Director: Júlio Manjate

PORQUE as igrejas já não podiam reunir todos os fiéis;as universidades, os estudantes,e muitos serviços estiveram literalmente parados e/ou fechados, nada restava senão manter as pessoas ligadas por via das Tecnologias de Informação e Comunicação(TIC), onde estas estão disponíveis e, por via delas,resgatar a dinâmica das instituições.

Nalguns casos, os telefones passaram de simples meios de comunicação e ou diversão para verdadeiros veículos de mensagens de prevenção, com a finalidade de salvar o mundo.

De casa dá-se continuidade ao trabalho e às aulas sem o contacto directo e muito menos presença numa sala de aula. As bíblias e escalas de trabalhos ecuménicos encontraram eco nestes meios. Está a acontecer pelo mundo e Moçambique não é excepção.

Nalgumas realidades,mesmo a ida ao supermercado foi substituídaporcompras online. É pensando nesta realidade, imposta pela Covid-19,que o “Notícias” entrevistou Hikesh Hasmukh, presidente da Associação Moçambicana e Empresas de Tecnologias de Informação(AMPETIC), organização que desde 2016 apoia o desenvolvimento e competitividade da indústria moçambicana de softwares e tecnologias de informação. LEIA MAIS

ANABELA MASSINGUE

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A OBSERVAÇÃO escrupulosa de cuidados básicos reduz o risco de contaminação por tuberculose, quando um paciente na fase activa da doença partilha o espaço com pessoas sãs, à partida vulneráveis à contaminação. 

É claro que não há regra sem excepção, mas Custódio Moamba é disso exemplo. Dedicou os seus anos de enfermagem até à aposentação, ao serviço do Hospital Geral da Machava, 32 dos quais lidando apenas com doentes de tuberculose.

Por ocasião do Dia mundial de luta contra esta doença, que hoje se assinala, falou para a reportagem do “Notícias” e destaca o factor protecção, principalmente para o uso da máscara.

Apesar de no passado, o tratamento ter sido mais complexo e razão de abandono em alguns casos, nas enfermarias onde Moamba trabalhou se registavam poucas mortes, para dizer que a tuberculose não deve ser encarada como sentença de morte.

“Já fiquei um a dois meses sem testemunhar mortes no meu piso, embora fosse uma enfermaria especialmente dedicada a casos graves da doença. O segredo era a estratégia DOT (Directa Observação na Toma) de medicamentos por parte dos enfermeiros. Assisti e vi recuperar doentes com nomes sonantes na praça, entre os quais músicos e pessoas com alta patente”, disse.

Para ele, nesta fase é crucial o papel do enfermeiro, pois o paciente pode, a dado momento, ficar desesperado e pensar mais na morte que na vida.

Conta que os abandonos acontecem mais na fase de manutenção, altura em que o paciente faz o tratamento ambulatório. Ainda que isso aconteça, porque volvidas três semanas de tratamento o organismo, muitas vezes, reage positivamente, o que faz o doente pensar que está curado: “é aí onde começa o problema”, disse.

A fase mais crítica para a ocorrência da contaminação é no início de tratamento pois, posto isso, o bacilo fica adormecido e o doente deixa de constituir perigo aos demais.

Na óptica de Moamba, a separação de utensílios é uma prática antiga que dificilmente as pessoas podem abandonar mas, segundo explicou, o risco de contágio ocorre mais nas primeiras três semanas de tratamento e é por via do ar, quando alguém contaminado expele gotículas que entram em contacto com um indivíduo saudável.  

Sem apresentar números, recorda-se de muitas pessoas doentes que passaram por ele e que recuperaram. Algumas até se esqueceram do que passaram ao ponto de voltarem a consumir bebidas alcoólicas. “Cruzo com algumas, nas ruas, com saúde e que nunca voltaram a ter recaídas. Costumava-se dizer no tempo em que eu trabalhava aqui, que o Hospital Geral da Machava era uma oficina de bate-chapa e pintura para pessoas”, recorda-se Moamba.

Não era para menos. É que recuperamos pessoas que entravam aqui muito mal. Há gente que entrava literalmente acabada, sem andar, mas depois de iniciar o tratamento já se levantava, brilhava e retornava à vida activa”, conta.

