Imprimir
Categoria: Editorial
Visualizações: 1290

Editorial

A PRESENTE época chuvosa será de má memória para os cidadãos de muitos cantosdo país, principalmente do sul e centro, onde as principais cidades, como Maputo, Matola, Beira e Dondo, e as vilas de Boane e Marracuene voltam a viver o drama das inundações, desalojamento de famílias e destruição de infra-estruturas económicas e sociais.

Trata-se de situações recorrentes, num país ciclicamente fustigado por calamidades naturais cada vez mais destruidoras, o que é explicado pelas mudanças climáticas que colocam Moçambique como um dos países mais vulneráveis a eventos extremos no mundo. Ou seja, sempre que se aproxima a época chuvosa e ciclónica, adivinha-se o sofrimento como o que vivem, por exemplo, estas cidades e vilas. Mais uma vez, Beira, Maputo e Matola, sobretudo, debatem-se com este cenário, levantando velhas questões e lembrando soluções pensadas mas nunca executadas, ou simplesmente abandonadas.

Especificamente, os gestores são chamados a acelerar a busca de soluções, numa altura em que o clamor dos cidadãos se ouve mais alto, precisamente por causa do agravamento, ano após ano, das suas condições de vida devido aos efeitos das inundações urbanas.

Urge corrigir os erros do passado que estarão a concorrer para o agravamento do impacto das inundações urbanas. Referimo-nos às falhas que foram sendo cometidas até pelos gestores de espaços urbanos, que permitiram que alguns citadinos construíssem as suas residências ou edifícios para actividades económicas em lugares por onde as águas pluviais deveriam escorrer até desaguar no mar.

Entretanto, mais do que a destruição de casas e de outras infra-estruturas sociais e económicas, o desalojamento de pessoas que sazonalmente são forçadas a abrigar-se em centros de acomodação, as chuvas abundantes levantam outras questões sobre a gestão dos recursos hídricos, que ainda constitui uma grande fragilidade em Moçambique.

As comunidades debatem-se com a abundância de precipitação na época chuvosa, mas na estação seca há falta desta mesma água, tanto para o abastecimento às cidades como para a irrigação dos campos para a produção de comida. O país tem, por causa disso, urgência de arrojar-se para revolucionar a gestão dos recursos hídricos, contemplando o aproveitamento ao máximo possível da água das chuvas.

Sabendo-se que os ciclos de seca têm sido por vezes longos e os de abundância de chuva exagerados, como está a acontecer agora, é necessário haver programas mais ousados de aproveitamento desta água que se perde. Para além da construção de grandes infra-estruturas de retenção, como barragens, que serviriam para o abastecimento dascidades ou para a irrigação doscampos de produção em grande e média escala, bem como para salvar os assentamentos das comunidades de inundações, há também que revolucionar o aproveitamento do recurso junto de famílias rurais.

É recorrente acompanharmos que várias comunidades fora dos centros urbanos sofrem da falta de água em momentos de seca prolongada,mas quando há precipitação esta mesma água se perde por falta de meios de retenção. É necessário que as comunidades sejam incentivadas e apoiadas a ter, por exemplo, caleiras e tanques-cisterna para o aproveitamento da água da chuva, o que pode complementar os investimentos do Governo em sistemas de abastecimento ou de retenção por tempo razoável. Por outro lado, há também a necessidade de investimento em infra-estruturas maiores de aproveitamento para outras necessidades nessas áreas rurais, como a irrigação.

Moçambique deve pensar em revolucionar o aproveitamento da água, sim, porque já sabe que, dada a sua localização geográfica e a disposição da sua população, enfrentará ciclicamente períodos de superabundância do recurso,mas sempre com o espectro de na época seguinte essa água faltar, com todas as consequências daí decorrentes.

Nesta ordem de ideias, achamos imperiosaa optimização da gestão da água das chuvas como um potencial económico, pois há condições para a sustentabilidade de empreendimentos hídricos neste país que não está a aproveitar a dádiva que tem. Pelo contrário, contempla-a até que vire pesadelo.