Director: Júlio Manjate

Os líderes dosgrupos que combatem pelo poder na Líbia aceitaram pôr em prática um cessar-fogo,segundoanunciou, domingo, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, após uma cimeira internacional que juntou vários líderes e dirigentes mundiais.

Enquanto a diplomacia avançava, no terreno, um dos protagonistas do conflito, o General Khalifa Haftar, mantinha a produção petrolífera dos principais complexos e portos paralisada no leste do país.

O fim dos combates era o objectivo primordial do encontro que decorreu em Berlim, que também tinha a ambição de lançar as bases para um retorno àvia diplomática. “Não há solução militar para o conflito”, declarou Guterres durante a conferência de imprensa em que foram reveladas as conclusões da cimeira, mostrando-se “muito preocupado” com o encerramento dos portos e poços petrolíferos do lesteda Líbia.

A ofensiva lançada por Haftar e pelas tribos suas aliadas começou semana finda e visou os principais terminais petrolíferos, forçando a Companhia Nacional de Petróleo a encerrar a produção. Foi bloqueado o oleoduto que liga os principais campos de petróleo ao Porto de Zawiya e, antes disso, portos e campos no leste já tinham sido encerrados. Trata-se de um forte golpe desferido ao Governo de Tripoli, reconhecido pelas Nações Unidas, que tem na exportação de barris de petróleo a mais importante fonte de rendimento.

Haftar justificou a acção como uma retaliação pelo envio de soldados turcos para apoiar o Governo rival e não foi dado qualquer prazo para que os bloqueios terminem.

Apesar da pressão internacional, a desconfiança entre os dois intervenientes da guerra - o chefe do Governo reconhecido pela ONU, Fayez al-Sarraj, e o General Khalifa Haftar, que controla o leste do país - mantém-se elevada. Embora ambos se tenham deslocado a Berlim, não se encontraram pessoalmente, disse a chanceler alemã, Angela Merkel. Ninguém se quis alongar sobre as perspectivas reais de o cessar-fogo vir a ser bem-sucedido.

Vão ser organizadas duas comissões de cinco elementos militares da cada um dos lados do conflito para supervisionar o cumprimento do cessar-fogo. O Primeiro-Ministro italiano, Giuseppe Conte, que apoia o Governo de Tripoli, mostrou disponibilidade para estar “na linha da frente” das operações de monitorização do cessar-fogo. Os líderes internacionais também reforçaram a necessidade de se respeitar o embargo de venda de armamento à Líbia aprovado pela ONU.

Encontro entre Putin e Erdogan

A BERLIM acorreram líderes mundiais de algumas das principais potências com interesses na Líbia - entre os quais o Presidente russo, Vladimir Putin;o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan;o Presidente francês, Emmanuel Macron;o Primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte;e o Primeiro-ministro britânico, Boris Johnson.

No arranque do encontro, Erdogan reuniu-se com Putin e criticou a “postura agressiva” de Haftar. É por estes dois homens que passa muito do que estáem jogo na Líbia - Moscovo e Ancara subiram a parada enviando recentemente apoio militar às facções que apoiam. Macron, por sua vez, insurgiu-se contra a intervenção militar externa na Líbia, mostrando “preocupação aguda com a chegada de combatentes sírios e estrangeiros à cidade de Tripoli”, referindo-se ao apoio turco.

A guerra civil agravou-se desde que em Abril do ano passado as forças de Haftar, com apoio de mercenários russos, lançaram uma ofensiva sobre Tripoli, onde estásediado o Governo de Unidade Nacional, reconhecido pela ONU. Os combates mataram mais de 200 civis e dois mil soldados e desalojaram mais de cem mil pessoas.

Em cima da mesa estátambém a possibilidade de ser enviada uma força europeia para monitorar o cessar-fogo. A proposta foi comunicada pelo chefe da diplomacia da UE, Josep Borrell, numa entrevista à revista “Der Spiegel”. Uma ideia semelhante foi acolhida por Boris Johnson.

