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Categoria: Opinião & Análise
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CENÁRIO: Uma perspectiva realista na análise da pandemia da Covid-19

PAULO DA CONCEIÇÃO

“NA teoria realista considera-seque o Estado é o actor principal das relações internacionais. Esse Estado sempre actua servindo ao interesse nacional, que nasua forma mais básica é o desejo de sobrevivere de acumular emanter poder. O poder é tido como um instrumento por meio do qual os Estados garantem sua sobrevivência no meio internacional.

A CRISE global decorrente da Covid-19, convida-nos à uma reflexão sobre o realismo com que os Estados encaram a pandemia no sistema internacional e sobre qual deverá ser o papel de Moçambique neste contexto.

Na verdade, ainda que haja, nas relações internacionais, indícios de uma cooperação entre os Estados, resultante da necessidade de uma acção conjunta contra os efeitos transnacionais da Covid-19, é também realidade que se acentuam rivalidades, egoísmos nacionais e soluções nacionalistas para problemas prementes.

É neste contexto que Luís Tomé, Director do Departamento de Relações Internacionais, da unidade de investigação Observare, do Brasil, antecipa uma geopolítica mundial caracterizada pela a bipolaridade China-EUA, a expansão de nacionalismos e proteccionismo que poderãoser negativospara a economia internacional e para a segurança internacional,ainda que num contexto em que a interdependência económica,vista até ao momento, desencoraje possíveis conflitos.

Estas tendências realistas têm algum fundamento partindo do pressuposto que um dos aspectos mais problemáticos decorrentes da pandemia é o rápido alastramento da doença, visto que o vírus se espalha com extrema velocidade, inclusive transpondo fronteiras políticas entre os países.

Assim, existe uma forte tendência da disseminação do vírus causar pressões sobre os sistemas de saúde dos países, os quais, na sua maioria, não possuem número suficiente de leitos hospitalares para satisfazer às necessidades em cuidados médicos exigidos pela Covid-19. Aliás, esta é uma das razões principais que levaram os  Estados a determinar severas medidas restritivas à circulação, incluindo nas fronteiras, em conformidade com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Obviamente que, sendo parte integrante do sistema internacional, Moçambique não poderia ser uma excepção neste cenário avassalador.

De acordo com o Banco Mundial, a pandemia da Covid-19 atingiu Moçambique num momento de grande debilidade da sua história económica, quando o país tentava recuperar de dois grandes choques: a crise da dívida oculta e os efeitos devastadores dos ciclones Idai e Kenneth em 2019. 

A instituição financeira multilateral entende que acrise da Covid-19 terá um pesado impacto na actividade económica, com o distanciamento social e as restrições às viagens (internas e mundiais) a afectarem a procura de bens e serviços. Ao mesmo tempo, a redução da procura e do preço das matérias-primas estáa abrandar o ritmo do investimento no gás e carvão, duas indústrias centrais para Moçambique.

O país deverá também, acrescenta o Banco Mundial, registar défices substanciais de financiamento externo e orçamental este ano, num contexto caracterizado por exposição a choques externos e espaço fiscal limitado. 

É neste contexto que, para minimizar os efeitos nefastos do realismo no sistema internacional no contexto do novo coronavírus, o Estado moçambicano deverá comprometer-se a usar todas as sua ferramentas políticas disponíveis parareduzir os danos económicos e sociais causados pela pandemia, restaurar o crescimento global e manter a estabilidade do mercado.

Com tais medidas, Moçambique iria reforçar a protecção dos trabalhadores, empresas - especialmente micro, pequenas e médias empresas abrangidas; para além da necessidade do Estado encetar maior pragmatismo na protecção social dos mais vulneráveis.