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A MORTE do jornalista desportivo Boavida Funjua passou na penumbra. Há muitos que souberam do desaparecimento físico daquele pilar importante do jornal “desafio”, dias depois do enterro do seu corpo.

Era óbvio que isso acontecesse, porque mais ou menos na mesma altura, entra em derrocada final o ndawu mais conhecido da história dos nossos tempos: Afonso Dhlakama.

Funjua ficou com poucas chances de ser escalpelizado pelos holofotes, porque o porte estrondoso de Dhlakama é seguramente de tal magnitude que Funjua ficou invisível. Mas é assim mesmo: contra factos não há argumentos. Seja como for, o homem escreveu a sua história, uma história que faz muito sentido quando é coberta pela bandeira do desporto.

Eu quis escrever qualquer coisa em devido tempo para homenagear um companheiro. Contudo, os sinais indicavam que a espera seria mais inteligente. Esperei. E agora estou aqui, para despir das costas o peso de ouvir uma espécie de cicio do Funjua, reclamando de mim uma palavra, pelo menos.

Partilhamos de miúdo, eu e ele, os mesmos caminhos quando frequentávamos a Escola Comercial de Maputo, para além de que vivíamos em bairros vizinhos: Funjua no bairro da Urbanização e eu no Thlavana. Porém, foi no “Notícias” onde a nossa amizade se cimenta, ou se constrói.

Depois da sua morte, e logo a seguir o meu silêncio, ouvia na minha imaginação o Funjua reclamando mais ou menos nestes termos: “Óh Alfredo, exaltaste o Daniel Cuambe e o Albino Moisés, e de mim nem um rabisco!” Mas isso é o que eu imaginava, era uma espécie de pressão da minha própria consciência, pelas pequenas coisas que me ligavam ao Funjua.

Todos nós temos os nossos defeitos. E Funjua, para aqueles que o conhecem bem, era de um trato difícil. Poucos amigos. Há quem o chamasse mesmo de casmurro. Apesar de tudo isso que pesava sobre ele, Deus quis que eu caísse nas suas graças (do Funjua). Foi ele que me incentivou a regressar à universidade, tratando ele próprio, todo o expediente para o efeito.

Perante a minha aparente negligência em tratar a papelada, Funjua ia frequentemente à Redacção para acelerar o andamento das coisas. E os colegas que o viam naquele vaivém, estupefavam-se e chegavam perto de mim para perguntarem: que problema é que tens com o Funjua? Ninguém acreditava que este homem “fechado” e fumador para caramba, pudesse ser amigo de alguém. Mas contra todos os prognósticos, ele nutria muita simpatia por mim, e eu também por ele. Não sei como. Só Deus é que sabe. Tal como disse, acabou sendo o Funjua a levar pessoalmente para a Universidade, o expediente para a matrícula e tudo o resto.

Bolas! Estou há quatro anos na universidade. Funjua adoeceu quatro anos, até que a morte se cansou de esperar. Entretanto, quando parecia melhorar, voltou ao “desafio”, onde não trabalhou três meses. Caiu para sempre, já à porta da reforma. Aliás, ele procurou-me logo ao retomar as actividades para juntos fazermos as contas do tempo que faltava para a aposentação. E ele não sabia o que lhe esperava.

Pois é: foi-se um homem íntegro, que pode ter pago caro pela sua verticalidade, ao ser destituído da chefia da Redacção por ter escrito um artigo a exigir a demissão de Augusto Matine de treinador dos Mambas, por maus resultados. Alguém dos graúdos não gostou e vai daí a medida de quem manda.

Funjua era imprevisível. Para além de mim, era também amigo do jornalista Gil Carvalho. Uma vez os dois foram aos “copos”. De regresso à casa, Funjua entra em desavença com a esposa, a Rifa, e esta refugia-se em casa de Gil Carvalho. No dia seguinte Funjua, logo de manhã, vai à casa do amigo e pergunta se a esposa estava lá. Gil, que é casado e vive com a mulher, respondeu que sim. E Funjua disse assim: olha, se a minha mulher está aí, então fique com as duas!

Tem muita coisa que se diga sobre um amigo. Mas tudo com gozo. Tudo com saudade de alguém que nunca mais subirá as escadas do Notícias.

Até sempre, irmão!

Alfredo Macaringue

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