Director: Lázaro Manhiça

A ACTUALIDADE moçambicana é marcada por mais uma exposição da banalização da vida em Cabo Delgado.

Uma mulher, completamente despida, é filmada a ser torturada à paulada e, depois, assassinada friamente a tiros por quatro indivíduos trajados de uniforme semelhante ao do Exército moçambicano. As imagens foram postas a circular nas redes sociais, no que se trata, na verdade, de mais um capítulo dos horrores que acontecem nesta província onde terroristas vêm matando gente de forma descarada, em total desrespeito à vida humana.

Cabo Delgado há muito se tornou palco das mais hediondas formas de violação de direitos humanos. Na onda de terrorismo, que iniciou em 2017e se alastra principalmente pelos distritos da costa Norte da província, foram sempre noticiadas atrocidades que vão da decapitação de pessoas, saque e queima de habitações, destruição de edifícios públicos, etc.

Ao mesmo tempo, os terroristas iniciaram acções de propaganda, como registar as imagens das suas operações, através de vídeos ou fotografias defronte de edifícios públicos por si destruídos e/ou tomados e diante de cadáveres de militares e de civis que mataram no campo de batalha.

De há uns dias para cá,a opinião pública fervilha por causa de um novo vídeo, o da mulher torturada e depois “regada” por balas, no que representa uma das maiores irracionalidades jamais vistas naquele campo de terror.

Ora, as reacções aosfactosdocumentados no vídeo são variadas, dominadas pela condenação,a priori,ao Exércitoe, nalgum momento, ao Estado, por o fardamento envergado pelos quatro homens confundir-se com o das Forças de Defesae Segurança(FDS). As autoridades, que tinham a obrigação de reagir, vieram a terreiro para prontamente desmentiremo seu envolvimento, não fosse, segundo sustentou o ministro do Interior, Amade Miquidade, esta uma táctica dos terroristas que atacam Cabo Delgado para desacreditar as FDS perante a opinião pública.

A maioria das reacções que vêm da esfera pública é de vilipêndio às Forças de Defesa e Segurança, com base apenas nas imagens postas a circular. Ora, a nós preocupa a leviandade com que alguns posicionamentos são tomados, perante factos e argumentos vistos de forma despida da serenidade que um assunto como este merece. O arrepio que aquelas imagens causamnão pode ser justificação para conclusões apressadas e nem para descurar o princípio da verificação de veracidade.

Sabendo-se que os terroristas usam também como táctica a guerra digital, mediatizando o seu mal e desacreditando os que os combatem, no caso as Forças de Defesa e Segurança, porque não se aventa a hipótese de as imagens representarem este último caso?

Não estamos a tomar partido nema assumir que não são soldados do Exército moçambicano no vídeo, mas estamos, isso sim, a sugerir que haja frieza e prudência na análise. O que deve acontecer perante aquela imagemé exigir uma investigação séria e isenta para que se apurea veracidade dos factos.

A investigação tem de ser séria porque, a provar-se que há elementos das Forças de Defesa e Segurança envolvidas em tais atrocidades, eles devem ser exemplarmente responsabilizados, punindo-se-lhes severamente, de modo a vincar-se o compromisso do país com a salvaguarda dos direitos humanos e dos mais nobres preceitos de um Estado de Direito. A investigação, acrescentamos, tem de demonstrar esse compromisso.

Evocamos aqui as organizações da sociedade civil pelo reconhecimento de que são, na construção e consolidação de uma nação, uma força viva e de quem se espera sensatez, tanto na abordagem como no exercício do seu papel em prol de uma nação melhor.

Porém, organizações há que optam pelo lado mais fácil, como é o caso de vir a terreiro e assumir, logo que o vídeo veio a público, que aqueles quatro assassinos que surgem no vídeo são membros das FDS, mesmo tendo em conta o outro lado por que esta história se pode escrever.

Para que fique bem claro, queremos reafirmar a nossa condenação à violação de direitos humanos e, particularmente, o episódio macabro da mulher assassinada. Seja qual for o seu autor. Se o grupo dos quatro for das FDS, que seja punido severamente. De forma exemplar. O que não achamos sensato são conclusões precipitadas, como aquelas que ouvimos esta semana.

