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Director: Júlio Manjate

No final da década de 80, o cruzador americano Vincennes lançou dois mísseis contra o avião comercial da Iran Air, matando 290 pessoas, entre elas 66 crianças.

Dias antes da queda do avião ucraniano que matou 176 pessoas no Irão, uma troca de farpas via twitter entre os presidentes norte-americano e iraniano trouxeà tona um episódio pouco lembrado nos Estados Unidos, mas ainda vivo na memória do Irão: o ataque ao voo comercial 655 da companhia aérea Iran Air, derrubado em 1988 por um míssil disparado por um navio da marinha americana.

No último fim-de-semana, Donald Trump ameaçou via twitter destruir 52 alvos no Irão, em referência aos 52 americanos feitos reféns após a tomada da embaixada dos Estados Unidos em Teerãoem 1979.

O Presidente iraniano, Hassan Rouhani, respondeu com outro número de significado histórico: 290.

“Aqueles que se referem ao número 52 deveriam também se lembrar do número 290. Nunca ameace a nação iraniana”, postou Rouhani na sua conta no twitter, na segunda-feira da semana passada.

Rouhani referia-se ao número de vítimas do episódio com o Iran Air 655.

As declarações de Trump e Rouhani ocorreram após os Estados Unidos matarem o general iraniano Qasem Soleimani, na semana passada, num ataque em Bagdad, no Iraque. Soleimani era considerado o segundo homem mais importante do país, atrás apenas do líder supremo do Irão, o aiatollahKhamenei.

Dois dias depois, a tensão diplomática entre os países acabaria por envolver a queda de outro avião. Na quarta-feira, o voo PS752 da companhia Ukraine International Airlines caiu pouco depois de descolar de Teerãocom destino a Kiev (Ucrânia).

No último sábado, o Governo iraniano admitiu que derrubou por engano o avião ucraniano.

Uma investigação interna identificou que “mísseis foram disparados por falha humana”, afirmou o Presidente Hassan Rouhani. Ele descreveu a tragédia como um “erro imperdoável”.

Os militares disseram que o avião voava muito perto de um lugar sensível que pertence à Guarda Revolucionária do Irãoe foi considerado, por engano, uma aeronave hostil.

A tragédia do voo 655, em 3 de Julho de 1988, aconteceu nos meses finais da guerra entreoIrãoe Iraque, na qual os Estados Unidos apoiavam os iraquianos e seu líder, Saddam Hussein.

No meio do conflito, o Governo iraniano parava embarcações no Golfo Pérsico que suspeitava estarem a fazer negócios com o Iraque e navios de guerra americanos patrulhavam o Estreito de Ormuz, com o objectivo de proteger rotas marítimas importantes no comércio de petróleo.

Naquela manhã, segundo um relatório do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, um helicóptero lançado pelo cruzador americano USS Vincennes numa missão de reconhecimento havia sido atingido por disparos vindos de pequenas embarcações iranianas.

Enquanto esse conflito entre embarcações dos Estados Unidos e do Irãose desenrolava no Golfo Pérsico, o Airbus A300 da Iran Air descolava de um aeroporto próximo, na cidade iraniana de Bandar Abbas, uma escala na rota entre a capital Teerãoe o destino final, Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Estavam a bordo 16 tripulantes e 274 passageiros, entre eles 66 crianças.

O aeroporto de Bandar Abbas era usado tanto por aeronaves civis, quanto por militares e, segundo o Governo americano, quando o jacto comercial foi detectado pelo radar do Vincennes, membros da tripulação confundiram o avião de passageiros com um caça militar iraniano.

O voo da Iran Air estava em águas territoriais iranianas e seguia a sua rota normal, mas havia descolado com mais de 20 minutos de atraso. O Governo americanodisse que, pensando se tratar de um caça em procedimento de ataque, o Vincennes enviou uma série de advertências à aeronave.

Sem obter resposta, disparou dois mísseis, derrubando o avião e matando todas as 290 pessoas a bordo. Entre as vítimas, 254 eram cidadãos iranianos.

Reacção de Ronald Reagan

NO dia seguinte, oentão presidente americano, Ronald Reagan, que estava em Camp David para o feriado de 4 de Julho, dia da Independência dos Estados Unidos, ofereceu “condolências aos passageiros, à tripulação e às suas famílias”.

“Esta é uma tragédia humana terrível”, disse Reagan em declaração à Imprensa. Mas opresidente norte-americano afirmou também que o avião ia em direcção ao Vincennes e não respondeu a “repetidas advertências”. Segundo Reagan, a embarcação americana havia agido “para se proteger de um possível ataque”.

