OS benefícios decorrentes da exploração das enormes reservas do gás natural descoberto na Bacia do Rovuma, em Cabo Delgado, não são, certamente, um tema novo no nosso país. No entanto, voltaram a ganhar relevância esta semana, por conta dos posicionamentos públicos surpreendentes de duas influentes organizações da sociedade civil baseadas nesta província.
Trata-se do Fórum das Organizações da Sociedade Civil de Cabo Delgado (FOCADE) e da representação local da Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA), que em momentos separados, através da imprensa, posicionaram-se contra a escolha da província de Maputo, concretamente a cidade da Matola, para a formação de 260 jovens moçambicanos para trabalharem no projecto do gás do Rovuma, liderado pela TotalEnergies, em detrimento de Cabo Delgado que acolhe o megaprojecto.
Apesar de reconhecer-se o direito de cada cidadão, neste caso, as organizações da sociedade civil manifestarem a sua opinião pública, não podemos deixar de assinalar o carácter infeliz e despropositado deste tipo de manifestações que, em certa medida, podem atentar à unicidade do Estado e com potencial de fomentar o tribalismo e divisionismo entre os moçambicanos.
Numa nota pouco informada e esclarecida sobre o assunto em apreço, o FOCADE reconhece a importância de iniciativas destinadas ao desenvolvimento de competências nacionais e à preparação de jovens moçambicanos para participarem na indústria de gás, no entanto, considera preocupante que, no seu entender, a componente inicial desta formação, esteja a decorrer fora da província onde o projecto está implantado, quando Cabo Delgado dispõe de instituições de formação técnico-profissional.
A CTA e o FOCADE defendem no seu entender, que as acções de formação devem ser concentradas em Cabo Delgado induzindo em erro, ou seja, deixando transparecer que a formação prevista para Matola é a primeira, ou única de jovens que vão trabalhar nos projectos de gás do Rovuma.
É quanto a nós, inaceitável que um posicionamento destes possa vir duma organização baseada em Cabo Delgado, sobretudo porque em tempo não muito distante, em eventos de maior projecção que contaram até com a presença do Chefe do Estado e dirigentes mundiais da TotalEnergies, foi anunciada a formação de jovens tanto em Palma como na cidade de Pemba.
Não se compreende que tanto a CTA como o FOCADE “desconheçam” as acções de formação de jovens que estão a decorrer na terra onde estão baseados e se preocupem, como dão a transparecer, quando a mesma formação é dirigida a outras camadas espalhadas pelo país.
Não se pode permitir que posicionamentos desta natureza sejam frequentemente propaladas, sobretudo através da imprensa, sem o devido escrutínio, sob pena de não somente desinformar, mas acima de tudo, gerar violência entre os moçambicanos.
Tanto a representação local da CTA como do FOCADE deviam antes de se dirigirem publicamente, compreenderem que os recursos descobertos na costa da Cabo Delgado estão em Moçambique, e portanto, devem beneficiar a todos os moçambicanos, independentemente, da região onde habitam.
Aliás, ao nível da formação técnico e pedagógica, Moçambique foi sempre assim. Com as desigualdades existentes em termos de infra-estruturas de formação, muitos moçambicanos tiveram que sair duma província para a outra para beneficiar da sua capacitação.
Foi assim na Universidade Eduardo Mondlane, foi também assim na Universidade Pedagógica e em muitas outras instituições localizadas noutras províncias, incluindo na preparação do Exército que hoje combate o terrorismo em Cabo Delgado.
Portanto, não faz sentido que duas organizações com responsabilidades da CTA e o FOCADE possam hoje, de forma pouco recomendada, incutir inverdades para os incautos com objectivos que pouco desconhecemos sobre o gás descoberto da Bacia do Rovuma.
Este tipo de posicionamentos além de deploráveis são também reprováveis, sobretudo, quando vindos de organizações que se espera lutem pelo bem de todos os moçambicanos.


