Director: Júlio Manjate

Acento Tónico: Querem África no fundo do poço! - Júlio Manjate (Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

NÃO tenho como começar este Acento Tónico sem vergar-me perante as mulheres do meu país, numa vénia por todas lutas que fazem para que o amanhã seja melhor. Não havendo bela sem senão, fica o meu reparo àquelas que, tendencialmente, privilegiam as aparências, não respeitam a família, e fazem tudo menos os que defendem em público. Em suma, àquelas que envergonham a decência...

O segundo momento é de indignação.

Para quem, como eu, sempre pensou e esperou ouvir de instituições como a Organização Mundial da Saúde (OMS), palavras de alento e esperança em tempos difíceis como este, da Covid-19, sentiu a esperança violentada ao saber das projecções que se fazem sobre África; das leituras que trazem tudo menos o reconhecimento do esforço que os países africanos fazem para evitar que a Covid-19 faça o mesmo que já está a fazer na Ásia, Europa e nas Américas.

Mais do que prestar assistência técnica aos países, entendo que organizações como a OMS têm, nesta fase, o importante papel de estimular os esforços dos países, ajudando-os a acreditar na sua força e capacidade de fazer melhor. Entendo que têm o dever de dar alento às medidas de precaução que os países vão adoptando; exaltando os bons exemplos, em suma, mostrando o quanto vale a pena investir na prevenção.

Há dias um responsável sénior do Centro de Controlo de Doenças da União Africana veio a público anunciar que “África está ainda na madrugada do problema”, sugerindo que nada do que está actualmente a ser feito como exercício de prevenção, vai evitar que o problema seja catastrófico nas próximas semanas.

“É uma questão de tempo”, disse o homem.

E quando achava que já tinha ouvido pragas suficientes, fiquei a saber que Didier Drogba e Samuel E´to, duas estrelas de futebol africano, rebelaram-se com a ideia de algumas pessoas lá do primeiro mundo, de vir testar um projecto de vacina contra a Covid-19 em África, longe das realidades que inspiraram a descoberta de tal droga. “África não é laboratório!”, defendem os dois jogadores, e eu faço coro a essa indignação.

Pessoalmente, não gosto da ideia de alguns ocidentais de achar que, porque somos pobres (?), somos também estúpidos.

Pelos números actualizados desde que a praga eclodiu em finais do ano passado, a Covid-19 já infectou perto de um milhão trezentos mil pessoas, e pouco mais de 70 mil mortos em todo o mundo. África tem cerca de dez mil infectados e perto de 450 mortos. A Europa tem mais de 670 mil infectados e mais de 50 mil mortos, com a Itália a liderar com mais de 16 mil mortos em mais de 50 mil casos. Nos Estados Unidos, o registo de ontem apontava para 1200 mortos em 24 horas!. Afinal, onde seria mais prudente ensaiar-se a vacina? 

Mais recentemente, alguém partilhou comigo uma gravação de um noticiário da RDP, daqueles casos em que a gente fica sem perceber se quem gravou já sabia do que seria dito, ou se é uma daquelas situações de delinquência e falta de profissionalismos nas nossas instituições, que faz vazar assuntos de foro interno. O tal noticiário dizia, citando um pretenso estudo de um tal Imperial College, de Londres, alegadamente reproduzindo pelo jornal Carta de Moçambique, que “65 mil moçambicanos poderão morrer caso o governo não faça nada para deter o avanço do novo coronavírus”.

Pensei: Poxa, então o Governo do meu país tem a fórmula para parar com a Covid-19?

E os governos da China, EUA, Itália, Espanha e até de Portugal, por que será que não fazem ou não fizeram nada, ainda, para parar com o maldito vírus?

Logo conclui: De facto, há muita gente a fazer-se de parva. Basta ver como se esforça em comparar dados referentes a países,  com os de um continente imenso como África!

Por estas e outras, fica a ideia de que o resto do mundo está a unir-se para “tramar” África! Querem ver os africanos afundarem no impacto da Covid-19.  Querem ver mortalhas de gente morta em África, de tal jeito que não conseguem esconder a pretensão de ver, só em Moçambique, mais mortos que todo o cumulativo registado na Ásia, Europa e América.

“Querem contemplar-nos desfeitos!”

Sinceramente!

Comments

LIMPOPO: A nova versão do “senta baixo” - César Langa (Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

ANTES de mais, uma especial vénia à mulher moçambicana, que hoje assinala o seu dia, infelizmente, sem poder celebrar a efeméride como bem gosta e gostaria, por conta deste inimigo comume invisível, o novo coronavírus, que nos tomou de assalto e nos condiciona toda uma forma de ser e de estar, que não nos identificam enquanto moçambicanos.

