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Categoria: Internacional
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A electrificação em África constitui um desafio enorme, mas também um mercado de grande potencial, que atrai tanto os maiores grupos do sector, como pequenas empresas que oferecem soluções “fora da rede” para domicílios particulares ou povoações inteiras.

“Na África Subsahariana, 2 em cada 3 pessoas não têm acesso à electricidade. Isto representa um número de quase 600 milhões de pessoas, lembrou Fatih Birol, director executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), num evento organizado pelo organismo em Paris, esta semana. “É uma prioridade absoluta”, acrescentou, segundo a agência France Press.

Com a evolução demográfica, o desafio é enorme para as próximas décadas, sendo que há zonas mais atrasadas – África ocidental e, sobretudo, zonas rurais – do que outras.

“O desenvolvimento e a redução da pobreza passam, crucialmente, pela estrada da disponibilidade de energia eléctrica”, considerou Jean-Claude Houssou, ministro da Energia do Benin, participante no evento.

Ngalula Sandrine Mubenga quase morreu porque o local onde vivia na República Democrática do Congo não tinha electricidade. “Durante três dias estive entre a vida e a morte simplesmente porque não havia electricidade para fazer uma operação”, recordou.

Hoje, Sandrine Mubenga é professora de engenharia eléctrica nos Estados Unidos e fundadora da empresa SMIN Power Group, que instala pequenos sistemas solares no seu país natal, sendo uma entre muitas que florescem nesse mercado.

Ainda que a electrificação possa passar pela extensão da rede clássica, essa solução enfrenta limites técnicos e financeiros importantes, sobretudo nas zonas rurais, que recorrem cada vez mais a soluções “fora de rede” (do inglês “off-grid”), que vão de pequenos sistemas autónomos – de produção térmica, hidráulica ou frequentemente solar - à escala de uma pequena povoação, até soluções individuais para um lar.

Nas cidades, estas soluções “fora de rede” são muitas vezes complementos da alimentação eléctrica clássica, cujo fornecimento tem quebras frequentes.

“Uma rede eléctrica convencional pode coexistir com micro-redes e viver de micro-redes”, sublinha Ngalula Sandrine Mubenga.

O mercado de soluções “fora de rede” está a alimentar o nascimento de start-ups florescentes, como a britânica Bboxx ou a Baobab+, baseadas no aproveitamento da energia solar e que oferecem serviços com fornecimentos pré-pagos, através de pagamentos diários de baixos montantes, sobretudo a lares situados em zonas rurais mais pobres.

Os grandes grupos não estão distraídos em relação a este fenómeno. A gigante eléctrica estatal francesa, EDF, por exemplo, adquiriu uma participação de 50% do capital da Bboxx no Togo, enquanto a Engie, o segundo maior grupo empresarial do ramo, também francês, acaba de inaugurar uma “mini-rede” numa vila na Zâmbia.

“Vemos que há grandes actores, o que não acontecia até agora, e estão a posicionar-se”, constata Laurent Morel, da consultora PwC. “Estas soluções ‘off-grid’ continuam a ser mais caras do que uma solução de ligação [à rede clássica], mas quando estamos numa zona rural, o custo de construção das infra-estruturas de transporte de electricidade é faraónico”, sublinha.

O financiamento é um dos maiores desafios que a questão enfrenta. O empenho das instituições financeiras multilaterais, como o Banco Mundial ou o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) é, neste contexto, essencial. Como lamenta Fatih Birol, “a população de África representa quase 20% da população do planeta, mas a sua quota nos investimentos mundiais de energia é de apenas 5%”.

Outro dos grandes desafios prende-se com o risco do continente se transformar num “cemitério” de painéis solares abandonados, por falta de reparação adequada e de soluções pós-vida. Laurent Morel defende, por isso, uma “lógica de visão completa e circular da fileira”, que inclua a formação de técnicos locais.