À LUPA: Mugabe e a “... a pregnant declaration”  (LÁZARO MANHICA-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

 

NA minha carreira jornalística, tive a sorte de cobrir muitos eventos da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) e da União Africana e, por esta via, a possibilidade de ver e ouvir intervenções do ex-presidente do Zimbabwe, Robert Mugabe, cuja cerimonia fúnebre oficial aconteceu no sábado, em Harare.

Homem de três licenciaturas, uma das quais em Economia pela Universidade de Londres, Mugabe tinha um inglês fino, o que, associado a sua eloquência, frontalidade, discurso incisivo fazia dele peculiar. Quando chegasse a sua vez de se pronunciar nas cimeiras sobre grandes assuntos africanos, todos, incluindo os seus pares, prestavam atenção e o seu discurso era intermeado por aplausos e risos, porque usava parábolas e ironias. Não tinha papas na língua, não tinha medo de dizer as coisas pelas próprias palavras, não punha verniz nas palavras.

Conheci o Zimbabwe numa altura em que a imagem do país, que um dia Samora Machel chamou de Pérola de África, devido à sua então pujança económica, continuava alta e exemplo no continente. Um país próspero, com uma agricultura robusta, acompanhada de um agro-processamento de invejar, para não falar da industria têxtil, de calçado, entre outras.

Voltei algumas vezes a este país e de cada vez que fosse, tal como sempre em missão de serviço, o que me levou nalgum momento a chamar de minha segunda pátria, ia denunciando a degradação da vida dos cidadãos devido a sanções que se seguiram à política de reforma agrária, cujas consequências dividiram os zimabweanos e o transformaram de herói para vilão.

Provavelmente porque subestimou os seus inimigos externos, os donos do capital, ou seja, os investidores que fecharam a torneira e o país acabou por resvalar no precipício do qual continua. Até hoje.

Lembro-me no auge da crise, em que de manhã se tomava um café a cinco milhões de dólares zimbabweanos (Zim dollars), para à tarde o mesmo café custar sete milhões de Zim dollars, em resultado da inflação. Foi no dia em que andei com um trilião de dólares zimbabweanos na pasta.

A tudo isto, Mugabe reagia com alguma virulência, que só o domínio das figuras de estilo e o seu humor tornavam o discurso de Mugabe interessante de ouvir.

Aliás, fora a sua contundência no discurso, Mugabe era um estadista com elevado humor. Um dos momentos que guardo na memória e achei bom partilhar com o leitor foi ter visto Mugabe, depois de uma cimeira da UA quase que encostado à porta da sala de conferências do Sheraton Hotel a falar à imprensa local.

Entre os jornalistas estava uma jovem grávida. Perante a insistência da moça para o Presidente responder a uma questão, Mugabe olhou para ela e disse: “I think I have made a very pregnant declaration”, que na tradução livre seria qualquer coisa como “acho que fiz uma muito grávida declaração”. Portanto, uma rica, cheia declaração, de tal modo que não precisava de partilhar mais nada com os profissionais da comunicação social.

E a conversa terminou aí, já entre gargalhadas. Do próprio Mugabe e dos jornalistas, incluindo-me.    

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″Não interessa se és um bom dançarino, tens que sair do palco. E tens que saber em que momento sair desse palco. Quando Mwalimu Nyerere pediu para sair na Tanzania, não foram poucas as pessoas que pediram para ele ficar. Mas ele estava claro que aquele era o momento certo para deixar o poder. Tens que saber quando sair. De facto, o melhor momento para sair do palco é quando as pessoas ainda querem que fiques″.

As palavras são do professor queniano Patrick Otieno Lumumba que, numa das suas várias palestras por diversas universidades, comparava o tempo que um dançarino deve despender numa actuação à longa permanência de Robert Gabriel Mugabe como Presidente da República do Zimbabwe.

E o professor queniano prosseguia:

″O problema que tenho com o presidente Mugabe é que ficou muito tempo e as instituições sofreram. Resultado é que não há economia no Zimbabwe. É o único país no mundo em que não se sabe que moeda usa. Umas vezes usa o rand, outras o bond, outras vezes o dólar americano. O presidente Mugabe é um grande homem, um intelectual, mas ficou muito tempo. Por muito bom que sejas, quando ficas muito tempo, estragas. Não interessa se és um bom dançarino, tens que saber escolher o momento para sair do palco″.

Sob risco, digo eu, de sair porque já não te querem. Ou seja, sair escorraçado, corrido e vaiado, como diz a gíria popular. E acabou sendo assim com Robert Mugabe.

