Director: Lázaro Manhiça

NUM’VAL PENA!: O suicida da “24 de Julho” (Leonel Magaia)

 

O PRÉDIO não deve ter mais de 15 andares. Mesmo ao lado da FNAC, hoje Interfranca. Na “24 de Julho”.  Na altura um supermercado de referência, se calhar o único do país com características de “loja grande”. Aliás, a então FNAC era uma espécie de loja para cooperantes, diplomatas e chefes grandes, aquela malta que andava de balalaicas cubanas e faziam-se transportar em vistosos Ladas, veículos soviéticos. Quem ali entrava saía cheio de estilo, pois ficávamos todos a saber que até pão comprou com moeda forte, o dólar. Aquilo não era para um “madjembene” qualquer. Os tempos eram de estiagem financeira, mas os ventos do pós-independência e discursos de superação faziam-nos fortes e resilientes. O sacrifício valia a pena. Circulava eu pelo passeio da FNAC, da “24 de Julho”, absorto nos meus pensatempos. Um rapaz aborda-me e mete conversa sobre uma presumível amizade entre nós. Não me recordo do jovem de nenhuma paragem. Garante-me que fomos colegas no “primário”.

“- Este gajo quer me cravar alguma coisa…”– penso para comigo mesmo enquanto de forma subtil vou me afastando do rapaz. Foi-me seguindo forçando ao refrescamento da minha memória. Andávamos nisso quando, um pouco depois da FNAC, junto ao prédio que não deverá ter mais de quinze andares, sentimos e ouvimos bem atrás de nós um baque surdo, sólido e violento, seguido de um gemido cadavérico e gélido. Um calafrio trespassou a minha espinha, antes mesmo de olhar para trás. O som de algo vindo do alto do terraço do prédio, que se espalmou no chão, partindo-se e ricocheteando pelos cantos líquidos viscosos era chocante. Seguiu-se um silêncio sepulcral de menos de dez segundos depois daquele violento baque surdo. Dez segundos que pareceram dez horas. E depois foi a algazarra total. Gritos vindos do alto do prédio, mas também de quem passava por perto. Entreolhamo-nos trémulos e virámos para ver o que afinal tinha caído bem atrás de nós. O cenário não podia ser mais macabro e dantesco. Um corpo jazia inerte no chão. Literalmente partido e esvaindo-se em sangue por todos os lados. Claramente que o crânio já não tinha concerto. Estava partido ao meio, fazendo com que os olhos desistissem da cara e o couro cabeludo fosse um empapado cinzento-escuro. Os dentes espalharam-se pela calçada, fazendo companhia a restos do que antes terão sido entranhas com funções digestivas. Parecia um cenário de guerra macabra. O meu “conhecido da primária” não conseguiu evitar que o estômago entrasse em convulsões arreliantes. Sentei-me junto a um pedregulho que jazia ali perto. Os meus joelhos recusavam-se a cumprir com as mais elementares tarefas. Olhei para o meu amigo de ocasião, estava ainda debruçado sobre o ventre e não parava de vomitar. Entretanto, começaram a desembarcar do prédio os primeiros conhecidos do homicida. Os gritos lancinantes encheram a avenida. Uns contorciam-se pelo chão em poses intrigantes, principalmente da senhorita que parecia ser a viúva de fresco, ou pré-viúva. Outros simplesmente entregavam-se a transes colectivos, depois do que se seguiam desmaios em cadeia. Uma multidão de mirones juntou-se à volta do cadáver despedaçado. Restos de corpo com sangue salpicado pelas paredes de uma loja contígua eram objecto de atracção. Olhares curiosos e incisivos autopsiavam disfarçadamente o cadáver. Os detectives informais “post mortem” começaram a apresentar as primeiras conclusões:

“-Isto é assunto de gajas…só pode…!”-  dizia um dos detectives, mesmo antes de alguém perguntar o que quer que fosse.

“-Nada, isso é assunto de drogas, não tazaver que é um puto? Vê-lhe lá bem! Sinãomingano já vi este puto na Colômbia! É o gajo yah!”– concluiu convicto outro detective informal, este com aura de inteligente, cabelos e barba ao estilo comunista de Fídel Castro. 

Entretanto, o meu companheiro aproximou-se de mim atordoado e com a face esverdeada.

“-Com´ o caraças meu,  nutaszaver quem é este gajo?”– gaguejou, intercalando milimetricamente as sílabas.

“-Isto é coisa de satanás…” – profetizou enquanto se acercava mais de mim.

“-Não!...”– murmurei entredentes tentando me afastar do cenário dantesco.

“- Olha lá bem….não tazaver o gajo?!”– ripostou.

“Não! Mas também não resta quase nada para reconhecer. E porque tenho de ver bem um gajo despedaçado. Vou mazé escapulir daqui…”-  e sentenciei a minha ausência do local horrendo.  

“Ahh djó! É o Osvaldo. Não tazaver o Valdinho?!”– parecia convicto do que falava.

“Não mesmo. Mas de onde devia o conhecer?– perguntei, atónito e curioso já com a passada mais larga para me pôr ao fresco.

“Marrou connosco este gajo pah!”    

 E era mesmo o Osvaldo, com quem marramos na escola primária. E era mesmo frequentador da “Colômbia”. E mandou-se cobardemente pelos ares por causa de uma “gaja”. Era o Valdinho!

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