Feliz por ser vencedora na luta pela vida do filho  

QUANDO a tuberculose se manifesta numa casa, muitos familiares entram em desespero ao ver o estado clínico de seus parentes. Poucas vezes acreditam na recuperação. Mas este não foi o caso de Luísa Mangane, mãe do pequeno Alsio que foi acometido pela doença, logo nos primeiros dias de vida.

Ela conta que tudo começa em 2013, ano em que levou a criança de apenas alguns dias de vida ao centro de saúde para tratar a tosse. O paracetamol e cotrimoxazol não foram suficientes para desafiar a doença. Veio a transferência para o Hospital Geral José Macamo, onde o pequeno Alsio foi internado por 30 dias. Mesmo assim, o diagnóstico não era conclusivo até que a médica optou pela transferência para o Hospital Geral da Machava, onde foi detectado uma tuberculose óssea. A criança era muito pequena mas conta a mãe que buscou uma força interna não sabe de onde e enfrentou o problema. Três meses depois teve alta hospitalar, mas por alguns dias, pois mal chegou à casa a febre recomeçou e teve que ser novamente internada, por cerca de um ano.

“Não tinha certeza de que o bebé poderia sobreviver mas enfermeiros e médicos me davam coragem e, na verdade, embora tardiamente, a cura chegou. Hoje, sou uma mãe feliz com o meu filho, a frequentar a segunda classe”, disse Luísa.

Já sem depender de medicamentos, de quando em vez vai às consultas para monitoria.

A família deu o apoio que era possível. O pai estava desempregado na altura, mas conseguia visitar o filho durante o tempo em que esteve na luta pela vida. 

Com perseverança veio a superação

“TRATAMENTO doloroso porém, possível”. Quem assim o diz é T. Mangue que superou a doença, graças à sua ousadia e perseverança no diagnóstico e também no tratamento. Exemplo a seguir, conta que a história da sua doença começa com a ida ao centro de saúde, depois de uma rouquidão que durava uma semana.

Sem nenhum teste, houve prescrição de medicamento mas antes do fim, o entrevistado decidiu regressar ao hospital porque não registava nenhum sinal de melhoria e a rouquidão evoluía para a tosse.

Uma vez regressado à mesma unidade sanitária, porque já registava perda de peso, teve uma outra prescrição que também não o levou à melhoria. Aliás, segundo disse, vinham mais sinais de alerta como, por exemplo, uma pontada no peito. Porque  ninguém pensava numa transferência, teve a ousadia de se entregar ao hospital geral, contra todos os procedimentos, pois tudo o que queria era ser tratado.

Conta que o Raio X mostrou sinal de infecção e levou o resultado para o centro de saúde, onde fez o exame de expectoração que deu resultado negativo. Porque a sintomatologia era típica e com base na leitura do raio, foi aconselhado a iniciar com o tratamento da infecção pulmonar. Contudo, volvidos dois meses foi diagnosticado tuberculose por via do teste de expectoração ou simplesmente BK. Os sintomas iam evoluindo e era o reinício do tratamento intensivo que durou de Janeiro a Agosto. Mas, felizmente, tudo deu certo e regressou ao trabalho. 

O interlocutor aconselha a qualquer paciente a assumir uma postura responsável, sempre que estiver perante a doença porque assim, por mais longo que seja, o tratamento acaba chegando à superação.

Para ele, o papel da família é parte da terapia pois, quanto mais apoio dela vier, cresce a esperança de viver e de vencer a doença. “Com o carinho da família, a pessoa doente sente-se motivada e não pensa em abandonar o tratamento, diferentemente de uma situação de estigmatização”, conta.

Guarda memórias de momentos difíceis que passou rumo à cura, mas também momentos memoráveis.

“Tive atenção de toda a equipa que me assistia nessa altura. Quando me resta tempo passo para saudá-la”, disse. T. Mangue volvidos 12 anos de superação.

