Director: Lazaro Manhiça

PASSAM 45 anos,desde a criação da Polícia da República de Moçambique (PRM), efeméride que não teve pompa à altura da grandeza da corporação,devido às medidas impostas para a prevenção da Covid-19 e pelo facto de as atenções estarem viradas para o combate aos terroristas,que desde 5 de Outubro de 2017 protagonizam ataques em alguns distritos da província de Cabo Delgado. Leia mais

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PARA que todas as medidas de combate ao HIV/Sida tenham melhor impacto, o país precisa de ter uma resposta baseada em direitos humanos, considera o secretário-executivo do Conselho Nacional de Combate ao SIDA (CNCS), em entrevista ao “Notícias”, por ocasião dos 20 anos deste organismo, assinalados a 23 de Maio último. Na conversa, Francisco Mbofana fala do percurso epidemiológico do HIV/Sida em Moçambique, as principais fragilidades e oportunidades para o alcance do objectivo visando acabar com o HIV, como um problema de saúde pública até 2030. (EVELINA MUCHANGA) LEIA MAIS

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ESTA é a edição 31 mil do “Notícias”. O número redondo é mais uma marca no longo percurso de um jornal que se estampa como o principal de Moçambique, país com que se encontra abraçado desde 15 de Abril de 1926, portanto, há precisamente 94 anos, um mês e 16 dias.

A edição 31 mil é pretexto para partilharmos com os nossos leitores, em jeito de recordação, algumas notas de uma trajectória singular na história da imprensa no país, o que inclui, mais do que o envolvimento de várias gerações de jornalistas e de outros profissionais cujo contributo foi indispensável para que se atingisse este marco, a fidelidade de várias gerações de leitores espalhados por Moçambique e, hoje, pelo mundo.

Tudo começou com a ousadia de um militar, o Capitão Manuel Simões Vaz, que, literalmente, reivindicou um jornal que se comprometesse – conforme justificou no primeiro editorial – com “a verdade, sempre a verdade, acima de tudo a verdade”. O contexto histórico em que surgiu o “Notícias”, o de primazia sectária para uma pequena porção de habitantes da então colónia portuguesa, de antagonismos (incluindo ideológicos), mais do que justificam a premissa.

O militar Simões Vaz era também jornalista e foi editor deste matutino por muitos anos, consolidando o jornal como um parceiro da verdade e da verticalidade perante os factos. É com este compromisso, com que a actual geração de jornalistas também se encontra em cometimento, que o “Notícias” se foi (e se vem) construindo.

O ponto de partida do projecto foram as quatro páginas em formato tabloide que caracterizaram o jornal na sua fase inicial. Sem fotografias, porque era extremamente caro implantá-las e reproduzi-las no contexto da época, os leitores contentavam-se com notícias e editoriais que os levavam aos factos retratados.

A tiragem inicial do jornal era um luxo a que só podiam aceder 36 indivíduos. Sim, o “Notícias” imprimia apenas 36 exemplares. Mas, na verdade, era lido por mais do que 36 pessoas, porque, tal como hoje, e tal como um livro, o exemplar de um jornal passa de mão em mão em casa, no escritório, na escola e em todo o lado.

A revolução na tiragem começou logo depois. A pouco e pouco (no início muito pouquinho) o número de exemplares foi crescendo, passando para 100 em Fevereiro de 1929. O salto na quantidade de impressões teve a boleia do início da inserção de fotografias no jornal, começada a 2 de Fevereiro.

O progresso nas tiragens acompanhou o jornal em grande parte da sua trajectória, sendo excepções algumas reduções pontuais que se deveram a factores conjunturais, mormente os altos custos de matérias-primas para a sua produção.

 

UMA CASA COM HISTÓRIA

O “Notícias” é testemunha de uma caminhada longa na história de Moçambique e do mundo. De 1926 para cá estampou nas suas páginas importantes fases do percurso de um país. Embora tenha surgido num contexto de ditadura, este periódico soube sempre ser observador atento do seu tempo, descrevendo-o nas suas mais variadas facetas. Pouco mais de um mês após a sua criação implantou-se em Portugal a ditadura, que teve repercussões na acção dos jornalistas, inclusive nas colónias. O jornal foi, por isso, sobretudo pelo seu perfil incómodo para o regime, na sua fase inicial, sujeito a indagações a que foram de resto sujeitos quase todos os periódicos da época.

Manuel Simões Vaz revelou-se um exímio jornalista e com os colegas fez jus às promessas deixadas no lançamento do jornal. A ele e sua equipa interessava apenas a verdade, “sempre a verdade e, acima de tudo, a verdade”, apartando-se do estadulho que, tanto em 1926, como hoje, se ergue em alguns quadrantes para zurzir tudo e todos. Vaz foi, por isso, o vértice de um compasso que traça a circunferência em que caminhavam jornalistas cometidos com os preceitos da profissão.

Sob a batuta de Manuel Vaz muitos jornalistas fizeram percurso no jornal e vários outros, depois de si, também deixaram a sua marca. Em algum momento foram tão incómodos para o regime que, às vezes, dividiam o tempo entre a Redacção e os tribunais. José Craveirinha é um desses nomes e, sobretudo nos anos 1950, acrescentava à sua fama de poeta e de jornalista a de réu, porque processado judicialmente várias vezes por incomodar o poder, principalmente através das suas crónicas.

Note-se que os jornais na época eram controlados ao abrigo de uma norma de Setembro de 1926, a Lei da Censura Prévia, que às vezes era driblada pela astúcia dos jornalistas ou mesmo pela limitação de compreensão dos censores. Craveirinha e outros acabavam por ir parar à barra do tribunal, às vezes, porque os seus artigos não eram compreendidos pela censura, rebentando o escândalo com a edição já na rua.

