Director: Lázaro Manhiça

Belas Memórias: O trauma de ser deslocado (ANABELA MASSINGUE-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

SERÁ mesmo em retalhos mas prefiro partilhar estes episódios do drama vivido por uma menor há mais de quatro décadas, em jeito de homenagem a todos os que estão a sofrer do impacto dos eventos extremos na presente época chuvosa.

Estava-se em pleno ano de 1977. O caudal do rio Limpopo zangara-se e a planície de Xai-Xai transformara-se num autêntico oceano, com focos de vegetação a teimar em sobreviver num meio aquático.

Porque o nível das águas tendia a subir, todas as famílias do pequeno povoado tinham que abandonar a planície em busca de zonas altas e seguras.

Do ambiente que norteou a saída de casa, Maria não consegue se lembrar mas lembra-se, como se fosse ontem, do percurso entre o Aeródromo de Xai-Xai e a Estrada Nacional (EN1), no pacato bairro Fenicelene, próximo da Pontinha, como ficou conhecida a zona da Ponte sobre o rio Limpopo.

 É da Pontinha que a maioria passa quando o objectivo é ligar Maputo a qualquer província, através da EN1.

Daquele povoado, que os eventos climáticos não conseguem destruir, Maria e família rumaram até à antiga fábrica de refrigerantes, SOGERE, na EN1, onde muitas famílias, incluindo a dela, se juntavam à espera do meio de transporte para Chongoene, a 17 quilómetros da cidade de Xai-Xai. Lembra-se da partida e da chegada, pois o resto do percurso ou a memória não conseguiu reter e manter ou, porque terá sido traída pelo sono na ocasião.

Já na “terra prometida”, a pequena e sua família tinham quase tudo desde a vida aos pertences básicos do que deu para levar, mas muito pouco para comer, por dias indeterminados. É que a fome não decretava trégua nem tolerância, por conta das dificuldades.

O pai da Maria e outros chefes de famílias tinham o papel de prover algo para evitar a vitória da fome. Na zona de origem da menor, os solos eram de aluvião compacto e já experimentava a estranha sensação de pisar terra solta. Os vizinhos e amigos já não eram os mesmos.

A água também era diferente, com alguma coloração. Os alimentos confeccionados lá não tinham nada a ver com a tradicional xima feita à base de milho triturado num alguidar. Ali aprenderam a comer, como refeição principal, mandioca cortada em pequenos cubos que mal cozia, por estar fora da época, num preparado de cacana e amendoim, a xiguinha de cacana, prato comum no Sul do país.

As noites eram sinistras. A vegetação era muito verde, pois a chuva também não dava trégua. Caía sem parar e molhava até à alma a quem saísse em busca do sustento.

Lembra-se, Maria, de uma noite em que um mocho passou junto à casa onde ela e família dormiam. Era uma casa redonda, feita de caniço e coberta de capim, outro elemento estranho, pois para trás deixara uma casa de alvenaria. A nova habitação estava mal coberta e admitia água da chuva em certos pontos e luz emitida pelos raios dos relâmpagos.

Volvidas mais de quatro décadas, Maria coloca-se na pele dos deslocados, sejam de que tipo de emergência for, das tantas cíclicas. O sofrimento é tanto e às vezessine die. Na condição de deslocado há muitos detalhes que traumatizam.

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