Erradicação em 2030: Um sonho realizável

MOÇAMBIQUE tem estado a registar, nos últimos anos, uma melhoria na capacidade de diagnóstico, graças ao investimento feito no sector laboratorial, com fundos do Banco Mundial, Fundo Global e do Governo, para a modernização.

Segundo do director do Programa Nacional de Controlo da Tuberculose no  Ministério da Saúde (MISAU), Ivan Manhiça, a melhoria reflecte-se nos casos da tuberculose, de um modo geral, na tuberculose infantil e na tuberculose resistente a medicamentos, particularmente.

A fonte explicou que foi possível substituir o diagnóstico com recurso a  microscópio óptico, por aparelhos GeneXpert, um novo aparelho para fazer diagnóstico que aumentou o número de pessoas rastreadas, o que, consequentemente, permitiu encontrar mais casos.

Salientou que o principal objectivo é encontrar mais gente, uma vez que durante anos, os números encontrados andavam muito abaixo da estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Em 2019, o país diagnosticou e iniciou o tratamento em 97 mil pessoas com tuberculose, num universo de cerca de 300 mil testadas para a doença, com recurso a novas tecnologias introduzidas no diagnóstico.

“Continuamos ainda abaixo, mas melhoramos muito, com tendência a subir. Aliado a isso, temos perspectivas de melhorar ainda mais nos próximos anos”, salienta.

As províncias de Maputo, Gaza, Zambézia e Nampula são as que mais casos da doença registam. As razões prendem-se, para o caso da Zambézia e Nampula com o facto de serem as mais populosas e, para todas, o denominador comum é a prevalência de casos do HIV, com destaque para a zona Sul.

“Mas também é determinante o facto de, nestas províncias, ter havido maior investimento em função das tendências que registamos ao longo dos anos, para podermos captar ainda mais, todos os casos possíveis”, disse.

A Organização Mundial da Saúde estima que Moçambique tem cerca de 162 mil casos de tuberculose mas há cerca de cinco anos, a Saúde encontrava apenas 30 por cento deste número. Actualmente, até finais de 2019, os casos encontrados situavam-se nos 60 por cento.

Manhiça acredita que o investimento que está a ser feito vai permitir que ao longo dos próximos anos, se atinja os 90 por cento até 2030, que é o ano eleito para a eliminação da doença.

Sobre se a erradicação seria um sonhou para Moçambique, Manhiça manifesta-se optimista, socorrendo-se do facto de, para além de se seguir o que está na agenda, existir um investimento que demonstra resultados abrindo-se desta forma, perspectivas para um investimento adicional de modo a continuar a lutar para alcance das metas já definidas. 

(ANABELA MASSINGUE)

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A PREVENÇÃO e resposta às infecções com o novo coronavírus em Moçambique exige dedicação e sacrifício de toda a sociedade, que deve respeitar as medidas de distanciamento social, as regras básicas de higiene e reduzindo o risco de infecções.

A leitura é do investigador e director-geral do Instituto Nacional de Saúde (INS), Ilesh Jani, que em entrevista ao “Notícias” fala sobre os principais desafios do controlo desta pandemia.

Segundo ele, a experiência mostra que não há uma solução tecnológica capaz de conter a propagação do vírus,a não ser a tomada de medidas de prevenção pelasociedade.

“Países mais desenvolvidos que dispõem de todo o tipo de tecnologia não conseguiram prevenir o surto. A solução para este problema é social. Penso que constitui uma vantagem nós termos aprendido a lição a partir de outros países que a solução está no distanciamento social, nas medidas de higiene e na prevenção e controlode infecções”, disse.

O director-geral do INS revela que a maior preocupação da Saúde é que a maioria dos infectados (cerca de 80 por cento) é assintomática ou com sintomas ligeiros e,mesmo assim,servirem de fonte de transmissão da doença.

Por isso – destaca Ilesh Jani –,há necessidade de redobrar acções de prevenção,lavando as mãos frequentemente com água e sabão, evitando aglomerados,entre outros factores que favorecem a propagação do microrganismo.

“Este tipo de vírus respiratório é o pior pesadelo dos profissionais de saúde pública. Para algumas pessoas dá um resfriado, febre durante um dia e um bocadinho de tosse e depois passa. Esses casos, o sistema de saúde não consegue detectar, nem aqui nem emnenhuma outra parte do mundo”, esclareceu.