A Lei da Censura Prévia era não mais do que a sede do poder instituído de controlar e às vezes silenciar a imprensa. Para acrescentar-lhe eficácia, no “Notícias”, mais do que a censura da lei, também havia, no período colonial, a censura da PIDE. O malogrado jornalista Albino Magaia, um antigo quadro desta casa (chegou a administrador do Conselho de Administração da Sociedade, dona do jornal), recordou num artigo que,nos anos 1970, passeatas da famigerada polícia portuguesa nas instalações do jornal levaram à debandada de alguns dos seus mais importantes jornalistas, que iriam fundar a revista “Tempo”. Rui Cartaxana, Areosa Pena, Calane da Silva, Mota Lopesou Kok Nam  fizeram parte dessa lista. A PIDE não só passeava no “Notícias” como  morava.

Após a independência nacional, o “Notícias” continuou a ser uma referência do jornalismo. Mantendo-se como o principal jornal do país, continuou a ter na sua Redacção os melhores profissionais moçambicanos, alguns dos quais referências do jornalismo moçambicano: Mia Couto, que foi director, Salomão Moyana, Miguéis Lopes Júnior, Willy Waddington, Benjamim Faduco, Mário Ferro, Abel Faife, Pedro Tivane, Bernardo Mavanga, entre muitos outros, são alguns desses nomes.

 

INTERROMPIDO POR ALGUNS DIAS

POR… RIDICULARIZAR SALAZAR

As amarras do poder foram sempre uma pedra no sapato dos jornalistas. O “Notícias”, em grande parte da sua história, foi a tentação de vários poderes. O interesse era óbvio, controlá-lo. A edição 31 mil que hoje assinalamos teria chegado já há alguns dias, se, num desses anos, no final do período colonial, um governador-geral não tivesse mandado suspender o jornal. Porque dolo?

Numa das suas edições daquele ano, o jornal publicou, em primeira página, um discurso do todo-poderoso do regime português, Oliveira Salazar. Mas na mesma página, num rodapé de coluna a coluna, inseriu um concurso designado “Borrões”.

Não chegou a estar claro se se tratara de um golpe do jornal à censura – que não estabeleceu relação entre os dois conteúdos – mas o governador viu na opção do jornal de juntar o discurso de Salazar numa primeira página em que estava também inserido um concurso sobre borrões uma provocação ao líder supremo do regime. Provocação? Nunca se soube se sim ou não.

Com ou sem ordem para não sair à rua, o “Notícias” está aqui, hirto e perene e a vincar o seu papel na história do jornalismo moçambicano.

 

 

UMA TESTEMUNHA

Luís Tourais:  este jornal vem de longe!

O percurso do “Notícias” é feito por jornalistas e por muitos outros profissionais que, trabalhando na empresa, contribuíram para colorir as páginas da história do jornal. Um deles é Luís Tourais, que ingressou para os quadros da empresa em 1967, aos 15 anos, como aprendiz de fotogravador e reformou-se em 2018, como técnico e responsável pela Fotolito.  Desafiámo-lo a desbobinar a memória e a elencar algumas históriasdo seu tempo no jornal e não hesita em citar “bons e maus momentos mas que valeram a pena viver”.

Com alguma saudade, Tourais lembra-se de um “Notícias” feito por vários jornalistas e vários técnicos que sempre cumpriram a missão de produzir um jornal que chegava a várias mãos deste país.

O mais marcante entre o antes e o agora que nortearam a conversa com este trabalhador reformado é o salto tecnológico nos processos de produção do jornal.

“Sou da era do chumbo, a era de que muitos falam mas não sabem na verdade o que é isso. A satisfação das pessoas em ler o jornal era tanto dos jornalistas que escrevem os artigos, como dos vários compositores e outros técnicos que guardam nos pulmões o chumbo que inalavam das máquinas (de composição)”, começa por referir.

O sistema de impressão a quente envolvia vários técnicos, cuja interacção era sincronizada na busca do mais perfeito exemplar do jornal. Das oficinas, o cheiro a chumbo irrompia pelos outros compartimentos da casa – Redacção, Revisão, etc.–, o que leva Luís Tourais a afirmar que “estávamos unidos pelo chumbo”.

Mas essa união carregava também, nos primeiros anos de Tourais na empresa e até à independência, outras desuniões.

“Isto estava cheio de PIDES (alusão à polícia política portuguesa). Estavam em todos os sectores farejando tudo e todos. Mas não nos metiam medo. Fazíamos o nosso trabalho na maior tranquilidade. O nosso cuidado era ao falarmos de política, não nos metíamos nisso nas oficinas. Víamos política quando compúnhamos e imprimíamos o jornal, comentando só dentro de nós. Era tudo a favor dos colonialistas”.

Leitor atento do jornal, Tourais vê o “Notícias” não apenas como um jornal, mas como uma referência que precisa de ser permanentemente cultivada. Recorda-se, com algum saudosismo épocas, que várias pessoas faziam romarias para lerem o “Notícias” nas instalações do jornal.

“Era bonito para nós vermos gente aos montes ali próximo à recepção a ler o jornal numa vitrina. Era uma forma de mostrar que o jornal não era apenas para as elites ou para quem tinha dinheiro. Se fizessem isso de novo, muita gente aqui na baixa leria o jornal”, conta.

Ao contarmos a Tourais que a conversa com ele tinha como pretexto a edição 31 mil do jornal, a reacção é de orgulho:

 “Eh pah, esta casa vem de muito longe, estamos velhos!”, recorda.

Da sua bobina de recordações lembra-se, para além da PIDE na Redacção e nas oficinas, do nervosismo dos colonos nas vésperas da independência nacional, do consumar da vitória da FRELIMO no campo de batalha e da vingança dos portugueses que tentaram “despedir-se” do “Notícias”.

