Director: Júlio Manjate

A OBSERVAÇÃO escrupulosa de cuidados básicos reduz o risco de contaminação por tuberculose, quando um paciente na fase activa da doença partilha o espaço com pessoas sãs, à partida vulneráveis à contaminação. 

É claro que não há regra sem excepção, mas Custódio Moamba é disso exemplo. Dedicou os seus anos de enfermagem até à aposentação, ao serviço do Hospital Geral da Machava, 32 dos quais lidando apenas com doentes de tuberculose.

Por ocasião do Dia mundial de luta contra esta doença, que hoje se assinala, falou para a reportagem do “Notícias” e destaca o factor protecção, principalmente para o uso da máscara.

Apesar de no passado, o tratamento ter sido mais complexo e razão de abandono em alguns casos, nas enfermarias onde Moamba trabalhou se registavam poucas mortes, para dizer que a tuberculose não deve ser encarada como sentença de morte.

“Já fiquei um a dois meses sem testemunhar mortes no meu piso, embora fosse uma enfermaria especialmente dedicada a casos graves da doença. O segredo era a estratégia DOT (Directa Observação na Toma) de medicamentos por parte dos enfermeiros. Assisti e vi recuperar doentes com nomes sonantes na praça, entre os quais músicos e pessoas com alta patente”, disse.

Para ele, nesta fase é crucial o papel do enfermeiro, pois o paciente pode, a dado momento, ficar desesperado e pensar mais na morte que na vida.

Conta que os abandonos acontecem mais na fase de manutenção, altura em que o paciente faz o tratamento ambulatório. Ainda que isso aconteça, porque volvidas três semanas de tratamento o organismo, muitas vezes, reage positivamente, o que faz o doente pensar que está curado: “é aí onde começa o problema”, disse.

A fase mais crítica para a ocorrência da contaminação é no início de tratamento pois, posto isso, o bacilo fica adormecido e o doente deixa de constituir perigo aos demais.

Na óptica de Moamba, a separação de utensílios é uma prática antiga que dificilmente as pessoas podem abandonar mas, segundo explicou, o risco de contágio ocorre mais nas primeiras três semanas de tratamento e é por via do ar, quando alguém contaminado expele gotículas que entram em contacto com um indivíduo saudável.  

Sem apresentar números, recorda-se de muitas pessoas doentes que passaram por ele e que recuperaram. Algumas até se esqueceram do que passaram ao ponto de voltarem a consumir bebidas alcoólicas. “Cruzo com algumas, nas ruas, com saúde e que nunca voltaram a ter recaídas. Costumava-se dizer no tempo em que eu trabalhava aqui, que o Hospital Geral da Machava era uma oficina de bate-chapa e pintura para pessoas”, recorda-se Moamba.

Não era para menos. É que recuperamos pessoas que entravam aqui muito mal. Há gente que entrava literalmente acabada, sem andar, mas depois de iniciar o tratamento já se levantava, brilhava e retornava à vida activa”, conta.

Feliz por ser vencedora na luta pela vida do filho  

QUANDO a tuberculose se manifesta numa casa, muitos familiares entram em desespero ao ver o estado clínico de seus parentes. Poucas vezes acreditam na recuperação. Mas este não foi o caso de Luísa Mangane, mãe do pequeno Alsio que foi acometido pela doença, logo nos primeiros dias de vida.

Ela conta que tudo começa em 2013, ano em que levou a criança de apenas alguns dias de vida ao centro de saúde para tratar a tosse. O paracetamol e cotrimoxazol não foram suficientes para desafiar a doença. Veio a transferência para o Hospital Geral José Macamo, onde o pequeno Alsio foi internado por 30 dias. Mesmo assim, o diagnóstico não era conclusivo até que a médica optou pela transferência para o Hospital Geral da Machava, onde foi detectado uma tuberculose óssea. A criança era muito pequena mas conta a mãe que buscou uma força interna não sabe de onde e enfrentou o problema. Três meses depois teve alta hospitalar, mas por alguns dias, pois mal chegou à casa a febre recomeçou e teve que ser novamente internada, por cerca de um ano.

“Não tinha certeza de que o bebé poderia sobreviver mas enfermeiros e médicos me davam coragem e, na verdade, embora tardiamente, a cura chegou. Hoje, sou uma mãe feliz com o meu filho, a frequentar a segunda classe”, disse Luísa.

Já sem depender de medicamentos, de quando em vez vai às consultas para monitoria.

A família deu o apoio que era possível. O pai estava desempregado na altura, mas conseguia visitar o filho durante o tempo em que esteve na luta pela vida. 