Explicou que com o distanciamento social, entre outras acções de prevenção, será possível evitar a saturação do sistema de saúde por internamento de doentes que vão necessitar de cuidados de saúde intensivos.

Leia a entrevista na íntegra no PRIMEIRO PLANO desta edição.

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O MUNDO está sob tensão devido à pandemia do Covid-19,que em cerca de três meses matou mais de 11 mil pessoas e infectou aproximadamente 300 mil em todo o mundo. Muita informação circula em diferentes plataformas,deixando algumas pessoas em dúvida sobre o que realmente devem fazer para se prevenir do vírus.

Em busca de compreender as nuances desta doença, o “ Notícias” conversou com Ilesh Jani, investigador-coordenador e director do Instituto Nacional de Saúde (INS), entidade de gestão, regulamentação e fiscalização das actividades relacionadas com a geração de evidência científica em saúde.

Essencialmente, ele aponta três acções que podem ser a chave para o controlo da pandemia no país, nomeadamente o distanciamento social, tomada de acções de higiene, prevenção e controlode infecções. 

Assume que há a possibilidade teórica de que o vírus já esteja em Moçambique há algum tempo e não tenha sido detectado porque, segundo explica, a maior parte dos casos de coronavírus “são ligeiros e até assintomáticos”. A seguir, transcrevemos os excertos mais significativos da conversa.

Notícias (Not.)– Quais são os principais critérios de vigilância adoptados para o controlo do coronavírus em Moçambique?

Ilesh Jani (IJani) – Os nossos critérios de vigilância são basicamente dois (antes da confirmação de casos de Covid-19).Oprimeiro é baseado em indivíduos com factores de risco,que é ter estado num país onde há transmissão activa e que,aquando do seu regresso, dentro de 14 dias, apresentam algum sintoma (febre, cansaço, tosse seca, entre outros). O outro critério é a vigilância de pessoas que estão internadas em algumas unidades sanitárias e que se apresentam com sintomas como dificuldades de respirar.

Not.– Que resultados pode partilhar sobre os testes que vêm sendo realizados?

IJani– Nos últimos dias realizamos, em média, 10 testes por dia no Instituto Nacional de Saúde (INS). Já confirmámos o primeiro caso para o coronavírus. Temos, no entanto, vários casos positivos e pessoas graves internadas devido àgripe influenza, a H1N1. É uma gripe causada também por um vírus. Já tivemos casos de transmissão em festas de família e até um óbito provavelmente por causa desta gripe. Tipicamente, dá um quadro similar ao do coronavírus,como febre, tosse, fadiga, dor muscular e em outras situações pode dar pneumonias graves. Isto significa que o nosso sistema de vigilância funciona para encontrar casos de infecções virais respiratórias, mas também mostra que há outros vírus perigosos. A gripe H1N1 é uma pandemia que dura há 10 anos, existe em Moçambique e é altamente transmissível.

Not.– Há pessoas que acreditam que já tínhamos o coronavírus no país antes da confirmação do primeiro caso…

IJani – Existe a possibilidade teórica de que o vírus já estavaem Moçambique e que não tenhamos detectado porque a maior parte dos casos de coronavírus são ligeiros e até assintomáticos. Para algumas pessoas dá um resfriado, febre durante um dia, um bocadinho de tosse e depois passa. Esses casos, o sistema de saúde não consegue detectar, nem aqui nem em nenhuma outra parte do mundo.

Not.–Os infectados sem sintomas podem transmitir o vírus a outras pessoas?

IJani  – Sim. E esse é o principal problema deste novo coronavírus. De uma forma geral, 80 por cento dos casos são assintomáticos ou muito ligeiros. Depois temos 15 por cento que têm uma apresentação de gravidade média (pessoas que precisam de alguns cuidados hospitalares) e uns cinco por cento mais graves. O problema do controlo desta epidemia são os 80 por cento dos casos ligeiros que transmitem o vírus aos outros. Este tipo de vírus respiratório é o pior pesadelo dos profissionais de saúde pública.