“Os brancos eram do caraças. O nervosismo deles podia acabar na cara de um gajo qualquer. Recordo-me de um, que sempre cravava cigarros a um colega preto. Cansado, num desses dias, o preto antecipou-se e disse ‘peço um cigarro’. Não tardou um murro e um grito: ‘achas que vou dar cigarros a um preto?’ Saiu daí uma peleja e uma ida à esquadra. Mas tudo ficou sanado, e entre os operários o comentário era de que aquela atitude mostrava o racismo de um gajo que já sentia que a independência iria chegar em breve”.

Outra história recordada pelo antigo técnico de fotolito é o 21 de Outubro de 1974. Nesta data, um grupo de colonos quis “despedir-se” do “Notícias” destruindo-o. Nesse dia, militares portugueses deslocaram-se ao jornal e, aos tiros, tentaram destruir e matar.

“Foi terrível. Foi um tiroteio de duas a três horas. O que aqueles portugueses não sabiam é que tínhamos aqui uma força das FPLM, que nos protegeu. Felizmente, a coisa foi má para o lado deles porque apanharam”.

Após a independência, Luís Tourais continuou a ser o técnico de fotogravura que quis ser. Sempre quis fazer bem o seu trabalho, ensinando também aos companheiros tanto a técnica como a postura. Para ele, um profissional tem que ter sempre em mente o bem-fazer e deixar uma marca. Diz que deixou a sua na empresa, mas que está a ser destruída pela modernidade.

“Digam o que quiserem mas prefiro fazer o jornal em off-set e não com a modernice que vocês têm hoje. A tecnologia matou a arte. Fazem o jornal em pouco tempo mas perdeu-se a adrenalina doutros tempos”, afirma, vaidoso, esquecendo-se que a tecnologia, hoje, acrescenta eficácia aos processos. Eficácia e recursos…

O leitor Luís Tourais é por  um jornal que crie, mais do que as que tem agora, outras rubricas específicas da vida dos moçambicanos. Sugere que os espaços suburbanos devem estar sempre nas páginas do jornal, porque lá há muita vida que não chega às nossas páginas. Seria mesmo bom os arredores das cidades serem mais retratados”.

GIL FILIPE

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QUANDO Fany Mpfumo estava a dar uns toques a fim de “caprichar” mais um pouco o esmero da famosa canção Moda Xicavalo, ele sentiu o “bojo” a roncar de tão vazio que estava. Era umamanhã de sábado, 16 de Abril de 1955, dia marcado para a gravação do tema, na África do Sul. SAMUEL MATUSSE* LEIA MAIS

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NENHUM sistema de saúde no mundo está preparado para dar vazão a uma situação de aumento rápido no número de casos de infecção com a pandemia da Covid-19. Para países como Moçambique, o ideal é aproveitar ao máximo a janela dada pelo reduzido número de casos confirmados, para intensificar as medidas de prevenção.

Numa entrevista à Televisão de Moçambique, o Ministro da Saúdediz ser necessário abordar a Covid-19 tendo em conta as condições reais do país, desde as infraestruturas sanitárias até aos recursos humanos.

Com o país em estado de emergência decretado com o objectivo de melhorar a abordagem da prevenção, o ministro Armindo Tiago descreve as acções desencadeadas no país, fala das perspectivas e de alguns nós de estrangulamento ao longo do processo, mas também aponta os caminhos que os cidadãos devem seguir para evitar o que chamou de “desastre humanitário”, à imagem do que se assiste em vários países da Europa e nos Estados Unidos, que teoricamente têm sistemas de saúde mais avançados.

A seguir, passamos a transcrever os excertos mais significativos da entrevista, com a devida vénia à televisão pública. 

Pergunta (P): Senhor ministro, qual é a situação actual da pandemia dCovid-19 em Moçambique?

Armindo Tiago(AT): O facto de não estarmos a notificar muitos casos e,por vezes,não termos casos novos durante dias não quer dizer que não tenhamos casos daCovid-19 a circular nas comunidades. O que temos feito é testar os casos com sintomatologia e com factores de risco aos quais vamos a encontro.

P :Há indicação de mais de sete mil pessoas que estiveram em quarentena. O que isto significa?

ATEste é o cumulativo desde 22 de Janeiro, quando começámos a fazer o rastreioe a impor a quarentena. Inicialmente era só para pessoas que provenientes de zonas com maior risco de infecção, mas à medida que a pandemia foi-se alastrando pelo mundo, passamos a impor quarentena para todos os que chegavam de qualquer ponto do estrangeiro. Hoje, a quarentena foi alargada aos que tenham estabelecido contacto com um dos casos já registados no país.

P: Os números que vêm sendo avançados pelo Ministério da Saúde (MISAU) são reais? Há sectores que questionam. Será que tem havido transparência? Não haverá aqui sonegação de dados?

AT: A função fundamental do Sistema Nacional de Saúde (SNS) é garantir a protecção da saúde da população. Partindo deste princípio, em teoria, não é equacionável que este serviço possa sonegar números de uma determinada doença. Em outras palavras, os números que temos vindo a fornecer resultam do que encontramos no terreno. Para que os que defendem esta teoria, é importante frisarmos que, para além dos contactos, estamos também a fazer uma busca activa das situações. Já começámos, há um mês, a testar doentes que entram nos principais hospitais com dificuldades respiratórias. Até hoje, não encontramos nenhum paciente com a Covid-19.

P: O quadro nacional sugere uma evolução lenta em relação ao que se verifica noutros países, até africanos. Que explicação tem para este cenário?

AT: Duas possíveis hipóteses. A primeira é que a quantidade de pessoas que tenham infecção com Covid-19 no país seja ainda relativamente baixa, e a explicação para isto seria relacionada com a introdução precoce de medidas de controlo desta doença que o Governo, de forma sábia, fê-lo desde o princípio da epidemia. Mas existe outra explicação. Eventualmente, nós deveremos aumentar a nossa capacidade de testagem para números maiores, e isto podia revelar uma hipótese, a de termos mais casos. Esta é a razão de, exceptuando os fins-de-semana, estarmos progressivamente a aumentar a nossa capacidade de testagem por dia.