Li com alguma dose de incredulidade o “De quando em vez” de Alfredo Macaringue (Mano Maca, para nós), na semana passada, no qual aborda os rituais do consumo de “xipawana”, nos bairros periféricos da cidade de Maputo, numa altura como esta, em que o mundo anda aos prantos, devido à pandemia da Covid-19.

Mano Maca fez-me “viajar” para aqueles ambientes frequentados por resignados, onde também se podem achar alguns intelectuais despistados, entre antigos professores, enfermeiros, militares e outros ex-profissionais que, tendo perdido o vínculo com as suas entidades empregadoras, por diversas razões, encontram “amparo” no “xipawana”, uma bebida abundante e de baixo custo, mas, mesmo assim, não totalmente acessível, para aqueles bolsos desprovidos de vinténs. 

São pessoas que vão morrendo lentamente, se tivermos em conta que, para além do consumo desregrado desta bebida alcoólica, as rodas e rodas têm terminado em orgias “à maneira”, muitas vezes sem protecção, propiciando a situação para a propagação do HIV-Sida, que hoje já conta com a “parceria” do novo coronavírus.

Com a declaração do estado de emergência, a vigorar, efectivamente, desde a semana passada, muitas medidas foram tomadas, no sentido de se prevenir a contaminação comunitária desta doença cobarde, que não mostra rosto. Uma das grandes medidas, que considero “mestre” entre todas as recomendações, é a quarentena domiciliar, ou seja, ficar em casa. Mas também há outras não menos importantes, como o encerramento dosestabelecimentos de diversão, como discotecas, bares, barracas e outros similares.

É nesta questão de barracas que torço o nariz, de tanto assistir e concluir que para os meus compatriotas, a “ficha” ainda não caiu. Vi, semana passada, imagens, nas redes sociais, a retratar o exemplo de ambientes que não devem ocorrer nos dias que correm, em plena cidade de Maputo, a capital do país. No mesmo fim de semana, cá pelas bandas do Limpopo, as autoridades municipais apertaram o cerco, obrigando o cumprimento do novo horário para as mercearias, que passam a fechar às 19.00 horas.

As barracas é que andaram com portas fechadas, por forçado decreto. Mas, facto curioso, é que muitas fecharam as portas e mantiveramosseus serviços em dia, mas já numa outra e inovada vertente. Os convivas fazem-se ao interior dos quintais, para aquelas barracas anexas a residências e lá fazem a festa, num ambiente quase semelhante ao dos “senta-baixo”, mas, no lugar de “xipawana”, consomem-se bebidas industriais. Vendem-se bebidas e outros produtos afins, num ambiente aparentemente familiar, para confundir as autoridades fiscalizadoras. E quando o álcool ganha espaço no organismo humano, o distanciamento social deixa de ser tido em conta. As teorias para minimizar a realidade da existência do novo coronavírus ganham mais argumentos.

No meio de todo este enredo, me parece que as pessoas, colectivamente, querem rotatividade laboral, não para ficar em casa, mas para não terem aquele compromisso com o patronato, que consiste em sair de casa para o posto de trabalho e vice-versa. A verdade é que as pessoas não vão ao serviço, mas também não ficam em casa. Atravessam para o quintal do vizinho com barraca, fecham-se, entre convivas e expõem-se ao perigo da Covid-19. É assim que se vive, aqui, em Xai-Xai, acreditando que o mesmo aconteça noutras paragens.

Apesar destas contrariedades, não vou deixar de fazer a minha parte, procurando alertar até que ponto esta doença não só é letal, como também é real. Por favor, fiquemos em casa, pois assim jogaremos limpo(po). 

Comments

Sigarowane: Djenguenyenye Ndlovu - A viagem da mãe

ALEXANDRE, provavelmente não tenhas podido ler a carta que te escrevisemana finda. Na outra terça-feira,como só o posso fazer. Mas tenho de te escrever mais esta, mesmo antes de me responderes a outra mais recente, para dizer das minhas razões para não ter  estado ao teu lado, de te ter abraçado, de contigo vivermos a dor da ausência, da partida final daquela que durante nove meses te carregou no seu ventre, te suportou os chutos dentro da barriga, te trouxe ao mundo dando-me a possibilidade de amar, de juntos amarmos o mundo, as suas gentes com as suas alegrias e tristezas, sem os julgar. De vivermos insucessos na construção da estrada do progresso, sem desistirmos. De levantarmo-nos para a marcha da alegria e da liberdade por este mundo que nos é dado a habitar. E, meu caro Alexandre, como sabido, ela nasceu, cresceu, as novas formas vieram pelo peito, pela zona nadegueira, se tornou jovem. Firmino, não resistiu aos seus encantos. Ela entregou-se de corpo e alma e foi na partilha do leito que nascia o primeiro rebento, que nascia uma mãe. Que nascia um pai. Antes existia uma mulher. Existia um homem. E vieste tu, Alexandre, para dizer mãe. Tomou-a a velhice e então chegou o ladrão: a morte. A separação da alma do corpo.

