ALEXADER SURIKOV A PROPÓSITO DA VISITA DE NYUSI À RÚSSIA: Dar primazia à cooperação económica

 

A HISTÓRICA visita que o Presidente da República, Filipe Nyusi, efectua esta semana à República Federativa da Rússia destina-se, fundamentalmente, à reactivação das relações bilaterais, comprovadas ao longo do tempo, sobretudo no domínio económico.

Esta leitura é feita pelo embaixador daquele país euro asiático em Moçambique, Alexander Surikov, em entrevista ao “Notícias”, na qual explica, ainda que em linhas sucintas, os contornos da cooperação entre Moçambique e a Rússia e, ademais, a vontade política do seu país de partilhar com o nosso visões sobre o sistema de relações internacionais num mundo multipolar. A seguir, as partes mais significativas da referida entrevista:

Notícias (Not.) - Descreve a visita do PR, Filipe Nyusi, à Federação Russa como histórica. Por quê histórica?

Alexander Surikov (AS) - É verdade. Trata-se de um evento histórico, na medida em que é a primeira visita de um Chefe do Estado moçambicano à Rússia moderna. No passado, acolhemos a visita de um estadista moçambicano, nos tempos da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), mais concretamente em 1987, quando o cargo era exercido pelo antigo Presidente da República Joaquim Chissano. De lá a esta parte mais, nenhum Chefe do Estado moçambicano se deslocou ao nosso país. Esta é a principal razão pela qual a Rússia qualifica a visita do Presidente da República de Moçambique como histórica.

Not.-Concretamente, a que esta visita se destina ?

AS - Insisto que a visita é mesmo histórica. Ela destina-se à reactivação das relações entre os dois países, sobretudo no domínio económico. Conseguimos notar com enorme satisfação que nos últimos dois anos, que, aliás, coincidem com o meu mandato como embaixador em Moçambique a dinâmica das trocas comerciais é positiva, com tendência a muito positiva. Como sabem, a Rússia esteve sempre em prol da consolidação do Estado moçambicano. Estivemos sempre juntos com o povo moçambicano desde os tempos da luta de libertação nacional. Estabelecemos relações diplomáticas com Maputo a 25 de Junho de 1975, exactamente no dia da proclamação da independência de Moçambique. E desde a altura prestamos o nosso apoio multiforme à consolidação da independência.

Not. -Prevê-se a assinatura de quaisquer acordos e/ou memorandos entre os dois países no decurso desta visita?

HS - Sim, acredito que durante a visita serão assinados alguns acordos e memorandos, principalmente na esfera da cooperação técnico-científica, geologia, hidrocarbonetos, electricidade, entre outros. Todo este movimento abrirá novas perspectivas para o aprofundamento das nossas relações, num futuro a breve trecho. Mas é preciso ter em conta que, sendo a primeira visita de um estadista moçambicano à Rússia moderna, não devemos alimentar ilusões de eventuais acordos bilionários. Estamos a começar tudo do zero, praticamente.

Queremos aumentar o volume de investimentos

NOT. - Fale-nos, senhor embaixador, do comércio bilateral entre Moçambique e a Rússia.

HS - Em 2018 o comércio bilateral aumentou 25 por cento em comparação com o ano anterior, totalizando quase 115 milhões de dólares. Em 201l, o crescimento é ainda mais impressionante. Ou seja, no primeiro trimestre do ano em curso as trocas comerciais quase que duplicaram. Ou melhor; de 11,2 milhões de dólares, o volume do comércio passou a ser de 24,3 milhões. Mas há ainda o potencial de crescimento e diversificação da estrutura do comércio entre os dois países. Queremos, sem dúvida, aumentar a proporção de mercadorias industriais. Queremos também aumentar o volume de investimentos.

Not. - Na verdade, qual é a prioridade nas relações entre os dois países?

HS - Nós consideramos que a prioridade nas nossas relações é a cooperação em pé de igualdade, na esfera de negócios. Como devem saber, a Rússia nunca exerceu em África o papel de império colonial e não participou em saque de recursos naturais do continente. Durante a época soviética, embora tenhamos prestado muita assistência técnica, a URSS nunca foi proprietária de fábricas ou infra-estruturas no continente. Doou tudo para os países africanos, porque o objectivo era fomentar o desenvolvimento e não sacar lucros. Moçambique não é excepção: aqui trabalhavam milhares de peritos soviéticos, tanto civis, como militares, cumprindo o seu dever internacionalista de fomentar o desenvolvimento da indústria, agricultura, saúde, educação e forças armadas. Porém, devido à turbulência política que culminou com a desintegração da URSS, seguindo-se uma profunda crise económica, diminuímos a nossa presença em Moçambique. Agora estamos com capacidades económico-financeiras suficientes para voltarmos ao continente, de facto, preparados para começar do zero a nossa cooperação económica. Este processo é muito complicado e requer, para além de motivos económicos, uma forte vontade política. Espero, pois, que a visita oficial do Presidente Nyusi à Rússia contribua para isso.

Not. -Pode facultar-nos alguns exemplos práticos da cooperação económica bilateral?