Vem, claro está, este arrazoado bem a propósito da sua morte, ele que foi uma das maiores figuras da história do Zimbabwe, da África Austral e do continente negro em geral.

Hoje, após esse seu passamento, é triste ouvir que a sociedade zimbabweana se encontra dividida entre glorificá-lo e diaboliza-lo.

Glorificá-lo porque, pesem todos os “apesares”, é consensual que Mugabe foi o maior artífice dos melhores momentos que o país viveu nos anos que seguiram à 1980 quando celebrou a sua independência do jugo colonial britânico.

Conseguiu, por exemplo, dar ao seu povo um dos melhores níveis de educação do continente além de catapultar o país aos mais altos patamares de crescimento económico.

No entanto, no reverso da moeda, já nestes últimos anos, colocou o Zimbabwe com os mais altos níveis de inflação do mundo deixando-o de rastos como aliás ainda se encontra com milhares de cidadãos deslocados e outros vegetando dentro das suas fronteiras.

Devo, desde já, concordar com o professor Lumumba que o grande pecado de Robert Mugabe foi não ter conseguido escolher, apesar de toda a sua intelectualidade, o momento certo para sair do palco depois de ter sido o grande “dançarino” que foi nos primeiros anos da independência do seu país.

E o resultado é este: muitos zimbabweanos passaram a julga-lo pelos seus feitos nos últimos anos em que se apegou ao poder até arrastar-se, cair e dormir em eventos públicos enquanto o povo dormia com fome num território com imensas potencialidades.

Agora, muitos zimbabweanos preferem, portanto, esquecer-se de tudo quanto ele fez e representou crucificando-o pelo facto de os ter desgraçado nos últimos anos da sua “desgovernação” ainda que não lhe tenham faltado reprovações por parte de muitos outros estadistas, como Nelson Mandela, só para citar um.

A essas reprovações, não raro, reagia de forma violenta e até com insultos despudorados sublinhando que se deviam preocupar com os seus países porque o Zimbabwe era sua exclusiva propriedade.

E assim será recordado pelos piores motivos, principalmente por parte dos mais jovens que vêm o seu futuro hipotecado só por causa da teimosia de um tal libertador da pátria.

Mesmo a tal reforma agrária que empreendeu, há fortes indícios de que a fez já com propósitos eleitoralistas para perpetuar-se no poder porque, como dizia, só Deus podia tira-lo de lá.

E este foi o inglório fim de um homem que teve tudo para sair então com toda a glória. Mas como, de facto, não soube escolher o melhor momento para se retirar do palco saiu chamuscado e pela menor porta.

″Não interessa se és um bom dançarino, tens que sair do palco. E tens que saber em que momento sair. De facto, o melhor momento para sair é quando as pessoas ainda querem que fiques″.

Aqui está o exemplo para muitos outros líderes que pululam por aí!

 

Eliseu Bento

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PERCEPÇÕES: Arruaceiros! (Salomão Muiambo-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

 

SENTADO à beira de um rio, algures na província de Maputo,e matutando sobre as vicissitudes da vida, estava eu quando passava por perto uma caravana política, propalando, aos quatro ventos, sobre aquilo que é o seu manifesto eleitoral.

“Votem neste partido. Nós somos os melhores” - gritavam os componentes da referida caravana, cantando e dançando ao som da música variada que saía dos altifalantes improvisados por cima de uma das várias viaturas integrantes da jornada.

Ali bem ao lado, a caravana parou para se refastelar. Era dia de sol intenso e os componentes entenderam que goela abaixo de uma 2M, Txilar ou até de uma água ou qualquer outro refrigerante seria importante catalisador para prosseguir a marcha com força e entusiasmo, difundindo as linhas de orientação desse partido político, caso conseguisse a eleição a 15 de Outubro.

Enquanto isso, curiosos assistiam,gratuitamente,àquele espectáculo que se tornou desagradável quando alguns integrantes da caravana eleitoral começaram a consumir, excessiva e abusivamente, bebidas alcoólicas. De um momento para o outro, a propaganda política foi substituída por rodopios ao som da música entoada atabalhoadamente pelos militantes dessa organização política.

Eu assistia,tranquilamente,a todo o enredo, enfadonho, diga-se de verdade, porque de entre aquela vozearia soltavam-se palavrões, atentatórios à dignidade humana, à própria democracia, à paz e tolerância. Ali proferiam-se discursos desconexos em claro desrespeito à intimidade da vida privada de alguns concorrentes às eleições e até dos que não tendo nada a ver com a política assistiam àquela gritaria, qual campanha eleitoral.