E não pude estar contigo quando isso era importante. Para mim e para ti.

Não apenas para o cumprimento de um dever cristão. Para homenagear aquela que foi minha mãe. Para no lugar de água, com as tuas lágrimas, com as minhas lágrimas, regarmos as flores por cima do túmulo dela. E chorarmos de novo por não sabermos o que será da vida dela. Com quem estará. Que ainda sabemos com quem/que contar, incluindo a recordação, de momentos e de ensinamentos.

Ela partiu para não mais voltar justo na madrugada do dia que devias receber a carta da saudade que te escrevi, na última terça-feira. Partiu aquela que orando por ti, orava também por mim.

E escrevo-te, meu caro Alexandre Firmino Tchaúque, Syabonga, como gostas, como gosto, de lugar muito distante, hospedeiro de um célebre PACTO, para viver a celebração da concretização de um sonho que permitimos que fosse alimentado, que fosse construído. Escrevo-te de uma cidade banhada por um exuberante verde, alegre, sedutora, acolhedora e hospedeira. De estátuas em bronze, de belo artesanato a que os cordões das bolsas não resistem.

No monumental Hilton, a bandeira de Moçambique evoluiu pelo palanque doutoral nas costas de um jovem de umas das matas do teu país. Era certificado, como outros, pela Vistula University (com estudantes de oitenta e seis países do mundo) como apto para a vida. Para iniciar caminhos e acalentar outros sonhos.

Escrevo-te desta cidade, por estes dias com períodos de cinzenta, mas que nada de temperaturas baixas, o que justifica a monstra presença de turistas e a grande facturação dos quiosques, restaurantes na grande pedonal apenas domingueira que se estende por uns quilómetros. Poucos, sim, mas quilómetros.E os chopinhos, a coca-cola, os sucos de frutos locais e a alegria de viver a noite branca que agora governa estes lugares.

Bom, meu caro Alexandre, tenho de terminar esta missiva, que te chegará às mãos antes do início da minha marcha com destino a esse lugar de lanho, de santolas, de surra. Lugar de repouso de geradoras de vidas, de mães das alegrias para muitas almas.

Syabonga!

Comments

De vez em quando: Bebedores de “xipawana” e o coronavírus! - Alfredo Macaringue

 

O QUE admiro neles é a solidariedade mútua. Mas também me entristecem as  condições em que geralmente se reúnem. Não há higiene nos lugares onde demandam para beber. O único copo que usam não passa pela água, e se passa, é de forma superficial, em recipiente contendo água usada várias vezes. Mas eles estão ali, todos os dias, vivendo cada dia como se fosse o último. Sem se importarem com o que se passa à sua volta, nem com o coronavírus.

Nas pequenas voltas que dei pelo bairro, depois da promulgação do decreto presidencial que declara o estado de emergência, reparei que nos bebedores de “xipawana”, e outra bebidas tradicionais, não mudou nada. O silêncio é o mesmo que vem sendo glorificado desde os tempos. As beatas de cigarro ainda vão dando cabo dos pulmões destes homens sem futuro. O único copo continua a deslizar com a mesma velocidade para dar ainda mais cabo dos corpos já transformados em carcaça.

Entrei numa das “adegas” onde muitos me conhecem, sem disfarce. Sabia que a minha presença podia criar algum desconforto, porém jamais iria ser rejeitado pelo respeito que eles nutrem por mim. Vi sorrisos de júbilo quando cheguei e saudações entusiasmadas, mas tudo aquilo era uma bajulação porque sabiam que dali eu não sairia sem pagar “uma”.

Efectivamente foi o que fiz. Depois da saudação cordial, chamei a senhora vendedeira e dei orientações para que abastecesse em quantidades razoáveis de bebida a todos os presentes. Houve uma salva de palmas, fraca, dada a incapacidade física destes homens condenados à destruição. Alguns quiseram abraçar-me, mas de entre eles saiu uma voz a impedir o acto, e dizia: vocês ainda não ouviram falar do coronavírus?