Com perseverança veio a superação

“TRATAMENTO doloroso porém, possível”. Quem assim o diz é T. Mangue que superou a doença, graças à sua ousadia e perseverança no diagnóstico e também no tratamento. Exemplo a seguir, conta que a história da sua doença começa com a ida ao centro de saúde, depois de uma rouquidão que durava uma semana.

Sem nenhum teste, houve prescrição de medicamento mas antes do fim, o entrevistado decidiu regressar ao hospital porque não registava nenhum sinal de melhoria e a rouquidão evoluía para a tosse.

Uma vez regressado à mesma unidade sanitária, porque já registava perda de peso, teve uma outra prescrição que também não o levou à melhoria. Aliás, segundo disse, vinham mais sinais de alerta como, por exemplo, uma pontada no peito. Porque  ninguém pensava numa transferência, teve a ousadia de se entregar ao hospital geral, contra todos os procedimentos, pois tudo o que queria era ser tratado.

Conta que o Raio X mostrou sinal de infecção e levou o resultado para o centro de saúde, onde fez o exame de expectoração que deu resultado negativo. Porque a sintomatologia era típica e com base na leitura do raio, foi aconselhado a iniciar com o tratamento da infecção pulmonar. Contudo, volvidos dois meses foi diagnosticado tuberculose por via do teste de expectoração ou simplesmente BK. Os sintomas iam evoluindo e era o reinício do tratamento intensivo que durou de Janeiro a Agosto. Mas, felizmente, tudo deu certo e regressou ao trabalho. 

O interlocutor aconselha a qualquer paciente a assumir uma postura responsável, sempre que estiver perante a doença porque assim, por mais longo que seja, o tratamento acaba chegando à superação.

Para ele, o papel da família é parte da terapia pois, quanto mais apoio dela vier, cresce a esperança de viver e de vencer a doença. “Com o carinho da família, a pessoa doente sente-se motivada e não pensa em abandonar o tratamento, diferentemente de uma situação de estigmatização”, conta.

Guarda memórias de momentos difíceis que passou rumo à cura, mas também momentos memoráveis.

“Tive atenção de toda a equipa que me assistia nessa altura. Quando me resta tempo passo para saudá-la”, disse. T. Mangue volvidos 12 anos de superação.

Erradicação em 2030: Um sonho realizável

MOÇAMBIQUE tem estado a registar, nos últimos anos, uma melhoria na capacidade de diagnóstico, graças ao investimento feito no sector laboratorial, com fundos do Banco Mundial, Fundo Global e do Governo, para a modernização.

Segundo do director do Programa Nacional de Controlo da Tuberculose no  Ministério da Saúde (MISAU), Ivan Manhiça, a melhoria reflecte-se nos casos da tuberculose, de um modo geral, na tuberculose infantil e na tuberculose resistente a medicamentos, particularmente.

A fonte explicou que foi possível substituir o diagnóstico com recurso a  microscópio óptico, por aparelhos GeneXpert, um novo aparelho para fazer diagnóstico que aumentou o número de pessoas rastreadas, o que, consequentemente, permitiu encontrar mais casos.

Salientou que o principal objectivo é encontrar mais gente, uma vez que durante anos, os números encontrados andavam muito abaixo da estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Em 2019, o país diagnosticou e iniciou o tratamento em 97 mil pessoas com tuberculose, num universo de cerca de 300 mil testadas para a doença, com recurso a novas tecnologias introduzidas no diagnóstico.

“Continuamos ainda abaixo, mas melhoramos muito, com tendência a subir. Aliado a isso, temos perspectivas de melhorar ainda mais nos próximos anos”, salienta.

As províncias de Maputo, Gaza, Zambézia e Nampula são as que mais casos da doença registam. As razões prendem-se, para o caso da Zambézia e Nampula com o facto de serem as mais populosas e, para todas, o denominador comum é a prevalência de casos do HIV, com destaque para a zona Sul.

“Mas também é determinante o facto de, nestas províncias, ter havido maior investimento em função das tendências que registamos ao longo dos anos, para podermos captar ainda mais, todos os casos possíveis”, disse.

A Organização Mundial da Saúde estima que Moçambique tem cerca de 162 mil casos de tuberculose mas há cerca de cinco anos, a Saúde encontrava apenas 30 por cento deste número. Actualmente, até finais de 2019, os casos encontrados situavam-se nos 60 por cento.

Manhiça acredita que o investimento que está a ser feito vai permitir que ao longo dos próximos anos, se atinja os 90 por cento até 2030, que é o ano eleito para a eliminação da doença.

Sobre se a erradicação seria um sonhou para Moçambique, Manhiça manifesta-se optimista, socorrendo-se do facto de, para além de se seguir o que está na agenda, existir um investimento que demonstra resultados abrindo-se desta forma, perspectivas para um investimento adicional de modo a continuar a lutar para alcance das metas já definidas. 

(ANABELA MASSINGUE)

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