A conclusão do Departamento de Defesa, em relatório divulgado em 18 de Agosto daquele ano, foi a de que não houve conduta negligente por parte dos americanos e que o Irãodeveria “dividir a responsabilidade pela tragédia”, por ter permitido que um jacto comercial voasse sobre a área em que se desenrolava o conflito entre embarcações dos dois países.

Mas poucos meses depois, em Dezembro, a Organização da Aviação Civil Internacional (OACI), agência das Nações Unidas especializada em transporte aéreo, divulgou o seu próprio relatório, em que identificou “precauções vagas e inadequadas”da Marinha dos Estados Unidos para evitar que as aeronaves civis se aproximassem de operações de combate no Golfo Pérsico, que contribuíram para a tragédia.

Um dos pontos ressaltados pela OACI foi a falta de equipamentos adequados nos navios norte-americanos para monitorar as frequências de rádio usadas pelo controlo de tráfego aéreo civil, o que teria permitido a identificação do avião de passageiros. As advertências feitas pelo Vincennes antes de disparar os mísseis foram transmitidas em canais de emergência, a maioria delas num canal militar, ao qual os pilotos do voo 655 não tinham acesso.

Apesar de os Estados Unidos garantirem que a derrubada do voo 655 foi um acidente, o Irão não aceitou a explicação e acusou os americanos de terem agido deliberadamente e ilegalmente enquanto estavam em águas iranianas.

Os Estados Unidos haviam rompido relações diplomáticas com o Irãoem 1980, após a tomada da embaixada dos Estados Unidos em Teerãoem 1979 por manifestantes iranianos, que mantiveram 52 americanos como reféns durante 444 dias.

 “O Irãonão acreditou que foi um erro”, disseà BBC News Brasil o historiador Abbas Milani, director do programa de Estudos Iranianos da Universidade Stanford, na Califórnia.

No ano seguinte à tragédia, em Maio de 1989, o Irãoprocessou os Estados Unidosno Tribunal Internacional de Justiça da ONU. Os dois países chegaram a um acordo em 1996. Os Estados Unidos concordaram em pagar  61,8 milhõesde dólares às famílias das vítimas iranianas, mas nunca admitiram responsabilidade nem se desculparam formalmente. Apesar de sua actuação natragédia, os comandantes do Vincennes na época do ataque foram agraciados com medalhas em 1990.

“Tudo isso tornou (oderrubedo voo 655) um momento muito simbólico na história”, ressaltou Milani.

Nova etapa nas relações já tensas

O ATAQUE aéreo norte-americano que matou o general iraniano Qassem Soleimani nasemana passada veio inaugurar uma nova etapa nas relações tensas entre Teerão e Washington. Apesar de algumas tentativas de aproximação, a interacção entre Estados Unidos e Irão tem sido complicada ao longo das últimas décadas e o discurso entre os dois países é ainda hoje marcado por ecos históricos persistentes que remontam até a eventos prévios à Revolução Islâmica de 1979. Olhamos para os principais momentos de um imbróglio diplomático que por estes dias se voltou a intensificar.

Último dia do ano de 1977. A poucas horas do início do novo ano, Jimmy Carter jantava em Teerão com o Xá Reza Pahlavi, monarca que liderava o Irão desde 1941. O Presidente norte-americano elogiava, nessa ocasião, as qualidades de uma liderança iraniana que apoiara de forma mais ou menos indirecta ao longo de vários anos.

“O nosso diálogo tem sido inestimável, a nossa amizade é insubstituível. (...) O Irão, devido à grande liderança do Xá, é uma ilha de estabilidade numa das áreas mais problemáticas do mundo”, afirmava então  o Carter. Mal sabia na altura que, menos de três anos volvidos, o Irão tornar-se-ia numa das maiores dores de cabeça para os Estados Unidos, não só na recta final da sua presidência, mas também durante as décadas seguintes e até à actualidade.

Os eventos recentes, nomeadamente a morte do general iraniano Qassem Suleimani por um drone norte-americano no Iraque, que levou o Presidente Hassan Rouhani a prometer uma “vingança severa”contra os Estados Unidos e a promessa de Donad Trump de responder à qualquer retaliação de Teerão, mostram que as ressonâncias históricas entre os dois países são múltiplas e que nenhum dos actores está disposto a esquecer as marcas do passado.

Do golpe de 1953 à revolução Islâmica

COMO demonstra a proximidade entre Jimmy Carter e Reza Pahlavi, a relação de inimizade entre os dois países só se manifesta ao mais alto nível depois da Revolução Islâmica de 1979. Mas as raízes do ódio para com os norte-americanos remontam a eventos anteriores.

