HISTÓRIAS E REFLEXÕES: O moçambicano que paralisou um nigeriano (Eliseu Bento)

 

 

LENDOhá dias a obra “Ponta Gêa”, do escritor moçambicano João Paulo Borges Coelho, eis que, a páginas tantas, “dei encontro” com Ganda, muito provavelmente o mais poderoso pugilista nacional de todos os tempos.

Aliás, neste livro, Ganda é mesmo descrito como o ″maior de todos″ numa lista em que perfilam nomes como Danger, Mapepa, Cambeua, Dully (alcunhado pelos adeptos como Number One), Tony Beira, Costumado, Fundice e muitos outros.

Recuperando o percurso de Ganda, Borges Coelho escreve:

Ele era ainda jovem, em Mopeia, e pensando já na viagem que o iria levar à Beira resolveu consultar um feiticeiro. Este levou-o até junto de uma árvore, no meio do mato. Fê-lo sentar-se debaixo dela, fechar os olhos e ingerir uma beberagem que trazia. Quando os voltou a abrir, Ganda olhou para cima e viu, num ramo alto, um leopardo silencioso. Ao sentir-se observado, o leopardo espreguiçou-se cheio de vaidade, o gesto fazendo soltar-se do seu lombo uma nuvem de pêlos que caiu sobre o jovem Ganda, enquanto o feiticeiro rezava e lhe esfregava a pele com aquela chuva brilhante. Quando regressaram, concluída a cerimónia, Ganda tinha já o andar felino que ainda hoje o caracterizava, e aquela força sobrenatural que o celebrizou. Estava pronto. Partiu para a Beira e, embora abraçasse diversas ocupações, entre elas a de sapateiro, foi no boxe que, como sabemos, encontrou a glória. Entretanto, todos os anos  regressava a Mopeia para visitar o feiticeiro e reavivar a sua mangolomera (feitiço que confere força sobrenatural na língua cicewa) feita de pêlo fresco do leopardo, que lhe incutia novas forças e, à pele, um tom acobreado.

Como digo, ″dei encontro″ com Ganda nesta obra de Borges Coelho o que me recordou uma entrevista que tive com ele há já vários anos para as páginas deste jornal na qual contou algumas das suas peripécias pelo mundo do pugilismo.

Trago então hoje de volta a maior dessas peripécias acontecida precisamente na Nigéria para onde Ganda foi levado para defrontar um colosso local.

Nessa entrevista que me concedeu, a minha pergunta foi exactamente sobre se na sua vitoriosa carreira tinha encontrado algum outro boxeiro que lhe tivesse realmente dado muita réplica.

Meio a sorrir, Ganda respondeu positivamente. Nem fez muito esforço para recordar o maior duelo da sua carreira quando defrontou um nigeriano ″muito duro″, nas suas próprias palavras.

Ganda contou-me que combateram, melhor, que se maltrataram até à exaustão. Depois de vários minutos de um duelo de titãs estavam os dois completamente esgotados quando caíram, cada um para o seu lado.

Nesse instante, foram introduzidos numa espécie de estufa de reanimação. Infelizmente, o nigeriano nunca mais recuperou. Perdeu a vida e Ganda foi proclamado vencedor do combate. 

Ficava assim escrita a história de um moçambicano natural de Mopeia, nas margens do grande Zambeze, que paralisou um nigeriano num combate de boxe.

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PERCEPÇÕES: Carta à ex-namorada  (Salomão Muiambo-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

Olá moça!

NESTE mundo de amarguras, tanto se ama como se trai. Esta realidade deve ser concebida pelos homens. É por isso que não estou surpreendido. Conformo-me com o que é esta realidade. Porquê não iria eu aceitar se também faço parte dos homens desta terra? Enfim…

Aceito com tanta naturalidade e com o mesmo sorriso que te dei no dia em que descobriste que te amava. Aceito com o mesmo sorriso que me deste quando descobri que aceitavas aquele amor que era nosso. Enfim. A vida está cheia de segredos. São estes segredos que vamos descobrindo no dia-a-dia.

Nunca quis ser para alguém, uma barreira na vida. É para deixar as pessoas livres que temos que nos conformar e deixá-las optar pelo que pensam. É certo que ficarão para a eternidade aqueles momentos únicos, que juntos passamos. Ficarão para a eternidade aquelas palavras que penetravam endoidamente nas profundezas mais insondáveis dos nossos corações. Para sempre ficarão aquelas lágrimas que verteste por minha causa, pelos males que te fazia. Hoje é dia de pedir perdão. Terei sempre a tua meiga imagem em sonhos. Nas quatro paredes do meu quarto alguém aparecerá e me assustarei na incerteza de saber quem será, na incerteza de ouvir aquela voz que me dizia amor, amo-te; aquela voz que me dizia palavras de consolo. Enfim, devo estar preparado para aceitar esta realidade.