P: O senhor ministro defende a realização de testes generalizados? Temos esta capacidade? Há países em África que já estão a avançar nesta frente.

AT: Qualquer que seja o país só poderá adoptar essa estratégia se tiver quantidade suficiente de testes. Em termos de custo-eficácia e em termos de recomendação geral para testagem, é preciso fazer uma abordagem de modo que cada teste seja usado de forma racional. E a forma racional é primeiro identificar um conjunto de critérios que determinem quem é testado e quem não é. E isto não é uma definição de Moçambique. É universal. Em primeiro lugar são testados todos os indivíduos que tenham sintomas. É o que nós fazemos. Em segundo lugar, são testados todos os contactos destes indivíduos que tenham sintomas. Nós também estamos a fazer desta forma. Por outras palavras, o que se faz como recomendações da testagem nós estamos a seguir. Tem um terceiro elemento em termos de testagem. É preciso ver que o número de casos que temos ainda é baixo, mas deveremos ser capazes de intensificar a testagem em função de um eventual aumento. Se utilizarmos todos os testes hoje, o que vai acontecer é que na altura em que tivermos que testar um número maior já não teremos capacidade.

P: …e qual é a nossa capacidade actual?

AT: Vou dizer em termos de evolução onde é que estamos agora. Até finais de Janeiro, havia em África apenas três países que tinham capacidade de testar Covid-19: África do Sul, Senegal e eventualmente o Egipto. Em Fevereiro, Moçambique já tinha capacidade de testar.

P: Houve algum investimento adicional?

AT: Moçambique já tinha equipamento. O investimento adicional foi na aquisição de reagentes. Já tínhamos pessoal qualificado no Instituto Nacional de Saúde (INS), em Marracuene, Começámos com 20 kits de testagem e depois recebemos 20 mil. Tivemos a felicidade de receber mais seis mil. Estão em processo de aquisição outros 100 mil kits de testagem.

P: Quando é que chegam?

AT: O problema de chegada tem a ver com o facto de, tratando-se de uma pandemia, a maior parte dos países querer e num cenário em que a disponibilidade é baixa. Associado a isto, a maior parte dos países estão em lockdown. Maior parte das companhias aéreas já não voa, pelo que mesmo que se tenha a mercadoria em algum ponto a sua vinda a Moçambique está condicionada à disponibilidade dos meios aéreos.

P: Os 100 mil kits são investimento do Governo ou doação?

AT: A aquisição dos 100 mil kits é uma comparticipação do Governo. No nosso orçamento do controlo e luta contra a pandemia, de cerca de 50 milhões de dólares, o Executivo entra com 30 por cento.

P: Não são os 700 milhões de dólares?

AT: Não. Os 700 milhões incluíam a componente de 553 milhões de dólares que deviam ser usados para a construção de hospitais a nível de distritos que tivessem capacidade de dar resposta. Infelizmente, não conseguimos mobilizar esses fundos devido ao contexto global. Agora estamos a falar de cerca de 50 milhões para responder imediatamente em termos de prevenção e tratamento da Covid-19.

P: E esse montante já está disponível?

AT: Estamos ainda a mobilizar. A componente do Governo já está disponível e a dos parceiros vai ficando disponível. Neste momento, o que estamos a fazer com base na parte do Governo e na que já foi disponibilizada pelos parceiros é irmos adiantando os elementos mais prioritários, com destaque para equipamento de protecção individual, particularmente para o pessoal da Saúde.

P: Senhor ministro, o orçamento dos 700 milhões de dólares foi revisto em baixa para 50 milhões ou trata-se de assuntos diferentes?

AT: São orçamentos distintos. Os 700 incluíam a componente de prevenção e tratamento da Covid-19, bem como a melhoria da infraestrutura hospitalar do país, com destaque para 79 hospitais distritais que pudessem responder às necessidades de tratamento da pandemia.

P: Esta capacidade de 100 mil kits o que significa? No pior cenário, de quantos testes o país poderia precisar?

AT: Precisaríamos de cerca de um milhão de testes. Esta é a quantidade aceitável. O que estamos a dizer é que os 100 mil deverão chegar em duas semanas. Eventualmente, se nós conseguíssemos atrasar o pico da epidemia, tal como estamos a fazer até este momento, daria-nos tempo de adquirir os outros 900 mil ainda em falta. Estamos a fazer todos os possíveis de irmos aumentando a capacidade de testagem, mas tendo em conta os custos associados a este processo.

P: O Governo aventa a hipótese de testagem generalizada no país?

AT: Sim, mas não seria possível generalizar. Poderá haver zonas de maior risco e termos que massificar a testagem nelas. Uma testagem generalizada não seria sustentável perante cerca de 30 milhões de habitantes que o país possui.

P: Comparativamente a outros países africanos, Moçambique apresenta um quadro de baixa transmissão local. Como se explica isto?

AT :Explicação científica não vai certamente existir, em parte, porque a Covid-19 é uma doença nova. Eclodiu em Dezembro. Vai completar três meses. Ainda estamos a aprender. Tal como disse anteriormente, isto poderá ser resultado da introdução precoce de medidas restritivas que estarão a atrasar o pico de eclosão de maior número de casos. Achamos que eventualmente existam outras razões que nós como MISAU ainda desconhecemos. Mas há outros países com as mesmas características. O Egipto foi o primeiro país a registar um caso em África, mas neste momento se encontra muito abaixo da África do Sul. O contexto de cada país vai determinar a velocidade de aumento de casos e da progressão de casos e da recuperação dos doentes.

P: Senhor ministro, o paciente número um em Moçambique já está curado? A que tratamento foi submetido? Medicamentos como cloroquina, ibuprofeno são ou não recomendados para o tratamento de sintomas da Covid-19?

