Director: Lázaro Manhiça

CENÁRIO: A cooperação Moçambique-China numa perspectiva do realismo defensivo (PAULO DA CONCEIÇÃO)

 

A CRESCENTE necessidade, por parte da China, de energia e matérias-prima para sustentar a sua economia, tem motivado a intensificação do relacionamento do gigante asiático com os países africanos, em geral, e com Moçambique, em particular.

Nesta parceria com Moçambique, a China tem conduzido uma política externa assente num realismo defensivo, caracterizado pela primazia da cooperação em detrimento do uso da força na resolução de disputas entre ambos.

A estratégia chinesa tem fundamento na nova configuração do Sistema Internacional pós-Guerra Fria, onde a China,como a segunda potência económica mundial da actualidade, necessita de recursos energéticos e as matérias-prima (abundantes em África, incluindo Moçambique),para manter a sustentabilidade do desenvolvimento das suas tecnologias de informação e comunicação, que são os pilares da sua economia.

Por outras palavras, a pujança da economia chinesa, torna-se assim, crucial para a consolidação do seu poder junto dos outros actores internacionais e possibilita ao gigante asiático aspirar a um aumento da sua influência e prestígio no mundo, reforçando o seu papel nas organizações internacionais sem, obviamente, descurar as suas pretensões em relação a Taiwan.

É pois, dentro deste xadrez que se justifica a intensificação das relações bilaterais entre Moçambique e a China e que sustenta o elevado volume de ajuda que o país asiático concede não só ao nosso país, mas também ao continente africano emgeral, bem como o interesse chinês em expandir o comércio e os seus investimentos na região.

A este respeito, Cláudia Correia (2010) explica que no pressuposto que os recursos energéticos constituem a principal razão para o envolvimento da China com o continente, na medida em que motivam a maior parte do volume de investimento e da actividade diplomática, poder-se-ia pensar que Moçambique é um parceiro secundário para a China, uma vez que não é fornecedor de recursos energéticos, tal como são os países africanos produtores de petróleo e grandes parceiros comerciais da China em África, como Angola, Sudão e Nigéria.

Segundo Correia, esta suposição veio a revelar-se enganadora perante a constatação da penetração económica e empresarial chinesa em Moçambique, que começou a ser visível desde há alguns anos em sectores como os da construção civil, da agricultura e da extracção de recursos florestais, com reflexos nos volumes de ajuda, do comércio e de investimento.

Seria assim, um realismo defensivo chinês que também explora a seu favor a janela de oportunidade criada pela até agora quase marginalização de Moçambique (e do continente africano, em geral), por parte da política externa dos Estados Unidos da América, aproveitando também o interesse de Moçambique em apoios que contrabalancem a forte dependência face aos doadores tradicionais. Estaria assim justificada a oferta de donativos, a concessão de empréstimos preferenciais, a capacitação técnica na agricultura ou o fornecimento de construção de baixo custo da China para Moçambique.

Ressalte-se, no entanto, que pelo facto do investimento chinês em Moçambique, ser essencialmente extractivo e não produtivo, torna-se crucial que as autoridades moçambicanas apostem numa parceria que tenha como foco a produção de riqueza e geração de empregos no nosso país. De outra forma, corre-se o risco de perpetuar a actual tendência de uma cooperação assente em trocas onde as indústrias chinesas recebem madeira e vários minérios, ao mesmo tempo em que os asiáticos inundam o mercado moçambicano com produtos acabados, ameaçando as pretensões de re-industrialização de algumas indústrias nacionais.

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Dialogando: O jornalismo de opinião (Mouzinho de Albuquerque)

 

NUMA aula da disciplina de géneros jornalísticos, na academia, um colega desmaiou depois de a docente rasgar o seu artigo de opinião por, alegadamente, não conter alguns dos princípios básicos para a sua elaboração, nomeadamente a tese, o fundamento e a conclusão.

O estudante desmaiou porque dependia do artigo para transitar do segundo para o terceiro ano do curso de Relações Públicas e Comunicação Estratégica. No entanto, valeu o “recuo” da docente que deu outra chance ao estudante, fazendo-lhe uma pergunta teórica sobre a importância da Lei de Imprensa, ao que respondeu que o que sabia é que a aprovação dessa lei no país resgatou a liberdade de expressão, instrumento com que se guia também na produção e publicação de textos não só de opinião, como de outros noticiosos.

Se a docente teria achado ou não correcta a resposta, o certo é que ela disse que fora do âmbito académico, fazer jornalismo opinativo nos jornais e noutros meios de informação, é necessário que, no caso do jornalista, tenha a capacidade de perceber quais as questões que interessam ao seu público, porque, citando Agenda Setting, a comunicação social não diz necessariamente ao público como deve pensar, mas quais as questões de actualidade sobre as quais é importante ter uma opinião, qualquer que seja.

