Director: Júlio Manjate

A morte do líder do grupo Estado Islâmico permite salvar a face do Presidente norte-americano, Donald Trump, perante as críticas sobre o abandono militar na Síria, mas os analistas consideram que terá pouca relevância na luta contra o terrorismo “jihadista”.

A morte de Abu Bakr al-Baghdadi pelas forças norte-americanas, anunciada no sábado, por Donald Trump, deixou o grupo extremista Estado Islâmico (EI) sem líder, constituindo um grave revés para a organização, que tem sido sucessivamente derrotada nos últimos meses, ficando agora limitada a um reduto do seu auto-denominado “califado”.

Contudo, os analistas recordam que, já antes da morte de al-Baghdadi, o EI tinha feito um forte esforço de descentralização, para evitar a desagregação organizativa decorrente da eliminação de núcleos de poder, como agora aconteceu.

“Num tipo de organização como esta, a perda do líder não significa o seu desmembramento”, afirmou à Lusa, José Pedro Teixeira Fernandes, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa, que chamou a atenção, ainda assim, para a importância simbólica da morte de al-Baghdadi.

Teixeira Fernandes considera que a relevância do seu desaparecimento fica agora dependente de outras variáveis, nomeadamente, o desenvolvimento da situação do movimento “jihadista” na região do Médio Oriente, onde tem vindo a perder influência.

“Foi certamente importante (a morte de al-Baghdadi), mas sabemos, do que vemos noutras organizações, que desenvencilharmo-nos do líder não é desenvencilharmo-nos do Estado Islâmico”, explicou ao jornal norte-americano “The New York Times”, Hassan Abu Hanieh, um especialista da Jordânia em grupos extremistas.

No mesmo sentido, vai a análise de Chris Costa, ex-director de contraterrorismo do Conselho de Segurança Nacional do executivo de Donald Trump, que recorda que a morte do líder não significa a morte da ideologia do movimento.

Bem pelo contrário, diz Costa, esta morte pode até “incentivar uma ampla rede de seguidores, incluindo aqueles que vivem nos Estados Unidos, para cometerem crimes violentos”, mostrando o risco de se ter feito de al-Baghdadi um mártir da causa ‘jihadista’.

No domingo, o jornal The Moscow Times citava uma fonte do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo que desvalorizava a morte de al-Baghdadi, lembrando o carácter fragmentado do EI e dizendo que o seu Governo continuaria a empenhar-se na derrota dos grupos terroristas que se mantêm activos na região.

Ao anunciar que al-Baghdadi se fez explodir depois de ter sido encurralado num túnel subterrâneo sem saída, no noroeste da Síria, Trump reconheceu que o EI, que ele gosta de dizer que foi "100%" derrotado”, ainda tem ambições de regressar.

Na comunicação ao país, após a morte de al-Baghdadi, Trump acrescentou que a organização está "muito, muito fortemente interessada em se reconstruir novamente".

Isso explica, comentou Trump, por que al-Baghdadi estava na província de Idlib, no noroeste da Síria, uma área amplamente controlada por um grupo rival - o Hayat Tahrir al-Sham, ligado à Al-Qaeda - embora outros grupos ‘jihadistas’ simpatizantes com o Estado Islâmico também estejam lá.

Teixeira Fernandes lembrou à Lusa que o EI perdeu muito do seu espaço vital, no Iraque e na Síria, e que esse espaço geográfico é muito importante para a organização, o que, mais do que a morte de al-Baghdadi, pode implicar dificuldades acrescidas em qualquer tentativa de reconstrução.

Contudo, mesmo já numa fase de desmantelamento, nos últimos meses, o EI reclamou a responsabilidade por vários ataques mortíferos: numa mesquita no Afeganistão, matando 70 pessoas num casamento; num mercado de Natal, em Estrasburgo, França, que matou cinco pessoas; numa catedral, nas Filipinas, que matou 22 pessoas; ou no Sri Lanka, onde várias bombas mataram mais de 250 pessoas.

Mas, seja qual for a consequência da morte de al-Baghdadi, Donald Trump poderá capitalizar-se politicamente com esta vitória ocidental sobre o EI, calando muitas das vozes que nas últimas semanas o criticaram pelo abandono das tropas norte-americanas do nordeste da Síria.

“Sem dúvida que este é um trunfo importante, sobretudo a meio de um inquérito para a sua destituição”, explica Teixeira Fernandes.

Mas, Dan Hoffman, antigo funcionário da CIA, que conhece bem o funcionamento dos grupos “jihadistas”, considera que o EI é uma organização muito descentralizada e que a remoção do seu líder pode até acicatar células adormecidas espalhadas por vários países para, de forma autónoma, retomarem a actividade terrorista.

E isso seria um enorme risco político para Donald Trump, a meses de uma eleição presidencial, que decorrerá em 2020.

“Não é o fim, mas o início de uma nova era. Uma nova era sob um novo nome de uma nova forma de terrorismo”, conclui o major general Ismail Almahalawi, um veterano que comandou a aliança internacional que combateu o EI no nordeste da Síria.

 

 

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