AT: O doente curado não é o doente número um. É outro. O que acontece é que os doentes à medida que se curam passam à lista dos recuperados. Esta ligação de primeiro recuperado com o primeiro infectado não tem nada a ver, embora se especule isto. O que esperamos é que todos os doentes em tratamento saiam e entrem na estatística dos curados, uma vez estarem de boa saúde. Parte deles já nem tem sintomas.

Cloroquina no tratamento de doentes graves no país

Uma das grandes inquietações se prende com os medicamentos usados para o tratamento da Covid-19, sendo que ainda não existe uma linha específica, tal como para outras doenças.

Sobre isto, o ministro esclarece que no país os doentes ligeiros até aqui identificados são essencialmente administrados paracetamol. Entretanto, o MISAU já aprovou um protocolo para atender as situações graves, que eventualmente poderão ocorrer. Entre as drogas alistadas consta a azitromicina e a cloroquina, esta última bastante comum entre os moçambicanos, uma vez ter sido usada no combate à malária há algumas décadas. Acompanhe.

P: A que tipo de tratamento são submetidos os doentes da Covid-19?

AT: O tratamento para doentes da Covid-19 é subdividido em duas categorias: para aqueles que têm sintomas ligeiros e os graves. Os que têm sintomas ligeiros, o único tratamento que usamos é o de uma gripe comum. Em geral, recomendamos o uso de paracetamol ou qualquer outro anti-gripe ou analgésico. Esses todos terão usado essencialmente paracetamol. Dois foram ao hospital. Para esses casos, podemos usar o que se recomenda noutros países. Embora não haja consenso quanto ao uso da cloroquina ou azitromicina, o nosso protocolo de tratamento da Covid-19 inclui essas duas drogas.

P: E a envermetina?

AT: Não incluimos. As evidências científicas, a experiência dos outros países e o bom senso indicam que nesses casos graves uma das complicações mais frequentes é a insuficiência renal. Portanto, a utilização de múltiplos medicamentos poderá concorrer para, ao invés de ter benefícios com o tratamento, os doentes sofrerem mais efeitos adversos e como consequência se violar o princípio-mor da medicina, que é antes, de mais nada, não prejudicar.

P: A Covid-19 deixa sequelas nas suas vítimas?

AT: Nas nossas condições, como disse, são doentes que não foram graves. Neste sentido, o que há em termos de sequela há-de ser da literatura ou da experiência dos outros países.

P: Voltando ao ponto sobre a capacidade de testagem e a chegada de mais 100 mil kits de testagem. Qual é, neste momento, o nível de prontidão do país. O que se nota nos países ocidentais é a insuficiência de ventiladores. E entre nós qual é o cenário?

MISAU: Gosto muito da discussão sobre ventiladores. Mas, sobretudo, quando se comparam as condições dos países europeus e africanos. É fundamental entendermos que devemos ter em conta o nosso país real. Quantos médicos eles têm e quantos nós temos. Quantos enfermeiros, qual é a composição e a estrutura do nosso sistema de saúde. É com base nestes aspectos que nós devemos ser capazes de pensar que antes de falarmos de ventiladores devemos, e, sobretudo, garantir que não haja sobrecarga do nosso sistema de saúde. O que vemos na Europa e noutros pontos é que quando a adopção e a implementação de medidas de controlo falham, não há sistema preparado e que resista à Covid-19. Estamos a ver hospitais cheios, estádios, tendas…ou seja, não há sistema de saúde no mundo que esteja preparado para dar vazão a uma situação de aumento rápido no número de casos da pandemia. É por isto que estamos a defender, e vamos continuar assim até às últimas consequências, que a única hipótese que temos é aproveitar o máximo a janela que temos hoje para garantir que todos, desde político, jornalista, pessoal da Saúde, instituições e entidades religiosas e todos nós cumprimos integralmente com as medidas decretadas pelo Governo. Se cumprirmos, vamos diminuir o número de casos possíveis de ocorrer em Moçambique e desta forma protegermos o nosso já frágil sistema de saúde.

P: …indo aos ventiladores…           

AT: Até a altura da eclosão da pandemia, tínhamos ventiladores em apenas cinco hospitais. Nos centrais e até ao nível de provincial de Pemba. Neste momento, aumentamos a capacidade nos hospitais centrais, mas, sobretudo, damos prioridade aos locais preparados para o isolamento de doentes graves. Dentro de uma ou duas semanas, vamos receber cerca de 30 ventiladores novos e vamos distribuir pelos hospitais. No nosso plano estão inscritos cerca de 300 aparelhos.

P: Mas se nota pressão na procura…

AT: Sim. As superpotências estão a comprar quase todos os ventiladores disponíveis no mercado, mas vamos encontrar alternativas. Temos que ser suficientemente diplomatas e fazermos um jogo de cintura para que possamos ter os ventiladores necessários para nós.

P: Qualquer hospital pode receber doentes da Covid-19?

AT: O que fizemos foi criar condições para abordar a Covid-19 como um factor aditivo. Continuaremos a tratar todas as doenças que temos vindo a tratar até hoje. A Covid-19 é apenas uma adição na sobrecarga que já se verifica nas nossas unidades sanitárias. Para evitar que haja ao nível dos hospitais este processo de passar a infecção a outros, a nossa estratégia foi de garantir a existência de centros de isolamento, quer dentro das próprias unidades sanitárias, quer fora delas. E é com esta estratégia que nós achamos que devemos abordar esta pandemia. Inicialmente e até Fevereiro, tínhamos cerca de 300 camas nos nossos centros de isolamento. Hoje, temos cerca de mil e acreditamos que tal como os outros países estaremos em altura de irmos aumentando à medida que a pandemia evoluir. E, aqui, quero parar para prestar a devida vênia a todas as pessoas singulares e instituições que têm canalizado apoio ao MISAU pois, foi com esta ajuda que o sector está agora preparado para uma eventual situação de casos graves no país. São apoios de todos cantos do mundo. Mas o melhor apoio que poderão dar ao MISAU é garantir o cumprimento integral das medidas de prevenção decretadas pelo Presidente da República. Só esse apoio poderá nos poupar daquela calamidade humanitária que observamos noutros países.