Um em cada 20 infectados pode evoluir para casos graves

Um em cada 20 indivíduos infectados pelo coronavírus pode evoluir para casos graves,que requerem internamento para cuidados intensivos.

NOT.– Os sintomas iniciais evoluem para os mais graves ou nem sempre é assim?

IJani– A literatura refere que há indivíduos que fizeram febre um ou dois dias e não desenvolveram mais sintomas. Mas, mesmo assim, esses pacientes continuaram a libertar o vírus quase duas semanas depois de ficar sem nenhum sintoma. Há também casos que começam com uma sintomatologia ligeira e evoluem para casos graves. Um em cada 20 dos indivíduos infectados pode desenvolver sintomas graves e vai ocupar as camas nos cuidados intensivos. Neste momento, não há nenhum país do mundo preparado para lidar com estes cinco por cento,porque é muita gente que pode precisar de cuidados intensivos. Precisamos a todo o custo tentar impedir que a infecção chegue a estes cinco por cento.

Not.– Como é que podemos conseguir isso?

IJani– A melhor forma é apostarmos na higiene e distanciamento social. Se não fizermos nada sobre a prevenção,poderemos ter muitos infectados. Na Europa, por exemplo, estima-se que aproximadamente 2/3 da população sejamsusceptíveisde apanhar a infecção. Entre estes dois terços, teremos aqueles 80 por cento assintomáticos ou ligeiros; teremos 15 por cento moderados e cinco por cento graves. Se o número de doentes for acima da capacidade do sistema de saúde,então este vai colapsar. O que nós queremos é ter uma curva epidemiológica que se pode prolongar por mais tempo, mas que nunca atinja a capacidade de saturação do sistema de saúde. Para isso, temos de adoptar acções de prevenção principais,que são a higiene e o distanciamento social,assim como aquelas determinadas pelo Presidente da República. Será também necessário olhar para a questão da prevenção e controlo de infecções. Se nós conseguirmos implementar estas três medidas, em princípio teremos capacidade de cuidar dos doentes.

Not.– Quais são os pontos fracos e fortes do país na prevenção desta pandemia?

IJani – Pelo facto de África ser o último continente a sofrer o peso da infecção e de Moçambique hoje (ontem) confirmar o seu primeiro caso, deu tempo para as pessoas serem sensibilizadas,e isto constitui uma grande vantagem. Hoje,o povo moçambicano percebe a gravidade do assunto, portanto, estamos numa situação em que há maior sensibilidade para as medidas de distanciamento social. Mesmo assim, poderá haver um pouco de resistência ao distanciamento social. Há também questões particulares do continente africano em que temos uma proporção importante de pessoas cuja sobrevivência depende da sua actividade laboral daquele dia. Temos um sector informal importante que tem de ser levado em consideração nas medidas de distanciamento social. Outros factores importantes são as condições em que vivem as pessoas, principalmente nas zonas periurbanas da cidade.

Not.– Como prevenir-se nestas condições, é usando máscaras ou outro meio?

IJani– Neste momento, não é com base em tecnologias que vamos prevenir o surto. Países mais desenvolvidos que dispõem de todo o tipo de tecnologia não conseguiram prevenir o surto. A solução para este problema é social. Penso que constitui uma vantagem nós termos aprendido a lição a partir de outros países que a solução está no distanciamento social, nas medidas de higiene e na prevenção e controlode infecções.

Vacina está a mais de um ano de distância

A descoberta de vacina para prevenção do coronavírus pode levar anos, daíque o melhor que se pode fazer é intensificar acções de prevenção e preparar o sistema de saúde para um possível surto.

NOT.– Já temos vacina contra esta pandemia?

IJani– A vacina está a mais de um ano de distância. Começou a semana passada um primeiro ensaio clínico mais pequeno (fase I) nos Estados Unidos daAmérica, com 45 pessoas,para, sobretudo, testar a segurança do produto. É um estudo que envolve três grupos de 15 voluntários saudáveis. Cada grupo vai receber uma dosagem da vacina para se saber qual é a dosagem mais adequada. O estudo vai durar alguns meses. Só então vamos saber se a vacina é segura e qual é a dose que tem a melhor combinação de segurança e resposta imunológica. Seguir-se-ão outros estudos que culminarão com ensaios de eficácia.