O facto aqui é que de há algum tempo a esta parte, o jornalismo de opinião tem vindo a ganhar um protagonismo crescente na imprensa moçambicana, tanto nas suas manifestações literárias como de análises e interpretação jornalísticas, principalmente nos jornais diários e semanários. Aliás, é indiscutível que nunca antes essa imprensa, sobretudo os órgãos acima nomeados haviam conhecido um aumento de jornalistas interessados (?) na produção de artigos de opinião. Não nos move qualquer sentimento de inconsonância com a necessidade de termos nos diários, semanários, revistas e outros órgãos de informação mais textos de opinião, mesmo que possam não ter os requisitos exigidos pela docente, o que defendemos é sim, que fora da academia este jornalismo também cumpra efectivamente o seu papel na sociedade em que estamos inseridos, fazendo justiça em nome do povo, claro, não em apenas moldes que contrariem a chamada “Teoria do Espelho” concebida por Water Lppmann, para quem o jornalismo é o espelho da realidade. Se o objectivo é de produzir e publicar textos opinativos nos jornais, como parte do nosso compromisso com a diversificação das fontes de informação numa nação como a nossa, onde ninguém é dono da verdade, a melhor forma de buscar a objectividade é através do contacto com perspectivas e opiniões diferenciadas, porém, com argumentos que enriquecem a visão do leitor e suas convicções, permitindo o combate do discurso do ódio e da intolerância de qualquer índole.

De facto, a lógica informativa está também subjacente às diferentes práticas do jornalismo opinativo, talvez seja por isso que tem se visto ou lido alguns artigos de opinião que indiciam que os seus autores são “vozes” oficiosas do poder instituído ou de qualquer sector. A ser verdade, isso reforça a convicção de que certos articulistas dão visão distorcida dos factos reais que acontecem no país. O bom e útil jornalismo de opinião para um país como o nosso, só será aquele que estiver igualmente isento de qualquer preconceito e livre de condicionalismos nas opções editoriais por exemplo, dos jornais, semanários e revistas, isto é, não manietado pelos interesses obscuros, embora se saiba que este tipo de jornalismo possa estar vinculado com a ideologia de um órgão de informação.

É certo que corrigir o que está mal neste país através deste jornalismo vai levar seu tempo, porém, este (jornalismo opinativo), não pode esmorecer no seu papel informativo, formativo e educativo, actuando com toda firmeza e frontalidade contra,por exemplo, os que ainda persistem nas ilicitudes, sobretudo económicas em benefício próprio e em prejuízo da maioria. Um jornalismo de opinião que lute até o “último dia” pelos valores que o elevem à condição de bem da sociedade, e que nos remete para a noção de que o acto de comunicar, neste caso através de artigos opinativos, é uma das formas fundamentais de existência, não pode passar apenas pela descrição dos factos que não interessam ou para agradar alguém, pois isso agrava a frustração das expectativas dos cidadãos. Dignifiquemos este jornalismo.

Ninguém deve ficar agradado com aqueles que querem levar o nosso jornalismo opinativo que se pretende interventivo, claro, retratando de forma coerente a realidade do país, a esse abismo, pois esse não será um jornalismo de opinião destinado a construir num país com vários problemas como o nosso, instituições fortes, alicerçadas em princípios e valores e cuja actuação transmita à sociedade moçambicana a confiança necessária para se acreditar que o Estado e os seus dirigentes estão a trabalhar com transparência, que o que é bem público está a servir os interesses de todos, de modo indistinto, isto é, sem favorecer alguns.

O jornalismo de opinião é, sem dúvida, um dos pilares para o desenvolvimento participativo e democrático dos diários, sempre que neste se fomente o espírito crítico, aberto e dialogante, se dá cobertura a distintas sensibilidades. Esperamos que os “novos” articulistas tragam igualmente um novo panorama entusiasmante do jornalismo opinativo em Moçambique.

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Retalhos e Farrapos: Gratidão (3) (Hélio Nguane)

 

O MENSAGEIRO percebeu que todos rezavam de olhos fechados e aproveitou-se da situação para fugir da multidão. Pensou em arrumar seus pertences, levar sua fêmea para uma viagem rumo a novas aventuras, mas desistiu, do nada foi tomado pelo medo, ficou de joelhos, tentou fechar os olhos para rezar, mas não conseguia. Quando fechasse os olhos só via escuridão e caos. Então decidiu rezar de olhos abertos. Rogou a Deus, pediu que o Ser Supremo trouxesseágua e esperança ao formigueiro.