“Números são mais do que estatísticas representam dor, luto e sofrimento”

AS medidas de prevenção adoptadas pelo Governo, incluindo a declaração do estado de emergência, visam evitar uma repentina explosão de casos de infecção com o novo coronavírus, o que tornaria impossível uma resposta adequada do Sistema Nacional de Saúde, mesmo associando esforços com o sector privado. Numa entrevista à Televisão de Moçambique (TVM), o Ministro da Saúde destaca a importância de se observar com rigor as medidas recomendadas para reduzir o risco de contaminação, do que vai depender a decisão de agravar ou relaxar as normas actualmente em vigor. Armindo Tiago lembra que “os números que são avançados diariamente não são apenas estatísticas como muitos pensam. São números que representam dor, sofrimento e luto. São vidas que se perdem”. A seguir, transcrevemos a segunda e última parte da entrevista com o Ministro Armindo Tiago:

PERGUNTA (P): Até que ponto, em termos numéricos, o nosso SNS poderá tolerar a pandemia sem colapsar?

MINISTRO DA SAÚDE (MISAU): Vou dar apenas alguns números. O nosso SNS tem cerca de 21 mil camas. Isto significa que se nós cumprirmos integralmente as medidas de prevenção, sairíamos de uma estimativa de cerca de 900 mil casos no país para um número inferior. Quanto mais baixo for o número, melhor será a nossa capacidade de garantir que essas camas possam ser usadas para doentes graves. De forma hipotética, se tivemos no país cerca de 10 mil casos e indo pelo que está escrito nos livros ou o que ocorre noutros países, significa que pelo menos oito mil seriam doentes com sintomas ligeiros. Não precisariam de ir aos hospitais. Ficaríamos com dois mil que iriam aos hospitais. Destes, cinco por cento seria de doentes críticos e precisariam de usar os ventiladores.

P: Mas continuamos a assistir enchentes em lugares públicos… por que será que as pessoas não levam isto a sério?

MISAU:Muito provavelmente haverá diversos factores. Mas eu não iria abordar os factores ou razões pelas quais as pessoas não fazem o que deviam. Iria agradecer àqueles que estão a fazer. As congregações religiosas fizeram uma inovação. Hoje celebram as missas através nos meios de comunicação e informação. O Governo decretou o encerramento das escolas. O que se esperava era que os transportes estivessem menos pressionados, mas isto não se verifica. Decretou-se que as empresas diminuíssem o pessoal que trabalha de forma presencial e que pudessem produzir a partir de casa. A inovação garante-nos que possamos sobreviver. O segredo disto, caros moçambicanos, é ficarmos em casa por que o vírus não anda. São as pessoas que o transportam de um ponto para o outro.Portanto, todos aqueles que preferem estar nas barracas a beber, fazem festas ou outras actividades que facilitam a propagação do vírus, além de estarem a violar as medidas decretadas põem em risco a vida deles próprios e de todos os moçambicanos. É preciso ter consciência de que quando há situações dramáticas temos que tomar medidas à altura do drama, mas sobretudo da catástrofe humanitária que se avizinha.

P: Quando é que se projecta venha ser o pico em Moçambique?

MISAU: Existem diferentes sistemas de modelagem e todos eles têm em conta vários factores. Se nós cumprirmos as medidas decretadas vamos elasticar o pico até por aí Dezembro. E atrasar o pico é, para nós, fundamental porque ia permitir-nos melhorar a capacidade de resposta do nosso SNS. Pelo contrário, o não cumprimento das medidas irá determinar que o pico seja precoce e nessa altura o nosso SNS não estará preparado e aí o que vamos assistir é um desastre humanitário completo.

P: O que mais se teme? É a pressão que possa levar ao colapso do SNS?

MISAU: Não será do SNS a colapsar. Será o Governo e o país no seu todo, razão pela qual se adoptaram estas medidas em coordenação com todos os sectores. Não deve ser o sector da Saúde a temer isto. Deve ser o povo moçambicano. A sociedade deve assumir que as consequências, quando vierem, não serão da responsabilidade da Saúde, nem no Governo. Serão da responsabilidade colectiva. Serão muito más. Modelos de algumas universidades apontam que o pico poderá ser nos meados de Abril, Maio… a nossa convicção é que todos devemos lutar para que o pico seja o mais tardio possível. Esta deve ser a nossa visão, a nossa estratégia conjunta. E só juntos podemos garantir que isto aconteça.

P: O que está a faltar? Estratégia de comunicação ou as pessoas estão insensíveis ao problema?

MISAU: As pessoas sabem o que é Covid-19, como devem se prevenir, mas muito provavelmente exista uma parte da nossa sociedade que pensa que o que estamos a assistir é dos outros. Queria aproveitar este meio e dizer que os números que são avançados diariamente não são apenas estatísticas como muitos pensam. São números que representam dor, sofrimento e luto. São vidas que se perdem. Falamos de países que têm, teoricamente, uma robustez financeira maior que de muitos países africanos, incluindo Moçambique. A dor poderá se instalar no país se nós todos não tomarmos a sério aquilo que está a ser dito. Muitos alegam que as medidas têm prejuízos nas suas famílias. Mas é importante realçar que nas nossas vidas precisamos de tomar decisões em momentos cruciais. Às vezes é preferível sofrermos pelas medidas hoje, na fase em que estão, ao invés de esperarmos uma desgraça total no futuro. E nessa fase já não teremos oportunidade de corrigir o nosso erro. Por isto digo, não reparem o MISAU, nem o Governo. É preciso dizer “eu, você e nós todos” devemos estar e sermos activistas na luta contra o Covid-19.

P: Estamos agora no nível três de prevenção. Que elementos podem levar a Saúde e o Governo a passar para o nível quatro?