Jamais acreditarei que perdi algo que me completava, algo que era a minha vida, algo que era o meu ser, algo que era a minha existência. Para quem tiver a sorte de te descobrir ou para quem já descobriu o tesouro que és, apenas desejarei que seja muito mais daquilo que eu fui para ti, para valorizar o quanto vales neste mundo.

Rogo para que não seja como sou ou como fui, para não te criar amarguras nem pesadelos que te façam lembrar que eu também fui assim.

Rogo para que faças de contas que não existo e nunca existi no mundo, para não me ferires, sempre que eu pensar que te recordas dos males que eu te fiz. Sei que muito terias feito na vida, mas por minha culpa, minha tão grande culpa, ficaste impedida. Espero que compreendas que a vida é mesmo assim. Está, cheia de amarguras.

Todos os teus nomes, com propriedade, incluindo os diminutivos, ficarão gravados no meu ser como únicas recordações. Estas palavras farão verter lágrimas, mas também serão consoladas quando em minha frente contemplar os teus retratos que, aliás, ainda permanecem no meu quarto, no meu álbum e na minha sala, para não falar da minha memória. Não os tirarei jamais. Ficarão para a eternidade e serão para mim o mesmo que te ver bem juntinho de mim. Imaginarei sempre, esses teus cabelos pousados no meu peito, esses lábios quentes que se desfaziam nos meus e constituíam apaixonados beijos, ambos embebidos num louco devaneio.

Enfim, não quero mais recordar de tais passagens. Que elas fiquem apenas para nós os dois. Resta-me apenas, desejar-te o bem. Junto de ti estarei, como disse, em sonhos e recordações. Em imaginações também.

Agora, transforme estas letras e este papel em cinzas logo depois de acabares de ler, para evitar que te lembres deste incómodo que te dei. Jamais falaremos do que aqui escrevi para não recordarmos tristezas e amarguras. Confesso finalmente, que deixas um vazio. Confesso finalmente, que sempre te terei como alguém a quem amei, amo e amarei para todo o sempre.

Aquele xi coração!...

Feliz o 14 de Fevereiro, Dia dos Namorados

Até para a semana!

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DIALOGANDO: O sair de cabeça erguida…  (MOUZINHO DE ALBUQUERQUE)

 

QUEM nunca pensou numa demissão na vida profissional ou no exercício de uma função de chefia no sector público ou privado quando chega a sua vez diz, de forma vigorosa e convicta, que sai de cabeça erguida e com a sensação de dever cumprido. Que deu tudo o que podia e sabia. Pelo menos é isso que se tem ouvido dizer no nosso país.

 É óbvio que as reacções das pessoas que são demitidas das suas funções podem ser várias mas, independentemente disso, os que têm deixado funções por vários motivos ou na condição de demitidos têm dificuldades em assumir também aquilo que constituiu o seu fracasso ou erro no desempenho da sua função porque, aparentemente, não querem dizer a verdade perante a sociedade a quem tudo prometeram fazer para melhor servi-la, e limitam-se a dizer que saem de cabeça erguida.

Essas atitudes tornam-se mais preocupantes quando essas pessoas, mesmo reconhecendo e admitindo as falhas que cometeram como dirigentes ou mesmo metas não alcançadas durante o desempenho da sua função, insistem nisso, isto é, em dizer que saem de cabeça erguida, achando que estão certas e as outras é que estão erradas. Que hipocrisia?

Deve-se acreditar que, por exemplo, no processo da governação municipal surgem, por vezes, “aventuras” destrutivas protagonizadas por alguns responsáveis que chegam a conduzir a becos sem saída, expondo-se a si próprios ao perigo de incorrerem nuns malefícios que podem prejudicar esse processo, tal como terá acontecido na autarquia da cidade de Nampula.

Obviamente que esses não saem de cabeça erguida, mas sim, cabisbaixo, ou melhor dizendo, saem pior do que o esperado deles. Por isso, terá sido com indignação que os munícipes da cidade de Nampula ouviram, por exemplo, da boca do presidente da Assembleia municipal cessante, do MDM, Américo Iemenle, a dizer na cerimónia de tomada de posse do seu sucessor da Renamo, Tertuliano Juma, que sai de cabeça erguida por ter dado a sua contribuição na resolução dos problemas da urbe.

Américo Iemenle já foi presidente interino do Conselho Municipal da Cidade de Nampula depois da morte do edil, Mahamudo Amurane.