De repente, dois jovens que aparentemente nada tinham a ver com aquele espectáculo, mas que transitavam por perto da caravana, foram alvos de uma agressão que culminou em verdadeiro pugilato, misturado com exercícios marciais. O bom dos jovens é que nalgum momento, sentindo-se impotentes para prosseguir a luta, face àsuperioridade numérica daquele grupo, puseram-se ao fresco com paus, pedras, garrafas e outros instrumentos às costas. Ainda bem que do incidente não se tenham registado danos enormes.

Eu, então, que me encontrava nas imediações, não tendo coração para assistir àquela bandalheira retirei-me,sorrateiramente, para lugar seguro antes que fosse vítima imaculada da fúria daquela multidão. Por perto não se achava nenhum agente da autoridade policial a quem pudesse reportar os factos, até que, se me permitem, aqueles “arruaceiros de barracas” se retiraram do local.

Tomei conhecimento que antes desta arruaça, os mesmos haviam protagonizado acto idêntico em outras paragens,“manchando” a verdadeira festa da campanha eleitoral.

Estes, não são dignos de representar seja qual for o partido político. Fomentadores da violência, de ideologias discriminatórias, ofensivas à honra e consideração devidas aos dirigentes de outros partidos políticos, facto que lhes remete antecipadamente ao precipício político no plebiscito de 15 de Outubro.

Era desejável que a campanha eleitoral decorresse sem estes sobressaltos, que ela fosse um momento de festa em que livre e publicamente, os partidos políticos, coligações de partidos políticos e outros difundissem as suas políticas, os seus manifestos, numa corrida limpa que lhes levaria, quem sabe, a inquilino da Ponta Vermelha, à maioria de assentos na casa do povo, aos governos provinciais e respectivas assembleias, fortalecendo a democracia moçambicana.

Paz eterna aos dez militantes da Frelimo que perderam a vida na tarde de quarta-feira passada, na cidade de Nampula, no final de mais uma jornada política do candidato presidencial desta formação política.

Até para a semana!

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De vez em quando: Hoyo-hoyo Verão Amarelo !  (Alfredo Macaringue)

 

 

O JOSÉ Machado, meu colega de longos e longos anos, já teve um carro da marca Volkswagen carocha, numa altura em que a manutenção do mesmo tornava-se difícil, tanto é que nem agente para a assistência técnica existia em Maputo. Estávamos nos princípios do ano 2000, e o Machado trazia uma espécie de obsessãopor aquele tipo de carro, chegando mesmo a ignorar avisos de pessoas bem entendidas na matéria que o desaconselhavam na escolha. E ele lá comprou a viatura, que tinha, para além dos predicados pretendidos pelo homem, a vantagem de sair a um preço de bagatela.

Machadinho, como sempre o tratamos carinhosamente na Redacção deste “Notícias”, estava feliz com o seu calhambeque. O que ele não esperava era da reacção do seu outro colega, o António Muiambo, “Tio António”, (já falecido), que apelidou o carocha de “Verão Amarelo”, em alusão a cor que ostentava (amarela), numa altura em que a Mcel promovia festivais de música que levavam o logótipo de “Verão Amarelo”. Tio António era um homem criativo, com humor por vezes sarcástico. E na Redacção todos deliraram quando ele dizia que o José Machado agora anda num “Verão Amarelo”.

Lembrei-me desse pequeno episódio que pode ter sido registado numa Redacção onde António Muiambo marcava diferença pela sua forma particular de ser. E também o Machadinho surpreendeu os colegas quando de repente aparece pendurado ao volante por causa da sua estatura meã. Porém, como todos os homens com capacidade de acompanhar a dinâmica da vida, chegou um tempo em que ele percebeu que o Volkswagen já não tinha “pernas para andar”. Mudou de marca.

Mas  esta “brincadeirazita” toda vem a propósito do Verão que já bate à nossa porta. Antes de Setembro terminar já estamos com saudades do Inverno, esquecendo-nos que a variação das temperaturas é benéfica para o organismo. Neste tempo, muitos que consumiam pouca água, passarão, por força da circunstância, a beber mais este líquido precioso. Entretanto, um aspecto deve ser tido em consideração: beber muitos líquidos é suposto beber muita água, e não muita cerveja como alguém dizia por aí: “estou a beber muita cerveja porque os médicos aconselham a beber muitos líquidos durante o Verão”. Ora essa!

Pelo sim, pelo não, o Verão já está a “bater”, e Maputo é uma cidade sufocada. Queres um lugar para apanhar ar e não tens. Aos fins-de-semana a única praia que temos aqui perto fica abarrotada. Todo o mundo vai para lá, tornando, dessa forma, a sensação de repouso quase nula. Mas é a cidade que temos. É a nossa cidade. Sendo assim, resta-nos apenas desejar boas vindas ao tempo.

