a digitalização visa melhorar a qualidade dos dados, detectar inconsistências durante as entrevistas e reduzir o tempo de processamento e divulgação dos resultados, tal como ocorreu em Magude, onde em menos de uma semana foi possível visualizar a situação do distrito.

Ademais, apontou que os dados do censo-piloto, embora não sejam oficiais, mas sim experimentais, podem estar ao serviço de quem planifica escolas, postos de saúde, abastecimento de água, electrificação, estradas e outras áreas essenciais.

Acrescentou que as falhas logísticas detectadas nos primeiros dias, como oscilações de energia, levaram à compreensão de que a autonomia dos equipamentos deve ser tratada como requisito e não um pormenor logístico durante o processo oficial.

Outra anomalia a ser acautelada é a capacidade de calcular a distância de quem ficou sem rede ou sem trabalhar, para além de questões mal formuladas que podem interferir na captação, na íntegra, do esperado.

Adiantou que para sanar as questões de mobilidade os recenseadores trabalharão em áreas próximas às suas residências, para evitar que percorram longos perímetros. Disse estar prevista a alocação de meios circulantes, como motorizadas e bicicletas.

Magaua reconheceu o trabalho dos recenseadores e controladores, que caminharam longas distâncias em áreas dispersas e muitas vezes sem rede de telefonia móvel, algumas vezes recebidos com desconfiança.

Entretanto, enalteceu o facto de terem sabido lidar com todas as situações, escutar as vivências das famílias e produzir dados que deverão orientar as políticas públicas até à realização de um novo exercício de contagem, em 2037.

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