MISAU: Tal como disse anteriormente, muitos governos não tomaram medidas atempadamente tal como o nosso fez nas diferentes fases e em muitos casos somos nós os cidadãos que não cumprimos. A passagem de nível 3 para o 4 é crítica porque as medidas são mais dolorosas. A condição determinante será uma evolução rápida da pandemia. Se porventura estivermos a aumentar substancialmente o número de casos e de mortos o Governo não terá outra solução se não passar para as medidas de nível quatro.

P: Mas o que isto significa em termos de números reais? Quais seriam os mínimos necessários?

MISAU: Depende muito da capacidade de resposta. Já dissemos que temos cerca de mil camas nos locais de isolamento. Se ultrapassarmos isto, precisaríamos de poder dar vazão aos doentes que continuariam a chegar. Até ao momento são mil camas, mas dependendo do grau de cumprimento do nosso plano podemos elevar a capacidade para duas mil camas dentro de semanas, pois há um processo de aquisição. Existem umas 500 camas que estamos a prever numa situação de termos que ir para tendas e outros meios. O número real hoje é de mil, mas amanhã poderemos ter uma capacidade totalmente diferente. Pelo contrário, se formos capazes de cumprir integralmente com as medidas do nível três pode ocorrer o alívio. O não cumprimento é que nos levará ao quarto. Mas a experiência dos outros países indica que as medidas de nível 4 são de difícil cumprimento. São daquelas que as pessoas devem optar entre uma ou outra coisa das suas vidas.

P: Pelo actual cenário, estamos mais para o nível 4 ou a voltar para o 2?

MISAU: Se o cenário continuar e nos próximos dois meses não chegarmos a 500 casos, por exemplo, e se formos capazes de ter uma tendência como a actual, de ficar 3 ou 4 dias sem casos novos e se isto for associado a um aumento na escala de testagem, poderemos dizer que vamos permanecer por mais tempo nas medidas de nível 3. Se a tendência foi decrescente podemos voltar ao nível dois.

R: Mas a Covid-19 revela uma tendência traiçoeira. Começa com um gráfico de aparente estabilização e depois dispara.

MISAU: Em todos os países foi assim. Embora em África apenas na África do Sul não tenha sido. Noutros países o aumento exponencial dos casos foi em dois meses e em África há já países que estão a esse tempo mas que continuam com um número reduzido de casos. Devemos continuar a rezar para nos mantermos nesta tendência. Mas tem um senão, na maior parte dos países africanos as temperaturas vão começar a baixar e como consequência vão aumentar os síndromes gripais que já tínhamos e as pessoas vão pensar que têm Covid-19 e isto vai sobrecarregar os sistemas de saúde e a testagem.

P: Que estratégias para evitar isto?

MISAU: Em princípio temos a linha verde, tendo em conta que a maior parte dos sintomas serão ligeiros. Estamos também a pensar em contratar os estudantes dos últimos anos de Medicina, treiná-los para fazerem a triagem de casos via telefone e apurar o grau de gravidade, o que nos permitirá ir ao encontro dos menos graves e realizar testes em casa e proteger o sistema de eventuais enchentes. De todas as formas, estamos a criar condições para que nas unidades sanitárias tenhamos uma “tenda da gripe”, onde se faz a triagem dos casos para evitar que se misturem com outros doentes. Em termos de enfermagem, não teremos problemas. Há muita gente formada nos últimos anos e que não foi contratada. Cada um dos centros de isolamento vai funcionar em três turnos com 15 pessoas cada. Prevemos problemas para médicos. Vamos mobilizar tudo que tivermos no país. Tentamos pedir ajuda à China através da Embaixada, tendo em conta a experiência deles, mas soubemos que não podem deslocar-se por ter casos por controlar ainda. Temos muitos médicos cubanos que estão no quadro da cooperação. Se houver mais necessidade vamos mobilizar a nível diplomático. O problema é que a maioria dos países está também pressionada pelo mesmo problema.

Garantido tratamento para doentes graves

OS infectados até aqui identificados no país têm sido tratados nas próprias residências, sob isolamento dos demais membros. Entretanto, caso haja algum doente grave o país tem já criadas as condições de internamento em locais adequados. Na cidade de Maputo, por exemplo, o maior centro de isolamento está no Hospital Geral da Polana-Caniço. São cerca de mil as camas disponíveis em diversas repartições montadas um pouco por todo o país, com destaque para as capitais provinciais.

P: Quem precisa de ser internado e quem pode ficar em isolamento domiciliário?  

MISAU: O isolamento domiciliário é recomendado para todos os suspeitos ou diagnosticados com a doença e que tenham sintomas ligeiros ou nenhuns ainda. O internamento é para os 20 por cento de casos graves. Destes, 15 por cento terão sintomas não críticos. Nos cinco por cento de doentes críticos a mortalidade é muita elevada, cerca de 80 a 90 por cento, enquanto nos outros 15 a mortalidade é na ordem de 40 por cento.

P: Se tivemos agora um cenário de um doente grave em alguma província onde é que seria encaminhado?

MISAU: Se esse doente estiver na cidade de Maputo existem seis opções. Pode ir no nosso sistema público. O maior centro de isolamento e do Hospital Geral da Polana-Caniço, com 100 camas, que já pode receber doentes a qualquer altura. No HCM temos a Enfermaria de Oftalmologia, em fase final de arranjos. Estamos agora a colocar os gases para montar os respiradores. Tem capacidade para cerca de 20 a 30 camas, podendo aumentar consoante as necessidades. Mas se esses dois centros estivem lotados vamos montar, ainda em local por definir, uma tenda oferecida por um parceiro com capacidade para 250 camas. Ou seja, se hoje existisse algum doente na cidade a resposta estaria lá. Nas outras províncias idem. A única diferença é que as províncias terão uma capacidade reduzida de camas. É óbvio e lógico, mas temos esta capacidade de receber os doentes graves da Covid-19 em qualquer parte do país, principalmente nas capitais provinciais e serão tratados de acordo com as normas já aprovadas.

