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Categoria: Editorial
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Já vamos sendo claros sobre isto: não há nada que justifique a violência que ameaça se reinstalar nalguns troços das estradas nacionais número Um e Seis, no Centro do país, tal como nunca houve explicação para as incursões armadas que desde 2017 se registam nalguns distritos da província de Cabo Delgado.

Nos últimos dias sucederam-se ataques a viaturas nas províncias de Sofala e Manica, do que resultou a morte de pelo menos cinco pessoas, entre civis e agentes das Forças de Defesa e Segurança. Desde logo, a Polícia assumiu que aquelas eram obras da Renamo, ou pelo menos de gente ligada a ela, o que de alguma forma era difícil de acreditar, já que, a mesma Renamo, há pouco se vestiu de partido político para participar nas eleições de 15 de Outubro.

Hoje, e na senda dessa participação, a Renamo ainda corre atrás de um processo de contencioso eleitoral, a nível do Conselho Constitucional, o que mostra que ela tem clareza sobre como se fazem as coisas em democracia.

Ontem, o líder da autoproclamada Junta Militar da Renamo, Mariano Nhongo, deu voz aos ataques, chamando a si a responsabilidade por eles. Nhongo, não só assume a responsabilidade por estes, como também promete novas incursões, sobretudo contra viaturas da Polícia da República de Moçambique (PRM), que, segundo ele, criou condições para uma alegada fraude que levou à derrota da Renamo nas eleições de 15 de Outubro.

Na primeira pessoa, e mesmo desmentindo ligação com o Presidente da Renamo, Ossufo Momade, Nhongo acaba por admitir que tinha interesses nas eleições de 15 de Outubro, embora ele próprio tenha aparecido na comunicação social, em plena campanha eleitoral, a desencorajar o voto a favor da Renamo e de Ossufo Momade.

Ora, na contra-mão do desejo de Nhongo, a Renamo e Ossufo Momade, não só fizeram campanha eleitoral, como também participaram nas eleições, das quais saíram copiosamente derrotados. Agora, já com os resultados oficialmente divulgados pela Comissão Nacional de Eleições, o mesmo Nhongo aparece quase que inexplicavelmente a defender que as eleições foram fraudulentas e que a vitória da Frelimo e de Filipe Nyusi foi irregular.

Várias perguntas não querem calar: Afinal, que causa defende Mariano Nhongo? Quem devia ter vencido para as eleições de 15 de Outubro não terem sido fraudulentas? Que relação existe entre Mariano Nhongo, Ossufo Momade e a Renamo? Qual o papel do chamado “grupo de contacto” perante esta ameaça a um processo de paz que parecia bem encaminhado?

Moçambique acumulou experiência suficiente que atesta a viabilidade do diálogo na solução de problemas entre os Homens, depois de tenebrosas experiências vividas durante longos anos de uma violência que destruiu sonhos e vidas. Para sermos mais claros: fica difícil, hoje, digerir a ideia de que ainda haja moçambicanos a defender “soluções de fogo” para os problemas do país. De facto, é penoso que ainda haja quem ainda acredita na brutalidade como via para fazer valer as suas ideias e opiniões.

Perante as evidências que nos chegam da zona Centro do país, fica claro que há, de facto, gente que, a partir de uma posição de conforto, se recusa a aceitar que Moçambique se erga e cresça à custa dos seus próprios recursos, e que os seus cidadãos sejam os principais beneficiários dessa riqueza.

Falamos de gente que continua a apostar tudo para vender a imagem de um Moçambique sem eira nem beira; de um país instável, inviável, cujo povo é incapaz de distinguir o que é bom e o que é mau para si. Deprimente mesmo é perceber que há moçambicanos a mobilizar energias negativas contra o seu próprio país.

Com Nhongo a assumir publicamente a autoria dos ataques, fica claro que a Renamo não consegue se livrar da teia que a mantém como instrumento de pressão política e de desestabilização económica.

Preocupa-nos que o que um dia a Renamo assumiu como “um assunto de família” esteja hoje a transbordar o quintal, pondo em causa a paz e estabilidade de todos moçambicanos.

A Renamo e o seu presidente têm o dever de colocar travão aos ataques, têm o dever de se reconciliar entre si e chamar o seu quadro sénior à razão. Para todos efeitos, Nhongo é quadro sénior da Renamo. Até porque outros membros da primeira linha deste partido já manifestaram publicamente o seu apoio à Junta Militar.

A comunidade internacional, particularmente os países do Grupo de Contacto, não pode continuar a assobiar para o lado. Precisam de fazer valer a sua influência e papel, sem esperar que a situação deteriore.

Todos moçambicanos têm o dever de contribuir para que a guerra não volte a ser solução para nenhum dos nossos problemas.