Not. – Mas a China e Cuba dizem que já têm a vacina.....

IJani– Cuba fez afirmação de que tem um imunoterapêutico – um produto imunobiológico que não é uma vacina preventiva, mas que é usado para tratar as pessoas que têm infecções. Os chineses dizem que têm a vacina, mas não há ainda um relatório científico na literatura científica internacional. Infelizmente, uma vacina não se faz em poucas semanas, ela leva anos a ser desenvolvida.

Not.– Normalmente, as grandes epidemias iniciam e têm grande impacto em países considerados de baixa renda. Entretanto, o Covid-19 iniciou na China, membro do G8, e está a afectar grandemente os países considerados ricos. Que leitura pode fazer em relação a esta realidade?

IJani – Acho que é uma questão de risco. Os modelos iniciais previram que África seria o último continente a ser afectado por este vírus. O vírus foi originado na China e foi difundido pelo tráfego aéreo. África é o continente que regista a menor intensidade de tráfego aéreo. Dentro de África, os modelos previam que Argélia, Egipto e África do Sul seriam dos primeiros países a ter as maiores epidemias em função das suas ligações aéreas. O que está a acontecer é o que tinha sido previsto.

Not. – A OMS refere que África deve esperar o pior nos próximos dias. O que significa?

IJani– Significa que é reconhecido que os sistemas de saúde africanos são frágeis, mesmo nos países mais ricos de África. Uma particularidade do continente africano é que o grupo etário de alto risco (idosos) tem menor frequência no continente africano. Nós temos uma pirâmide etária que é diferente da pirâmide da China ou da Itália. Em Moçambique temos uma população maioritariamente jovem. Contudo, há uma incógnita. Uma hipótese é que pessoas com outras doenças como HIV, problemas cardiovasculares e de nutrição poderão estar também no grupo de risco. O que a OMS quer dizer é que não fiquemos à espera do início do surto para começar a agir com vigor.

Resposta exige sacrifícios detodos

Moçambique não é imune à pandemia do Covid-19. Esta terá um grande impacto nasesferassocial, económica, religiosa e cultural, por isso exige sacrifícios extraordinários de toda a sociedade na prevenção da doença.   

NOT.– Acha que o nosso sistema de saúde está preparado para lidar com uma possível eclosão da doença e garantir assistência a todos os doentes graves?

IJani – O MISAU está a fazer todo o esforço para que o sistema de saúde esteja o melhor preparado para lidar com aqueles doentes que vão precisar de atenção. Não é fácil em nenhuma parte do mundo e não vai ser fácil aqui. Por isso, devemos fazer de tudo para evitar a transmissão da doença, trabalhando arduamente nas medidas de prevenção. Penso que esta é uma crise extraordinária e vai, portanto, precisar de medidas extraordinárias. Haverá impactos nasesferassocial, económica, cultural e religiosa. É um problema que terá de contar com a participação de todos os sectores do Governo e da sociedade. A resposta vai exigir um pensamento inovador, sacrifícios e uma dedicação extraordinária de cada um de nós.

Not.– Há muita informação que circula em diferentes plataformas sobre o coronavírus.Um comentário seu sobre isto.

IJani – Gostava de chamar atenção ao papel dos media de veicular mensagens credíveis para dissipar os mitos. Os mitos podem ser prejudiciais. O uso de máscaras no dia-a-dia para uma pessoa saudável, que não está infectada, não ajuda em nada. Esta prática é até prejudicial porque dá uma falsa sensação de segurança e pode distrair as pessoas das medidas de higiene e distanciamento social. Adicionalmente, o uso indevido retira a disponibilidade de máscaras aos grupos que realmente precisam, que são os trabalhadores de saúde e os indivíduos que estão com sintomas.

Not.– No que toca à higiene, alguns falam do uso do vinagre na ausência do álcool gel...

IJani – Há uma lista publicada pela OMS dos detergentes que funcionam,e o hipoclorito de sódio (javel ou lixívia) é um deles. Nas casas, a lavagem das mãos com água e sabão é suficiente.