P: Um dos grandes debates é sobre o período de quarentena. O que fazer e não fazer nesse momento?

MISAU: A quarentena é um período em que o indivíduo suspeito ou que tenha tido contacto com um infectado fica no seu domicílio. E aqui não há discussão. É para ficar em casa. Já tivemos cerca de sete mil casos cumulativos. Em algum momento podem ter sido apenas 100 ou 200, mas ao todo já contabilizámos cerca de sete mil cidadãos que ficaram em quarentena. As autoridades da Saúde estão a fazer a sua parte, mas muito provavelmente os outros não estejam e nós não podemos assumir a responsabilidade dos outros.

P: Quanto tempo o novo coronavírus vive numa superfície ou no ar? É possível alguém infectar-se na água das piscinas, do mar?

MISAU:... hoje há cada vez mais evidências de que o vírus pode ficar no ar por algum tempo. As gotículas lançadas na fala, tosse ou espirro ficam no ar, mas depois caem pelo chão. É por isto que é fundamental que nas entradas dos edifícios haja um líquido para desinfectar os sapatos. Pisamos superfícies contaminadas e levamos o vírus para as nossas casas. Quanto ao tempo que o vírus leva vivo numa superfície os dados são ainda de uma aprendizagem. Depende das superfícies. No ar parece que o tempo máximo é de três horas. Mas em superfícies não porosas, como vidro, telemóvel, garrafas de plástico, pode ir até quatro dias. Noutras superfícies e quando a temperatura é baixa fica mais do que quando é alta. Na roupa fica menos tempo, razão pela qual na etiqueta da tosse fale-se que devemos tossir na zona do cotovelo do braço. O vírus, sendo um microrganismo intracelular obrigatório, e revestido por uma camada de película fina de gordura, que é rapidamente absorvida pelo tecido da roupa, matando-o.

P: As encomendas expedidas de países afectados podem chegar ainda contaminadas? Que cuidados se deve observar? 

MISAU: De acordo com a explicação que dei quando falávamos da duração do vírus nas superfícies, percebe-se que se as encomendas que estiverem em material poroso, como o papel, o vírus só vai sobreviver 24 horas. Pelo que, teoricamente, a encomenda manipulada por alguém que tem as mãos contaminadas pode transmitir Covid-19, mas vai depender muito da distância de proveniência. A sair da China, por exemplo, e olhando para as horas da viagem, o risco fica mínimo, mas se for um voo curto poderá estar no local.

P: E a pessoa pode se infectar diversas vezes?

MISAU: Pode sim. Mas o que acontece com a maioria das infecções virais é a pessoa depois desenvolver uma certa imunidade e subsequentemente a infecção que tiver for leve. Mas é preciso ter em conta que a infecção a qual me refiro vai depender dos co-factores e co-morbilidades que o indivíduo possa ter. Isto é, um doente de idade avançada, com outras doenças, com o sistema imune fraco, pode ter uma segunda infecção tão grave quanto a primeira.

P: A gestante pode transmitir o Covid-19 para o feto?

MISAU: Os estudos actuais apontam que é possível. Mas como é uma doença ainda com pouco tempo ainda não há evidências de quais são as consequências para o feto.

P: Diz-se agora que o Covid-19 é uma pandemia. O que é que isto significa? O que significa pandemia, epidemia, surto…?

MISAU: Surto é a ocorrência de uma doença a uma velocidade não esperada, mas confinada numa zona determinada, como localidade ou região qualquer. Em termos quantitativos quando o surto sai e afecta outras zonas ou Estados passa a epidemia. Mas quando há já uma propagação generalizada de Estados e continentes significa que já evolui para pandemia.

P: Existe algum remédio caseiro, plantas ou suplementos em redor que podem ser usados para a cura do Covid-19?

MISAU: Esta pergunta não posso responder porque não tenho formação na área de botânica. Entretanto, tem algumas questões de bom senso. Tive conversas com dois médicos chineses e me disseram o seguinte, que a medicina vem da natureza. Quase todos os medicamentos que hoje usamos são de uma doutra forma sintetizados a partir de plantas. E esse conhecimento milenar é bem documentado na China. O que me disseram e com fisiopatologia viral, acredito é que com o bafo, provavelmente de eucalipto, ou não, há de ser um mecanismo que poderá eventualmente diminuir a concentração do vírus nas nossas fossas nasais. Vou explicar isto. O que existe em termos de biologia viral é que ele é termo sensível que a uma certa temperatura vai morrer. Também está descrito que o vírus antes de causar doença a nível das vias respiratórias superiores ou inferiores ele permanece algum tempo nas fossas nasais. Fazer bafo a uma temperatura que pode chegar acima de 60 graus muito provavelmente possa matar as formas virais que se encontrem nas cavidades da nossa face e por ventura possa diminuir a quantidade de vírus que entraria no nosso organismo. Em todos esses micro-organismos há o que se chama de dose infectante. Se diminuirmos a quantidade de vírus em teoria podíamos também estar a baixar a possibilidade de desenvolvimento de alguma doença grave.

P: Animais de estimação podem transmitir?

MISAU: Sim. Qualquer um deles pode transmitir. É por isto que não se recomenda que um indivíduo infectado continue junto dos seus animais de estimação que depois passariam por outras pessoas. Seriam veículos de transmissão indirecta.

P: Que considerações finais, neste cenário de estado de emergência?

R: Que cada um de nós cumpra e faça cumprir as medidas decretadas. Se for de forma conjunta não passaremos para a fase 4 e nem veremos com tristeza o drama que se assiste noutros países. Enquanto longe achamos que estamos imunes, mas quando já estiver aqui será tarde para nos prevenirmos da situação. Portanto, todos juntos podemos mudar o cenário e garantir um futuro risonho para nós todos.

*Cortesia da Televisão de Moçambique (TVM)

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