Director: Lázaro Manhiça

A crise de água com que se debatia a população de Nacala, em Nampula, está já ultrapassada, na sequência dos investimentos realizados pelo Governo, que resultaram no aumento da capacidade de produção e consequentemente aumento das horas de distribuição, entre outras intervenções de impacto para a vida dos munícipes.

As restrições verificadas no passado chegaram a criar fúria no seio dos clientes, que se viram obrigados a suspender contractos com o Fundo de Investimento e Património do Abastecimento de Água (FIPAG).

O director desta empresa, Área Operacional de Nacala, José Chiúre, faz, em entrevista ao “Notícias”, uma avaliação do trabalho feito, não obstante os desafios que agora se colocam, nomeadamente a gestão das vandalizações, ligações clandestinas e os efeitos do crónico problema da erosão.

Notícias (NOT) – O que tem a partilhar connosco sobre o abastecimento de água na cidade de Nacala-Porto?

José Chiúre (JC)– Antes de o projecto do Centro Distribuidor do Faíta funcionar, com uma capacidade de produção de 16 mil metros cúbicos por dia, não era possível abranger todos os clientes e havia bairros que só recebiam águauma vez por semana. Outras zonas só eram abastecidas duas a três vezes por semana, mas com o novo sistema estamos a produzir em média diária30 mil metros cúbicos de água e isso fez com que aumentassem as horas de distribuição de 12 para 18 horas diárias.

Continuamos a abastecer água de duas a três vezes por semana nos bairros de Mocone, Naherenque, Nauaia e Ribáuè, mas é um desafio que vamos ultrapassar em breve pois estamos a trabalhar para o efeito. No passado tínhamos uma rede de 200 quilómetros e passámos para 350 quilómetros. Não é o suficiente, pois ainda temos bairros que não são cobertos pela rede e precisamos de um investimento adicional para ultrapassar. A taxa de cobertura era de 24 por cento em todo o distrito, onde se estimava que só 66 mil cidadãos é que usavam a água potável canalizada,dos cerca de 225 mil. Actualmente subimos para 35 por cento, correspondentes a 80 mil habitantes, em apenas 2 meses,mercê da entrada em funcionamento do novo sistema de abastecimento de água. Podemos afirmar que a crise está ultrapassada, a avaliar pelo que acontece ao nível dos bairros.

NOT –A imagem do FIPAG no seio dos munícipes melhorou?

JC – Há um adágio popular que diz: “onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão”. Reconhecemos que havia crise e que mesmo para nós era difícil fazer a gestão da distribuição da água numa situação em que o próprio líquido era escasso e a nossa capacidade limitava-se em oferecer água entre duas a três vezes por semana. É legítimo que haja discussões em relação à nossa instituição. Perdemos clientes, e com razão. Veja que quando iniciámos o ensaio do novo sistema recuperámos mais de 600 consumidores.

NOT –Os fornecedores privados contribuem para essa melhoria?

JC – Os fornecedores privados existem e sempre existirão e nunca influenciaram negativamente a relação que temos com os nossos clientes. Os privados ajudam a completar a missão do FIPAG. Onde não conseguimos chegar os privados entram e complementam o nosso trabalho, pois existe uma lei que abre espaço para a gestão de sistemas por agentes privados. Existe concorrência, mas é mesmo para assegurar o abastecimento de água onde nós não conseguimos servir. Eles fazem a parte deles, embora exista uma tendência de reduzir o abastecimento de água com recurso a camiões-cisterna, porque todos os bairros estão a receber a nossa água.

NOT –Sendo Nacala uma zona industrial, há algum tratamento especial a este sector?

JC – Os industriais sentem-se aliviados, pois do contacto que temos vindo a desenvolver junto dos gestores das unidades do sector temos a certeza de que não há problemas. Definimos os industriais como prioridade nas nossas operações, porque são eles que catapultam o desenvolvimento da Zona Económica Especial de Nacala, da província, em particular, e do país, em geral.

NOT – Como estão as receitas?

JC – A nossa facturação era, naturalmente, baixa. Só de imaginar que produzíamos 16 mil metros cúbicos e agora que aumentámos a capacidade para 30 mil metros cúbicos o consumo também aumentou ao nível dos cidadãos, pois alguns clientes entram em discussão para reclamar a subida das facturas mensais. Mensalmente conseguíamos arrecadar entre seis e sete milhões de meticais mas já estamos a caminhar para nove milhões de meticais. Não estamos felizes porque não cobre os custos de produção por causa do investimento aplicado, por isso precisamos encontrar uma fórmula para encaixar as receitas, num exercício matemático que consigamos cobrir os custos. Estamos a lutar para aumentar as ligações para responder a esse investimento, sob o risco de termos um monstro de investimento sem ser explorado. Estamos a desenvolver campanhas de angariação de novos clientes que vão permitir equilibrar enquanto o Governo já fez a sua parte. O projecto foi desenhado, orçado, concretizado e está lá a funcionar. O desafio é da área operacional, que tem de ligar o sistema aos clientes.

NOT – Mas há queixas sobre alegadas injustiças na facturação...