A humanidade terá de se reinventar para evitar mais pandemias   

A humanidade terá de repensar a sua economia e alguns aspectos culturais para evitar futuras pandemias.

NOT.– Qual é a provável origem do coronavírus?

IJani – A teoria mais aceite na comunidade científica é que o vírus primeiramente se originou em morcegos,com uma passagem intermediária pelo pangolim e que,posteriormente,do pangolim tenha passado para seres humanos. Hátambémuma teoria de conspiração de uma possível guerra biológica e de que o coronavírus tenha sido fabricado em laboratório. Mas um artigo científico publicado muito recentemente numa revista científica de renome prova o contrário. A sequência genética do vírus indica um processo evolutivo de adaptação a várias espécies,incluindo a espécie humana, muito mais do que manipulação genética. Se houvesse manipulação genética,haveria indicações de manipulação no genoma do vírus.

Not.– Porque é que o vírus aparece no Homem e se espalha?

IJani – É resultado de vários factores,entre os quais o crescimento populacional sem precedentes – somos acima de 7 biliões de pessoas –,do urbanismo acelerado e da aglomeração de pessoas que favorece a transmissão de patógenos. É também reflexo de alguns hábitos culturais que favorecem as zoonoses – passagem de vírus ou outros microrganismos de animais para humanos – como,por exemplo,a venda de animais silvestres para consumo humano. Há também a invasão do habitat dos animais por causa do crescimento populacional e para actividades económicas. A estes factores, e neste caso (coronavírus),sobretudo, junta-se a intensidade do tráfego aéreo. As ligações áreas hoje são em número extraordinário e isso favorece a rápida transmissão de microrganismos.

Not.– Que lições se podemtirar desta pandemia?

IJani – De certeza que esta não será a última vez que teremos uma pandemia, a não ser que repensemos a nossa economia, a nossa maneira de estar e alguns aspectos culturais. A humanidade tem de se reinventar, ou se mantendo os factores de risco actuais teremos uma pandemia similar num futuro próximo.

(Evelina Muchanga)

 

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O abastecimento de água potável à região do Grande Maputo, que inclui as cidade de Maputo e Matola e a vila de Boane, sofreu um revés na madrugada deste sábado, na sequência da ruptura de duas condutas que transportam este recurso a partir da Estação de Tratamento de Água (ETA) de Umbelúzi, no distrito de Boane, para abastecer os principais centros distribuidores.

Um comunicado da Águas da Região de Maputo (AdeM) explica que a situação foi provocada pela queda de uma secção da ponte metálica sobre o rio Umbelúzi, no Bairro Campoane, infra-estrutura que suportava as condutas.

Entretanto, no terreno já arrancaram as obras de reparação que, segundo informações partilhadas no próprio sábado pelo Ministro das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos, João Osvaldo Machatine, deverão durar até dez dias.

Quatro empreiteiros já foram mobilizados e encontram-se no terreno a trabalhar na reposição da infra-estrutura.

Com esta situação, conforme destacou João Machatine, o abastecimento da água às cidades de Maputo, Matola e à vila de Boane vai reduzir até 20 por cento, nível que poderá ser gradualmente aumentado para 40 por cento.

“O abastecimento de água passará a ser intermitente, de modo que todos os bairros possam ter um pouco de água disponível para o consumo”, frisou.

Numa outra abordagem, o governante apelou às populações para que observem medidas de austeridade e uso racional da água de modo a minimizar-se o impacto negativo das restrições.

A escassez de água está a obrigar os consumidores a procurar fontes alternativas para satisfazer as necessidades domésticas. Pelas primeiras horas da manhã de ontem citadinos da periferia de Maputo e Matola, munidos de recipientes, já percorriam algumas artérias em busca de água.

A situação pode ter sido minimizada com a chuva que caiu no princípio da tarde, já que muitas famílias aproveitaram o fenómeno para aprovisionar água para o seu consumo.

As imagens, algumas das quais em reprodução, ilustram o avanço das obras de reparação dos danos e alguns dos constrangimentos causados pelo incidente da Campoane.

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