E a percepção que se tem, em função dos vários e graves problemas que surgiram durante o tempo em que esteve no cargo, é de que ele não terá sido bom exemplo em matérias de gestão autárquica. E porque não terá servido, como titular do órgão autárquico, com transparência o interesse público, surgiram, como por exemplo, muitas construções, sobretudo de estabelecimentos comerciais em locais impróprios, violando postura camarária da cidade de Nampula.

É uma situação que vem sendo constatada pelos munícipes que esperam que os novos órgãos do Conselho Autárquico de Nampula, recentemente empossados, venham a inverter o cenário triste de gestão municipal que se vive nesta cidade. Se bem que o tempo é demasiado precioso para não aproveitarmos, então, espera-se que igualmente esses órgãos aproveitem o máximo dos próximos cinco anos do seu mandato, tomando iniciativas ousadas para o bem do município. 

Dissemos ousadas porque na situação em que se encontra a cidade de Nampula, em termos da proliferação de construções desordenadas exige “coragem” e determinação, porque transparece que os actuais gestores da edilidade não estão a conseguir corrigir esse problema que se acredita, como está dito, que o seu surgimento tenha a ver com aparente ganância pelo dinheiro dos antigos gestores da autarquia.

Contudo, é nossa esperança de que Paulo Vahanle, edil de Nampula, cumpra o seu mandato com eficiência e, sobretudo, responsabilidade, impondo ordem e disciplina na construção de infra-estruturas, no exercício de comércio informal, bem como melhorando o processo de remoção dos resíduos sólidos, as condições de circulação nas vias de acesso da periferia e noutras áreas, para que de facto, no fim saia de cabeça erguida.

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Retalhos e Farrapos : Esboço de cartas sem efeito*  (Hélio Nguane)

 

Maputo, Fevereiro de 2010

Meu caro Gil Abrantes

 

ESTÁ é a primeira carta que redijo. Nunca fui bom em palavras, apesar de ouvir desde novo que meu pai dominava a arte da retórica. Escrevo para retribuir a carta que só encontramos há dias. Copiei o endereço e mandei pelo correio. Nem sei se chegará ao destino. A verdade é que sou órfão. No meio disso, cá estou.

Do rebento…

Cristóvão Júnior

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São Tomé, Março de 1973

Senhorita Beatriz de Assunção

 

Julgávamos que o Cristóvão era imortal, o seu sorriso fascinou a todos nesta ilha. Até os nossos companheiros da Ilha do Príncipe já conheciam as histórias apaixonantes deste rapaz mestiço vindo de um país distante de nome Moçambique.

Deus conhece o seu baralho, mas quando baralha por vezes baralha a vida de dois seres que querem ter algo em comum. Ele já tinha o dinheiro dos bois e o valor para a festa do vosso casamento. Nem sei como redigir, é com lágrima que rabisco esta carta. Ele vai te amar além da vida. Na embarcação sairá um jovem marinheiro com um envelope caqui, com o valor que ele reuniu aqui na ilha. Infelizmente, ele não virá, a morte lhe arrebatou, padeceu de paludismo. Minhas condolências.

Do companheiro que ele fez aqui na ilha

Gil Abrantes

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São Tomé, Fevereiro de 1973

Minha querida noiva

 

É fácil sermos dois. Porque o carinho é um sentimento que faz os seres serem um só. Quando dois seres se beijam, transferem energias, juntam os lábios, a saliva circula de boca em boca, sem distinguir o corpo de origem e o corpo final.

O abraço transfere forças, aperta os ossos, aquece o corpo, conecta os escolhidos para este acto.

Na conversa as palavras escapam da boca, umas mais pensadas, outras embaladas pelo sentimento e nível de descontrolo de quem gosta. Na paixão, as palavras ganham outro sentido, o impacto está na entoação, na expressão facial que o rosto da luz. Na conversa são os pensamentos que trocam impressões. As palavras, para muito são a melhor forma de conhecer alguém. De certa forma. Mas elas mentem. O beijo e o abraço são mais espontâneos. Palavras espontâneas nem sempre são bem acolhidas.

Sexo: duas almas nuas, que despem os medos e se entregam a emoção. Sexo sem sentimento é um exercício físico, apenas isso. Sexo com paixão elimina os pudores, as reticências, os talvezes, as dúvidas, pois, quem entrega o corpo com paixão, entrega-se à relação.

Tempo: são minutos que fazem toda a diferença. Segundos ou podem ser transformados em pérolas. Em cinco minutos o mundo pode acabar, mas em cinco minutos não se constroem castelos. Tempo é sinónimo de gestão, pois, gerimos ele consoante as prioridades. Damos tempo ao que nos faz bem, banalizamos o que nos repele.