Sem grande surpresa, notei que muitos deles não dão muita importância à informação sobre o vírus que está a aterrorizar o mundo. Uns perguntavam: mas esse tal bicho afinal vem de onde? Desde que nascemos nunca ouvimos falar de algo com tamanha força destrutiva! “Hi file” (vamos morrer!).

No fundo estes meus compatriotas ou não conhecem até onde vai a perfuração letal do vírus, ou já nãose importam com nada, nem com a sua própria vida. Porque enquanto comentavam o assunto do dia, não paravam de beber, usando o mesmo copo, a mesma caneca, o mesmo garrafão, o mesmo lugar minúsculo. Isso é que me faz muito triste. E para não verter as minhas lágrimas, perante tamanha desgraça, despedi-me com vénia, e ainda fui a tempo de ouvir alguém, de entre eles, a perguntar: “Ata hi kwini ye lweyi”? (de onde vem este indivíduo?).

A luta continua!

Comments

Retalhos e Farrapos: Pessoas -Hélio Nguane (Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

O SOL mais uma vez ressuscitou, ganhou vida e veio para iluminar as pessoas que ganham a vida debaixo dele. Os seus raios entraram na flat, tocaram a mesa com o matabicho requintado. Walter terminou a primeira refeição, entrou no carro, 4x4, fechou os vidros para não sentir o ambiente caótico que a sua cidade vive.

Olhou para as ruas, viu seres a caminharem sem rumo. Ficou chateado ao perceber que estes seres tornavam a cidade que ele habita cada vez mais suja. Viu um desses seres bípedes a limpar a face e depois a atravessar a estrada sem reparar para os carros que estavam a passar.

No regresso do trabalho, 17 horas, Walter observou o mesmo homem, no mesmo local, sentado sem motivação.

O jovem do 4x4 olhou para a cidade limpa e disse: é necessário afastar estes seres bípedes, pelo bem da cidade e das pessoas.

Primeira fome

As janelas estão fechadas, mas o vermelho reflectido na sala/quarto/cozinha mostra que já amanheceu. Mário acordou sem motivação, olhou para a sua companheira e seus dois filhos, de 4 e 1 ano. Sabendo que o caos se apoderou, preferiu sair de casa, pois a sua saída traz esperança aos seus.

Chegou às ruas, observou personagens de filmes futuristas, a guerra não era no estrela, por isso refugiou-se lá e à distância escutou os disparos futuristas.

As 12 horas percebeu que não tinha como desenrolar o enorme embrulho. Às 18 horas teve a certeza que não existiam possibilidades de enviar o valor para a casa. Sentou num dos passeios, o seu corpo ficou derramado no concreto, Mário sabia que não tinha um plano em concreto, uma explicação lógica para dar a família. Sabe que os jornalistas já informaram, com uma dose de sensacionalismo ou sempre a desfavor dele e dos seus colegas.

A fome concreta

Martinha acordou cedo. As janelas estavam fechadas, mas o laranja estava reflectido na sala/quarto/cozinha. Não conseguiu ver o pai, que madrugou para chegar cedo ao trabalho. Olhou para o seu irmãozinho, que recebia o peito da mãe.

Matabichou com as sobras do jantar. Às 13 horas percebeu a mãe inquieta, a ver a televisão. Às 15 horas almoçou. Às 19 horas veio o pai sem motivação. Apesar de pequena, percebeu que o clima era de tensão.

Sentaram na esteira, passaram a refeição como se fosse a última, escutou as lamentações do pai, o medo da mãe, os choros de seu irmãozinho, a cada colherada de comida que levava para boca.

A fome abismal

Judite acordou cedo, preparou o pequeno almoço para o marido, Mário. Deu um banho ao filho, deixou a sua filhinha dormir mais um pouquinho. Fez a limpeza da casa, preparou o almoço, enquanto assistia a televisão.

Judite acordou cedo, percebeu pelo noticiário que a vida da sua família mudaria para sempre. Aprontou o jantar, esperou o marido, jantou. O marido deu várias explicações, tentou justificar a falta de dinheiro, mas a mulher já sabia.

Depois de ouvir as falas do marido, disse para ela mesma: será que eles não sabem que também somos pessoas.

Comments

CONVERSAS AOS SÁBADOS

CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO

Administrator: Rogério Sitóe

Administrator: Cezerilo Matuce

JORNAL DIGITAL


Template Settings

Color

For each color, the params below will give default values
Tomato Green Blue Cyan Dark_Red Dark_Blue

Body

Background Color
Text Color

Header

Background Color

Footer

Select menu
Google Font
Body Font-size
Body Font-family
Direction