- Pedimos água… água, água… água…

Para tornar a oração mais autêntica, o mensageiro do rei elevou as mãos para o céu como quem estápronto para receber a água que pede. Porque de boca fechada não bastava, rezou em viva voz. Da sua boca só saiam duas palavras: peço água. A voz baritonal foi ouvida por outros membros do formigueiro que repetiram as frases em uníssono, com os membros apontando para o céu.

Enquanto o restante do formigueiro estava preocupado com a vinda da água, o mensageiro preocupava-se com o regresso do rei da colina, pois sabia que as massas tarde ou cedo iriam secansar do exercíciopois, depois da reza vem a fome, os olhos abrem-se à realidade. Sem nada a fazer, continua:

- Peço água.

Quase rouco, levanta, limpa a poeira e grita mais paraa multidão:

- Água.

Do nada, cai água, em proporções nunca antes vistas. Parecia um dilúvio. Os membros do formigueiroabraçaram-se. A água primeiro foi consumida pela terra sedenta, depois, virou lama e fez circular a esperança que já havia sido perdida. Os engenheirosnão contavam com tal quantidade de água, mas a sua tecnologia, conseguiu reter o líquido, que por milagre não tirou a vida de nenhum membro do formigueiro.

Três horas depois da vinda da água, o reino festejava, o sol se opunha, o rei voltava do mosteiro e o mensageiro corria em sua direcção.

- Meu rei, já temos água suficiente para duas gerações.

- Graças a tua sensatez.

- Como o senhor sabe?

- Gratidão…

- Ainda não percebo.

Sem rumo, o mensageiro deixou o rei, andou mais de 30 minutos sem direcção. Cansado, sentou num monte e adormeceu.

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LIMPOPO: O percevejo - César Langa Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

ESTAVA, há dias, a conversar com um grupo de amigos, num ambiente de total distanciamento social. Como não podia deixar de ser, um dos temas da nossa conversa era a pandemia da Covid-19, que assola o país e o mundo. Aliás, este tema é quase incontornável nos dias que correm, mesmo entre crianças, com a particularidade, apenas, de ser em contextos diferentes.

Entretanto, nestes encontros, nestes “bate-papos”, conforta-me perceber o optimismo que existe entre as pessoas. Todos, ou quase todos, quando falam do novo coronavírus, não deixam de repetir a frase como “depois da Covid-19…”, ou algo semelhante. Da mesma maneira que hoje se fala de períodos pós fenómenos naturais como os ciclones que fustigaram o centro e o norte do país, também já se desenha o período pós-Covid-19. É salutar.

É muito bom levarmos a vida com esperança, não fosse ela a última a morrer. É sempre aconselhável acreditarmos no futuro, pois,inspira-nos a planificar para que não se faça nada na base de improvisos. As calamidades chegam, torturam os corpos e as mentes, provocam luto e dor, mas depois passam e as pessoas reconstroem as suas vidas. Acredita-se que não seja diferente em relação à enfermidade provocada pelo novo coronavírus.

Foi assim que numa das ocasiões também me lembrei do percevejo. Sei que muitos jovens e adolescentes de hoje não conhecem, ou não se lembram deste insecto, que se instalou em muitas casas e outros locais onde existisse vida humana, como internatos. Percevejo é um bicho mau! Muito mau!

Este pequeno animal tinha (ou tem, se quiserem) o hábito de se alojar nos colchões e outrosesconderijos nas paredes das casas, principalmente as de construção meio precária, para depois entrar em acção, fazendo uso dos “bufet’s” bem recheados, tal e qual o fazem os mosquitos quando encontram um corpo fora da rede mosquiteira. Percevejo não deixava dormir. E não se cansava de se deliciar do sangue humano. Quando entendesseescondia-se em peças de vestuário para continuar com a sua sagacidade assassina, aqualquer momento e em qualquer lugar. Por isso, o percevejo até envergonhava.

Por falar em vergonha provocada por este bicho, lembro-me de um dia, nos tempos da nossa escola secundária, na formatura para o canto do hino nacional. Sei lá por que carga de águas, mas a verdade é que o percevejo soltou-se do interior da camisa de um dos nossos colegas e pôs-se a percorrer o seu corpo até à zona da gola, sem que se apercebesse. Um outro colega viu e, com toda a dose de maldade, fez questão de ignorar a discrição. Alertou o portador do bicho em voz alta, para que todos ouvissem. Foi um vexame, porque o percevejo também era conotado com défice de higiene.

Era comum ver as paredes cheias de sangue, porque quando fosse apanhado era esmagado com toda a raiva possível. Também era comum ver manchas de fumo, nas mesmas paredes, nos travesseiros e camas porque, sendo o percevejoinimigo do lume, este era usado para atacar estes bichos.