O regime repressivo liderado por Mohammad Reza Pahlavi entre 1941 e 1979 - com o apoio da violenta Polícia política, a SAVAK - contava com uma proximidade económica e cultural muito significativa para com os Estados Unidos e o Ocidente, desde logo na ajuda concedida ao último Xá para que este se mantivesse no poder.

Este auxílio se fez sentir sobretudo no início dos anos 50 do século XX com uma ingerência norte-americana que os iranianos nunca viriam a esquecer. Em 1951, num acto de afirmação nacional, Teerão nacionalizara a indústria do petróleo, incluindo a Anglo-Iranian Oil Company, até ali nas mãos das autoridades britânicas.

Na altura estava no poder o primeiro-ministro Mohammed Mossadegh, o primeiro líder democraticamente eleito que procurava uma maior aproximação do Irão aos padrões de vida ocidentais. Em Agosto de 1953 é levada a cabo a Operação Ajax, sob a coordenação das autoridades britânicas e da CIA, com o consentimento de Reza Pahlavi, que se manteria no poder até à Revolução de 1979.

O golpe orquestrado pelos Estados Unidos teve como pretexto a alegada aproximação de Mossadegh à União Soviética, ainda no contexto da Guerra Fria, bem como a ascensão do Tudeh, o partido comunista no Irão, tendo também em conta a importância de manter um aliado com uma posição estratégica no Médio Oriente, às portas de Moscovo.

Por isso mesmo, Reza Pahlavi seria protegido e veria o seu poder reforçado pelo apoio norte-americano até ao final da monarquia Xá no Irão, em 1979. De tal forma que em 1957 Teerão e Washington vão assinar um acordo de cooperação nuclear para fins civis, com os Estados Unidos a assegurarem ao então aliado à assistência técnica necessária para iniciar o enriquecimento de urânio que décadas mais tarde viriam a tentar conter.

Dez anos depois, em 1967, os Estados Unidos estabelecem um acordo com o Irão para a concessão de plutónio e de urânio a um nível de enriquecimento suficiente para fabricar armas nucleares. Mas no ano seguinte Teerão assina o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), que permite aos seus signatários a manutenção e um programa nuclear com fins civis, exigindo, no entanto, aos países o compromisso de que não tentassem alcançar armas nucleares. Em paralelo, o Irão continua a negociar com os Estados Unidos e aliados à construção de novos reactores e um poderio nuclear cada vez maior.

É neste contexto que se dá um dos eventos mais marcantes para o Médio Oriente no século XX. A repressão e a mão pesada do Xá começam a ser contestadas nas ruas logo nos primeiros meses de 1978 e culmina com a resignação de Reza Pahlavi, no início de 1979.

Quando, em Janeiro, o último Xá do Irão abandona o país, abre-se o espaço para o novo regime e para o regresso do exílio daquele que viria a ser o primeiro ayatollah, Ruhollah Khomeini.

Reféns norte-americanos em Teerão

NESTA fase, a aversão dos iranianos revolucionários contra os Estados Unidos que já vinha do golpe de 1953 cresceu ainda mais quando, no final de Outubro de 1979, o Presidente norte-americano Jimmy Carter deu aval à entrada de Reza Pahlavi nos Estados Unidos, uma vez que o antigo Xá tinha um cancro e necessitava de tratamentos médicos específicos.

Como medida de retaliação, a 4 de Novembro de 1979, um grupo de 300 a 400 estudantes que apoiava a revolução em cursoatacou e ocupou de forma repentina a representação norte-americana em Teerão, fazendo reféns entre os ocupantes.

Para os libertar, os atacantes exigiam aos Estados Unidos a extradição imediata de Pahlavi, permitindo que fosse julgado em Teerão. Inicialmente, mais de 60 norte-americanos estavam nas mãos dos revolucionários, apoiantes de Khomeini. Alguns seriam libertados, mas 52 ficaram cativos por mais 444 dias. Os 52 a que Trump se refere.

A ocupação da Embaixada veio dar fulgor ao impulso rebelde que tinha esmorecido após o início de 1979 e confirmou o lugar central do ayatollah no novo regime, que se radicalizou com este episódio de confronto.

Ao fim de longos meses de negociações e embargos, o Presidente norte-americano Jimmy Carter decide cortar as relações diplomáticas entre os dois países em Abril de 1980, situação que se mantém até hoje.

Terra Brasil e Andreia Martins - RTP

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