Concessões: Temos de aceitar as diferenças para ceder, fechar os olhos e ouvidos pelo bem da relação. Temos de entender os outros.

Distância: São Tomé e Príncipe é distante minha querida, mas não são os quilómetros que vão separar duas almas unificadas por um sentimento sublime, que vai viver para além da vida. O navio parte daqui há uma semana, espero que as ondas do Atlântico sejam pacíficas e em breve trecho conheça o seu Índico corpo.

Do teu noivo quase marido.

Cristóvão

 

*Ficção

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TIMBILANDO: Violações repugnantes (Alfredo Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

POR mera coincidência, no passado domingo, dois órgãos de comunicação social trouxeram em destaque e à baila um tema que tem estado a incomodar meio mundo e de modo particular, a sociedade moçambicana. Trata-se do tema das violações sexuais, tanto à crianças, raparigas, como a mulheres adultas.

Estes casos têm de facto estado a alarmar a sociedade nos últimos dias, mas eles vêm de longe. Há poucos dias, soubemos de violações sexuais que culminaram com mortes em bairros como Zona Verde, T-3 e Ndlavela, e que os habitantes desses locais afirmam que são recorrentes. Como poucos ou nenhuns têm a devida punição então a situação anima os prevaricadores.

Um semanário e uma estação televisiva, no seu tema da semana, cada um à sua maneira, trouxeram este tópico com episódios e dados estatísticos sobre a sua prevalência e tratamento.

O semanário refere que no ano passado, o Departamento de Atendimento à Família e Menores Vítima de Violência registou 1186 casos deste género e que continuam a ocorrer. Este número é de registo, sabendo-se que há vários casos que não são registados por não chegarem às autoridades, por várias razões. Ou por vergonha das vítimas, ou por silêncio delas e das famílias, ou porque foram ameaçadas ou ainda a vítima não sabe a quem recorrer em casos destes, pois a família parece alhear-se à essas situações e culpabiliza a vítima.

Dos casos revelados, uma parte terminou com contaminação de HIV pelas vítimas que hoje carregam a doença, que como se sabe não tem cura, e tem também as sequelas da violação que deixou marcas físicas como psicológicas. Tudo isto é chocante.

A estação televisiva relatou vários casos ocorridos no distrito de Marracuene, província de Maputo, onde diz que ocorrem 40 casos destes por mês e contou o caso duma violação de menor com consentimento e envolvimento da mãe da vítima. O agressor é o padrasto desta. Tanto ele como a mãe estão nos calabouços e aguardam julgamento. A menor tem 12 anos de idade e foi recolhida para um infantário com traumas de âmbito psicológico.

Também foi relatado o caso de um outro “predador” no Intaka, detido por violar uma criança de colo, sua neta.

Podíamos nos alongar com esses episódios, que muitos culminam com a morte, como referimos, pois os violadores matam as vítimas com medo de serem descobertos. Depois ou a vítima se suicida por pensar que não vale a pena viver, ou ainda, esta conserva traumas psicológicos ou mesmos físicos.

O que aconteceu a esta sociedade que já não sabe separar o que é mau do que é bom? O que aconteceu a ela para tanto comportamento indecente e desviante, para este modo de ser, para este mau carácter, para estes maus comportamentos?

Pensamos que o que mudou está mesmo na própria sociedade. Já não se valoriza os bons comportamentos, os bons costumes, as boas regras. Já não há nada que seja tabu. Os adultos já não chamam atenção às crianças pelos maus comportamentos, pelo contrário, eles próprios agem duma maneira censurável, que é apreendida pelos menores. Já não se age moralmente, pelo contrário, age-se imoralmente. Os adultos já não sentam com as suas crianças dando um pouco de educação moral. Já não se ensina pelo exemplo. Deixam tudo para as igrejas, muitas delas também preocupadas com as peneiras de dízimos.

Não conseguimos construir, como os nossos pais e avós fizeram, as bases que vão guiar as crianças no futuro, que vão guiar a sua conduta como homens, determinando-lhes o carácter, o altruísmo e as virtudes, ensinando-lhes a melhor forma de agir e de se comportar em sociedade. Não possuindo esses valores desde cedo, agem e se comportam em sociedade de maneira mais ignóbil possível.

Por isso tudo, temos aqui gente a comportar-se abaixo de cão, sem dignidade nenhuma, pelo contrário, agindo contra a própria sociedade, com comportamentos fora de comum. Estamos a criar nas nossas casas, verdadeiros psicopatas. Tudo isso é chocante.

 

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