Mas depois, quase que do nada, o percevejo desapareceu da circulação. Não sei qual, de facto, terá sido o antídoto, porque enquanto permaneceu no nosso convívio, muitas tentativas foram feitas, incluindo pulverizações domiciliárias. E é mesmo pelo desaparecimento do percevejo que também sonho com o sumiço do novo coronavírus e o mundo voltar à normalidade, ainda que se chame “novo normal.”Porque só com esperança se pode jogar limpo(po).

 

PS:O zig-zag, na estrada da praia de Xai-Xai, já continua, devido aos buracos que, a cada dia que passa, vão aumentando de diâmetro, de profundidade e de quantidade.Com a reabertura das praias, semana passada, neste advento de verão, não quero imaginar o resto.

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Sigarowane: …também no Luís, risos e gargalhadas - Djenguenyenye Ndlovu

UM portão gigante pintado de azul está normalmente aberto e ficas com a doce sensaçãodo belo que vais encontrar lá dentro, e encontras dependendo do foco. À chegada, um rapaz assim para gordinho dá-te um bilhete com um valor de trinta meticais. Não precisas pagar. Tens é de entregar ao Luís, o “dono” do agora lugar das cenas, ali na baixa da cidade. Um campo de futebol com uma vedação choramingas nem deixam olhar duas vezes para não veres as bancadas ou melhor, o que foram bancadas. Depois, Luís, que geralmente está sentado na cabeceira de uma mesa para tantos, com a mão direita apoiada na face direita da Barbuda cara com o olhar, sem expressão, fixo na entrada vai sonhando com a facturação. Desinfectas os sapatos, ou o que quer que seja que estejas calçando, e ocupas  qualquer cadeira de três ou quatro lugares que os clientes residentes deixam. Muito calmamente, aproxima-se, por vezes com um sorriso nos lábios, do cliente. Trata das coisas mesmo com os trabalhadores sem ocupação aparente.

Veste uma camisola por cima de uma camisa que se vê roçando as calças, geralmente jeans de cor azul, pela região nadegueira. Movimenta-se lentamente entre as mesas ocupadas por gente de diferentes escolas com a mesma sobriedade. Pessoalmente leva o prato ao cliente e se preocupa em saber se este está satisfeito e não há ali trabalhador que se porte mal, que todo o cliente é amigo do patrão, mesmo o que entra pela primeira vez. Da cozinha, dizem-na das melhores do que muitas por estas paragens. E quem o diz é gente bem viajada, frequentadora de casas de pasto. Mesmo à experiência de novidades, ali regressam e ali ficam contentes.

Tal como na rua dos Duques, ali também se fala alto, diz-se de tudo que não é nada como muito que se ouve das estações televisivas. Libertam-se as gargalhadas da rua dos Duques para ali transportadas e a outra mesa, que nos primeiros dias ficava escandalizada, agora sente a falta disso quando um Lito ou um Rui ainda não chegaram para a vibração da orquestra.

Pôxa, uma vida de sorrisos, esta!

O lugar está cheio, tem as cadeiras todas ocupadas com gente comendo e bebendo e fumando cigarros, que alitambém se vendem, e rindo alto e gargalhando, que é muito bom para a saúde das bochechas, da face. O Luís, com os cotovelos apoiados no que se pode chamar de balcão, assiste à sedutora paisagem e lança para o ar uma fumarada do cigarro que o mata. Às vezes tem um companheiro ao lado que lhe acompanha no gesto.

Estas coisas são no lugar que se pode dizer esplanada, mas isto não deixa ver mais do que o que te circunda, o que dá uma saudadezinha da rua dos Duques. Aqui não há paisagem para ninguém. No salão, onde também vive o bar, os sanitários, que precisas subir e descer escada, uma que seja, as mesas estão ocupadas. São famílias inteiras e amigos na celebração de qualquer coisa, na celebração da alegria.

Uma mania, um hábito de que não há interesse em abandonar, faz com que não desfrutedos  cozinhados do lugar.

Na mesa estão duas garrafas de Whisky porque um teve uma neta, a primeira, outro porque a galope para a terra que tem vindo a suportá-lo até agora e por pouco tempo mais. Do whisky, para mais a borla, todos se servem a seu bel-prazer, em doses equisitamente generosas.

E…risos e gargalhadas.

O Lito diz que os escuros não podem antecipar as suas celebrações. Têm de ser no próprio dia. Bom, não tendo sido possível no próprio dia, agora a caminho da floresta para cumprir com o ritual, para risos e gargalhadas.

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CONVERSAS AOS SÁBADOS

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