Hoyo-hoyo Verão amarelo!

A Luta Continua!

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Dialogando: E a seguir?  (Mouzinho de Albuquerque)

 

 

UM psicólogo brasileiro disse que perguntas são extremamente importantes, pois mostram àquele que fala que você compreendeu mental e psicologicamente a sua mensagem. E podem ser utilizadas para fazer uma breve revisão ou para resumir aquilo que foi absorvido não apenas em relação a factos, mas também, e sobretudo, no tocante às ideias centrais e ao tema ou essência da mensagem.

E foi assim que quisemos fazer o uso das perguntas para produzirmos este escrito de reflexão sobre as mensagens, recados, recomendações e apelos deixados pelo Sumo Pontífice que acaba de visitar o nosso país.

Claro que o escrito foi produzido partindo do pressuposto segundo o qual a concordância cega e absoluta não é saudável para ninguém, como não o é o acto de discordar por discordar, sem pensamento alternativo.

Uma visita que se conclui ter marcado diferença pela sua importância para a solução dos vários problemas que o país tem, já que esperávamos ser abençoados para o efeito, é óbvio que se pergunte sobre o que vai acontecer efectivamente depois no país, que possa trazer mudanças positivas e duradoiras.

Até porque foi uma visita que criou expectativas exageradas no seio dos moçambicanos, que esperamos tenham sido correspondidas pelo Papa através dos discursos que proferiu nos vários actos oficiais e privados.

Um dos pontos principais e importantes focados pelo Sumo Pontífice e que terá correspondido essas expectativas, é de ele ter apelado a necessidade da promoção da reconciliação nacional, procurando realmente as formas de curar as feridas que foram causadas pela discórdia entre as pessoas do mesmo país.

Na realidade, nenhuma reconciliação genuína é fácil, por mais que seja esperada, precisa de muito trabalho, feito sem hipocrisia política.

Todavia, uma visita com óbvio significado como aquela, nunca deixaria de ter um tratamento especial numa nação como a nossa, tal como se assistiu, tanto mais quando acontece em tempos em que se aconselha reflexão sobre algumas questões preocupantes como a paz, dívidas ocultas, pobreza, corrupção e outras.

Ainda bem que o chefe da Igreja Católica se tenha pronunciado sobre a necessidade de combate à corrupção, inclusão no processo de desenvolvimento, consolidação da paz e união entre moçambicanos e mais coisas úteis para o nosso país.

Por isso, esperámos que depois da visita do Papa o combate à corrupção tenha resultados visíveis, a alegria dos jovens não seja “roubada”, dando lhes o que merecem, o que nos une não seja vingança e ódio, que a riqueza não seja concentrada num grupo restrito de cidadãos, isto é, não continue a ser acumulada de forma ilícita e que o jornalismo não seja visto “activismo e propagandista”, mas sim, se consolide as liberdades de expressão, imprensa e de manifestação.

É preciso sublinhar que a corrupção e impunidade que acontecem de forma persistente no país, têm um impacto muito negativo directo na capacidade do Estado e dos seus funcionários e agentes executarem qualquer programa de governação, daí que vale sempre a pena tomar-se decisões sem contemplações, ainda que seja tarde demais, desde que sirvam para corrigir esses problemas em prol do bem do povo.

Se bem que podemos analisar a estadia do papa no nosso país debaixo de outros pontos de vista, mas o mais importante é que depois da visita em Moçambique tenham sido reforçados os mecanismos de transparência e de boas práticas a todos os níveis, com vista a que o país possa avançar para um sistema de governação mais eficiente no interesse da sociedade.

Ainda bem que ele tenha “puxado” orelhas ao poder político instituído para que trabalhe nesse sentido, contando com a participação de todos e em igualdade de direitos e oportunidades, não obrigando o povo a pagar dívidas que nada tem a ver com a sua contratação.

Se a nossa auto-estima, como moçambicanos, deve vir do desejo ou pressuposto de termos consciência de que o espaço construído pelos nossos antepassados também nos pertence a todos, então a visita do Papa deve servir de pretexto para pensarmos sempre que somos capazes de fazer melhor, para que nesse espaço a vergonha da pobreza absoluta não seja eterna, permitindo que por exemplo, a exploração dos naturais reflicta na melhoria das de vida do povo, passando também pela inversão das políticas de desenvolvimento nacional, que exigem à eliminação de assimetrias regionais, sociais e outras.

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