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O PROCESSOde Desmobilização, Desarmamento e Reintegração (DDR) dos ex-guerrilheiros da Renamo ganhou, no último fim-de-semana, mais um impulso, com a passagem à disponibilidade de mais 46 elementos até então “aquertelados” na região de Mapangapanga, posto administrativo de Vunduzi, distrito de Gorongosa, em Sofala. Com esta operação eleva-se para 434 o número total a abranger neste ponto, agora transformado em centro de acomodação para todos os que forem disponibilizados no Centro do país.

Acerimónia teveosimbolismos que importa realçar, talcomo a sua realização no antigo quartel-general da Renamo; o culminar da desmobilização de 140 mulheres, número desde já recorde; e, finalmente, a maior entrega de armas jamais vista desde que o processo iniciou em Julho do ano passado.

Sobre a região de Mapangapanga, o Presidente da Repúblicamanifestou a sua satisfação por os moçambicanos lograrem transformar um local de tiros e matanças num espaço de paz e tranquilidade, onde a população produz e refaz a sua vida.Sugeriu, por isso, a transformação deste e de outros locais em pólos de atracção turística,como elementos da história nacional.

Quanto ao número das mulheres desmobilizadas, concordamos com o Presidente Filipe Nyusi ao afirmar que os moçambicanos, mais uma vez, estão a provar ao mundo inteiro que o papel da mulher nos processos de desenvolvimento social, político e económico é fundamental.E há várias formas de participaçãoneste processo euma delasé,por exemplo, como ele próprio fez questão de dizer, cuidar das crianças e investir na sua formação académica,preparando-as, por conseguinte, para se tornarem homens e mulheres úteis à sociedade.

Osantigos guerrilheiros da Renamo entregaram 22 armas AKM, uma bazuca, 22 carregadores, dois mísseis terra-ar e 554 munições.

Como dissemos, esta é a primeira vez neste processo que se alcançam estes números e sublinhamos, por isso, a convicção de que estes homens e mulheresirãoiniciar uma nova vida fora dos circuitos da guerra.

São, de facto, simbolismos que demonstram o compromisso das partes e a irreversibilidade de um processo que, gradualmente, ao que tudo indica, vai dissipando cada vez mais as dúvidas que sobre ele pairavam,quando, há sensivelmente um anofoi desencadeado.

Estamos a falar de um processo que, com a desmobilização dos ex-guerrilheiros no sábado passado (três faltaram por doença), elevou-seo número para 985,contando com os que foram abrangidos em Satungira, Savane e Chibabava.

Porém, não podemos deixar de sublinhar um outro simbolismo, que é a intervenção do líder da Renamo, Ossufo Momade,contra a facção do seu partido, a Junta Militar liderada por Mariano Nhongo, que se recusa a participar no DDR e continua a intentar acções militares, que matam civis e destroem bens, minando o desenvolvimento do país

Ora, Ossufo Momade minimiza a sua importância e a do seu elenco, fazendo apelos para que Nhongo não emperre o processo de paz e se aproxime ao partido sem que seja necessariamente junto do seu presidente. Este é, quanto a nós, um sinal positivo que parece deixar poucas dúvidas do compromisso com os acordos assinados o ano passado e com a paz em si.

Entendemos que o DDR está, assim, a cimentar a ideia de que tem “pernas para andar”e andar um pouco mais veloz, pelo que todos os moçambicanos são convidados a o acarinhar, principalmente se nos recordarmos dos percalços acontecidos em ocasiões anteriores.

O país tem em mãos a mais flagrante oportunidade dos últimos anos para caminhar rumo à pacificação definitiva,remetendo a solução das eventuais diferenças ao diálogo.Mais do que nunca, sentimos que o processo caminha célerepara definitivamente se enterrar o machado da guerra.

A narrativa de parte a parte, ou seja, do Chefe do Estado e do líder da Renamo, de cada vez que se encontram e não só, aponta para isso. Transmite a esperança de paz que o país vem perseguindo há anos.  Para juntos enfrentarem o terrorismo em Cabo Delgado.

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