Imprimir
Categoria: Editorial
Visualizações: 658

Temos acompanhado, nos últimos dias, vozes que contestam os resultados parciais das eleições de 15 de Outubro, que começaram a ser anunciadas pelos órgãos eleitorais, algumas horas após o fecho das mesas de votação. Os números revelam hegemonia da Frelimo e do seu candidato presidencial, Filipe Nyusi, o que aos olhos de alguns partidos políticos, organizações da sociedade civil e observadores (e destacamos o alguns!), só pode ser obra de uma fraude.

Na verdade, e embora seja frequente se ouvir alegações desse tipo nos processos eleitorais em África, não deixa de ser estranho que assim seja, neste caso em particular, analisando a trajectória e desempenho de cada partido e candidato a estas eleições.

Factualmente, todos tiveram 42 dias para “vender” os seus projectos de governação ao eleitorado, numa campanha que, apesar dos incidentes que registou nalguns pontos do país, não se pode dizer que não tenha sido pacífica.

Todos partidos políticos e candidatos tiveram espaço para fazer o seu jogo. Até porque a mãe natureza também ajudou, não tendo havido um único dia em que a chuva ou mau tempo tenha impedido a movimentação de “caça” ao voto. Testemunhámos tudo o que foi acontecendo, desde partidos e candidatos sem iniciativa, sem discurso e claramente sem qualquer projecto político para apresentar aos moçambicanos, até outros que, com todo o despudor, prometiam o paraíso às populações, em troca do voto.

Em contrapartida, testemunhámos os que se esmeravam, porque assumiam a importância da campanha para o sucesso nas eleições.

É preciso dizer que nos causa uma particular estranheza o papel da Renamo em toda a maledicência à volta dos resultados eleitorais, ela que há anos anda nestas coisas de eleições, o que à partida pressupunha outro nível de maturidade.

Entendemos que tanto a Renamo, como o MDM já deviam ter habilidades para construir outras narrativas, mais convincentes e menos falaciosas. Seria desejável que, por estas alturas, às sextas eleições gerais e terceiras das assembleias provinciais houvesse maior disposição dos concorrentes aos fair play.

“A vitória prepara-se, a vitória organiza-se!”. Este pode ser um slogan vazio para alguns, mas é rico em ensinamentos para muitos. A Frelimo tem sabido interpretar isto em rigor, do que tem resultado o seu desempenho em cada processo eleitoral, em particular neste.

Definitivamente, a desorganização com que a Renamo entrou para estas eleições foi determinante para a derrota copiosa que averbou. Basta lembrar as broncas internas que eclodiram logo após o congresso da Gorongosa, que elegeu Ossufo Momade para suceder a Afonso Dhlakama, até ao surgimento de facções de renegados que se recusam a aceitar o novo poder instituído na sua organização.

À porta da campanha, vimos vários membros de primeira linha da Renamo apartarem-se do processo, justamente no momento em que deviam ter dado o melhor de si para capitalizar as simpatias que pareciam ter no seio de algum eleitorado.

Como esperava a Renamo obter votos, se durante a campanha só investiu no seu próprio descrédito, na intimidação e na desmoralização dos eleitores?

Lamentável é o papel desempenhado por algumas chancelarias encapuzadas que, vestidos de organizações da sociedade civil ou até de observadores, continuam a acreditar na sua inevitabilidade e a apostar no jogo cinzento para turvar o ambiente e dinamitar o futuro dos moçambicanos.

O discurso desqualificador do processo eleitoral que estas entidades e organizações promovem, sobretudo através das redes sociais, configura uma incitação a movimentos populares com potencial para desequilibrar o ambiente de paz e estabilidade que se vive no país.

Ao que tudo indica, é nesta teia que o Movimento Democrático de Moçambique (MDM) tende a cair. Incapaz de resistir à sua própria erosão por falta de consistência e de um projecto político moderno, está agarrado ao coro da fraude, na perspectiva de encontrar culpados pelo desaire eleitoral.

Na razoabilidade, o que resta, tanto à Renamo, como ao MDM, é colocar os pés no chão, ganhar humildade, aceitar os resultados e felicitar os vencedores. Tudo que esperamos deles é uma contribuição para um relacionamento harmonioso entre os partidos políticos. É que façam a sua parte para blindar o país contra as investidas ideológicas daqueles que preferem um Moçambique em guerra, do que este, que procura vingar como parceiro económico do mundo.

Trabalhem para melhorar os resultados em 2024. Desta vez, façam política com o que têm, com responsabilidade e foco, até mesmo para ajudar a evitar que o previsível cenário de maioria absoluta da Frelimo conduza este partido a alguma perda de humildade política.

Podem, sim, exercer o direito que têm de discordar da maioria, de criticá-la, de apresentar propostas e defendê-las, a bem da maioria que são, na verdade, os cidadãos eleitores.