HS - Sim, sim. Há exemplos práticos dessa cooperação, com impacto na vida quotidiana dos cidadãos. Senão vejamos: no dia 16 de Julho, na presença do Presidente da República, Filipe Nyusi, inaugurámos a primeira planta de processamento de areias pesadas, com investimento russo “Tazetta Resources”, no distrito de Pebane, província da Zambézia. A empresa russo-moçambicana é a maior empregadora do distrito com mais de 250 contratados, todos eles residentes. Achamos que, no futuro, o número de locais contratados poderá vir a aumentar para mil em quatro blocos. Portanto, estamos a dizer que o volume de investimento russo em Moçambique é estimado em mais de 100 milhões de dólares. Além disso, cinco milhões estão destinados a projectos sociais. Ainda é pouco. Reconhecemos. Mas, como dissemos, estamos a começar quase tudo do zero.

Not. - A Rússia continua a hospedar bolseiros moçambicanos. Quantos se encontram lá presentemente?

HS - Sim, continuamos a hospedar muitos bolseiros moçambicanos. Neste momento, estimo em cerca de 400 moçambicanos a estudarem na Rússia. Mas, anualmente, recebemos bolseiros, o que significa que o número pode ser um pouco maior ainda. Eles estão lá em busca do saber em várias aéreas do ensino. Mas também Moçambique acolhe cidadãos russos, em número que ultrapassa a cem. Com estes, conseguimos dar um impulso à cooperação bilateral, na esfera da economia. É claro que não chegamos aos níveis de há uns 35/40 anos. Alegra-nos, porém, notar que Moçambique está a caminhar pelos próprios pés em vias de desenvolvimento. Vemos que o país tem os seus problemas financeiros, mas acreditamos que isto é uma situação passageira. As bases estão lançadas e a rota irreversível é o desenvolvimento do país.

Not. -Sabemos que a petrolífera estatal russa, a Rosneft, está a caminho de Moçambique. Quais os contornos da vinda desta empresa ao nosso país?

HS - Na verdade, a petrolífera estatal “Rosneft” está no consórcio com a empresa “ExxonMobil” que produzirá o Gás Natural Liquefeito (LNG), na costa de Moçambique. Presentemente, espera-se pela Decisão Final de Investimento. Para já, tudo está pronto para a abertura do escritório da empresa russa em Maputo, o que vai permitir o desenvolvimento de outros projectos neste país.

Prestamos ajuda à população

NOT.- Que outras agendas a Rússia desenvolve em Moçambique?

HS - Nós seguimos prestando ajuda directa à população. Recentemente, o governo da Rússia aprovou o desembolso de 1,5 milhões de dólares para o desenvolvimento de projectos de recuperação através do Programa Mundial de Alimentação. Compreendemos a importância crucial de prosseguir o apoio alimentar directo à população.

Not. -Até que ponto os ciclones Idai e Kennet, que fustigaram recentemente o nosso país, mexeram com a Rússia?

HS - Consideramos os dois ciclones como tragédias. A Rússia apoia o Governo no que diz respeito à recuperação pós ciclones Idai e Kennet. Estamos ao lado de Moçambique desde as primeiras semanas do desastre natural. Se estão recordados, no dia 8 de Abril, através das redes logísticas da Organização Mundial de Saúde (OMS), enviámos um avião com 88 toneladas de medicamentos e equipamento médico diverso, incluindo anti-maláricos e tratamento para mil doentes de cólera e até abrimos um hospital de campo. Um pouco mais tarde, a 22 de Abril, na cidade da Beira, aterrou um avião do Ministério das Situações de Emergência da Federação da Rússia com mais de 30 toneladas de carga, dentre tendas, cobertores, conservas de peixe e carne, açúcar, azeite e arroz como ajuda humanitária para as vítimas do Idai. Na cerimónia de entrega participaram o governador provincial de Sofala, representantes do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades e diplomatas russos, entre outros.

Saudamos o acordo de paz

NOT. -Moçambique acaba de assinar o acordo de cessação de hostilidades militares e, por essa via, o acordo de paz. Algum comentário?

HS -Em tempo oportuno e através do Ministério das Relações Exteriores, a Rússia congratulou o Governo moçambicano pelo alcance da paz definitiva. Reitero aqui tais felicitações extensivas, de modo particular, ao Presidente da República, Filipe Nyusi, ao Presidente da Renamo, o falecido Afonso Dhlakama, e ao seu sucessor Ossufo Momade, por terem dado primazia a paz. Deixaram todas as diferenças, sentaram-se à mesma mesa, corpo a corpo, com fins pacíficos e com muita coragem assinaram os acordos. Agora é necessário sarar as feridas provocadas pelos anos de conflito armado pois, muitas famílias perderam os seus entes queridos. Aliás, a Rússia tem experiências amargas de um passado que agora pertence à história. Todos os moçambicanos têm a espinhosa tarefa de converter este país para o melhor. Recursos humanos para isso estão disponíveis, as riquezas também despontam e Moçambique é capaz de avançar rumo ao seu melhor.

(Salomão Muiambo)

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