JC – Para o caso de Nacala temos duas situações. A primeira está relacionada com os clientes que estão a reactivar os seus contratos e já o sistema apresenta-lhes uma dívida. A reclamação é do tipo como é que tenho dívida se só agora é que estão a ligar água na minha casa. O que aconteceu é que antes da suspensão do contrato as facturas estavam lá. Como o cliente ficou tanto tempo sem água esqueceu-se disso, mas quando explicamos alguns compreendem. A segunda situação está relacionada com os consumidores que dizem que nas suas casas só vivem duas ou três pessoas e o valor é exagerado. O único instrumento que reporta o que realmente aconteceu na casa do cliente é o contador. Ele é o nosso guardião. O que faz o nosso técnico é tirar a leitura e nós processamos. Se são duas pessoas e as contas estão a subir isso não faz parte da nossa base de cálculos. Grande parte dos clientes não presta atenção à sua instalação e quando têm uma torneira a pingar uma gota de água acham que não é grande coisa. Porém, a altas horas da noite quando o consumo baixa essa torneira fica a deitar muita água e isso vai se reflectir nos cálculos. O outro exemplo é do autoclismo. Cada descarga liberta cerca de nove litros de água. Imagina numa casa onde residem cinco pessoas. Cada um vai arrear o autoclismo duas vezes por dia. Ao escovar os dentes liga a torneira e deixa a água sair enquanto está a escovar e vai se perdendo. São pequenos detalhes que necessitam de atenção para poupar água.

NOT –No meio dessas situações o FIPAG encontra espaço para sensibilizar?

JC – Fazemos.É verdade que precisamos de fazer muito mais até que o último cliente compreenda a importância de poupar a água, porque não é só uma questão social, mas também económica, que envolve custos. É preciso que as pessoas pensem seriamente na questão de poupar a água, pois as estatísticas mostram que a água está cada vez mais escassa.

Temos a barragem de Mecula, que ficou muito tempo sem água. Por vezes pensamos que quem faz a leitura do consumo é um Homem e quem processa também é Homem, por isso é possível cometer falhas, as quais quando identificamos procuramos corrigir pontualmente.

Erosão como desafio

NOT –Como é que olha o problema da erosão?

JC – Estamos numa fase não muito boa, principalmente nesta época de chuvas. Só no período de 28 a 30 de Dezembro de 2019 tivemos cerca de oito quilómetros da nossa tubagem que ficou exposta e a outra foi removida por completo. São mais de cinco mil pessoas afectadas no que diz respeito ao abastecimento de água potável. Felizmente já restabelecemos e ficámos com um total de cerca de 100 pessoas por terminar.

NOT – Há condições para proteger as vossas infra-estruturas?

JC – Em Nacala não temos condições para travar a erosão. Requer um investimento que possa ajudar na sua mitigação e o desafio não é apenas do FIPAG mas sim de todo o Governo, porque afecta as estradas, a tubagem e os edifícios. Estamos a fazer um trabalho de mitigação que não é definitivo, pois uma intervenção exaustiva poderá acontecer depois das chuvas. Estamos limitados a fazer tapamentos e conexões para satisfazer os clientes.

NOT –Como está a componente das vandalizações e ligações clandestinas?

JC – As vandalizações são reais. Infelizmente não posso fornecer uma informação em números ou do ponto de vista de prejuízos, mas a verdade é que já tivemos cinco rupturas graves na adutora devido à vandalização protagonizada por homens desconhecidos. Na rede registamos vandalizações que estamos a controlar e acreditamos que será possível ultrapassar.

Ao longo da adutora precisamos compreender a motivação dos malfeitores, mas há duas suposições. Alguns acham que são os privados que faziam a venda da água usando camiões-cisterna e agora sentem-se ameaçados. Portanto, fazem essa vandalização que é para o sistema continuar deficiente para eles terem o seu negócio a funcionar. Outros entendem que há regiões onde se praticava a agricultura e quando se bomba o nível de água baixa e os camponeses não conseguem irrigar os seus campos de produção e por isso promovem a vandalização para eles terem a água disponível para as suas actividades. Neste momento não temos uma conclusão efectiva para nos oferecer as causas das vandalizações, fora das especulações. A questão das ligações clandestinas existe e sempre existirá, porque há sempre pessoas que não gostam de seguir os procedimentos legais. Mas nós estamos com as atenções viradas para o aumento das novas ligações e restabelecer o fornecimento do precioso líquido ao nível dos bairros mais críticos. Quando reduzir esse processo vamos iniciar os passos subsequentes, pois se pegarmos tudo de uma única vez estaremos atrapalhados e não teremos resultados. Há muitos casos de ligações clandestinas nos bairros, algumas das quais surgiram no período em que não tínhamos água suficiente e as pessoas faziam ligações na tentativa de encontrar um tubo que lhes fornecesse água. Mas, também, do nosso lado não havia capacidade de controlo, uma vez que se é um bairro que não recebe água nós suspendemos a monitoria.

Ter água 24 horas

NOT – Quais os investimentos que se esperam no futuro?

JC – A barragem de Nacala vai trazer um aumento da capacidade de abastecimento de água e estão previstas acções de investimento para este ano. Prevê-se a construção de 30 quilómetros de adutora da barragem até à cidade portuária. Será igualmente construída uma nova estação de captação e tratamento de água, alguns reservatórios, bombas e aquisição de outros equipamentos hidromecânicos que serão instalados. A conclusão dessas acções vai permitir a produção de uma média de 25 mil metros cúbicos de água por dia. Essa cifra será adicionada à actual, de 30 mil metros cúbicos, daí teremos uma produção de mais de 50 mil metros cúbicos por dia. A partir daí estaremos em condições de fornecer o precioso líquido para a população de Nacala 24 horas ao dia.

 

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