“Se houver um cessar-fogo, sim, claro que há uma razão para fazermos aquilo que fazemos muito bem, que é enviar especialistas para supervisionar o cessar-fogo”, afirmou o Primeiro-ministro britânico.

Alinhamento estrangeiro

A PAIRAR sobre o encontro estava a tentativa falhada de se chegar a um acordo de cessar-fogo há uma semana em Moscovo - uma iniciativa da Rússia e da Turquia. Receando perder a vantagem militar obtida nos últimos meses, Haftar abandonou a reunião sem assinar qualquer documento.

As potências presentes em Berlim dividem-se nos apoios às duas forças em combate na Líbia. Haftar é apoiado pela Rússia, Egipto e Emirados Árabes Unidos (EAU) e conta com apoio discreto daFrança. O Governo de Fayez al-Sarraj tem na Turquia o seu principal parceiro externo, além do reconhecimento pela ONU.

Uma das missões da cimeira de Berlim era também superar as divergências entre os aliados e estrangeiros. “O problema é que os Estados ocidentais não estão preparados para pressionar os apoiantes estrangeiros de Haftar, particularmente os EAU;portanto,as promessas que os intervenientes estrangeiros fizeram em Berlim soarão ocas”, diz a Al-Jazeera o analista Wolfram Lacher.

Desde o derrube do líder Muammar Khadafi, em 2011, que a Líbia estáprivada de um Governo central estável. O vazio de poder foi aproveitado por vários grupos e tribos, que desde então estão embrenhados numa guerra civil. Actualmente, dois governos rivais reivindicam o poder, mas nenhum parece dispor de uma vantagem militar sobre o outro.

Solução para evitar a guerra total

O IMPACTO do acordo alcançado em Berlim e a implementação do cessar-fogo dependerá em grande parte da vontade dos líderes líbios em confronto que não se sentaram à mesa das negociações patrocinadas pela ONU.

“Todos os participantes se comprometeram a não fornecer apoio militar ou armas e a respeitar o embargo de armas e as tréguas”, declarou a chanceler alemã Angela Merkel, segundo o “El País”, na conferência de imprensa no final do encontro.

“Todos os participantes se comprometeram a renunciar à interferência no conflito armado e nos assuntos internos da Líbia”, disse também o Secretário-Geral da ONU, António Guterres. “Havia um risco real de escalada regional e isso foi evitado (…) em Berlim”, acrescentou.

Os principais representantes do conflito, Fayez Sarraj, chefe do Governo, e o homem forte da Líbia, Khalifa Haftar, não participaram na conferência, mas viajaram para Berlim, onde se encontraram com Merkel.

“As diferenças são tão grandes que não houve um encontro entre os dois. Fisicamente estiveram em Berlim,mas não na mesma sala”, acrescentou a chanceler. Além deles, estiveram presentes Vladimir Putin (Rússia), Recep Tayyip Erdogan (Turquia), Boris Johnson (Reino Unido), Emmanuel Macron (França), Giuseppe Conte (Itália), Ursula von der Leyen e Josep Borrell (União Europeia), Mike Pompeo (Estados Unidos), Ghassan Salamé (ONU), Abdel Fattah al-Sisi (Egipto), Dennis Sassou Nguesso (Congo-Brazzaville), Mussa Mahamat (União Africana),Merkel, como anfitriã de uma cúpula realizada na sede do Governo alemão sob fortes medidas de segurança.

A presença de figuras da primeira linha da política mundial mostra a gravidade da situação e a urgência de um acordo de paz para evitar a onda expansiva de um conflito capaz de saltar para além das suas fronteiras.

“Se não controlarmos a situação, toda a região poderá ser desestabilizada”, avisou àimprensa Josep Borrell, Alto Representante da UE para a Política Externa.

“Este não é um evento isolado, este é o início de um processo”, acrescentou, aludindo ao que espera que faça a diferença entre a conferência de Berlim e os eventos anteriores.

(Jornal o Público e El País)

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