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Director: Lázaro Manhiça

Acento tónico: Lições da Beira - Júlio Manjate(Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

TINHA estado na Beira em pelo menos duas ocasiões anteriores, depois do ciclone Idai, e lembro-me do quadro de destruição e desespero que encontrei. Se na primeira deu para perceber a luta que se fazia para repor os danos, na segunda já foi possível ver alguns resultados desse esforço: muitas construções com novas coberturas; famílias e instituições a retomarem a vida, ainda que timidamente e nalguns casos em meio a escombros.

Há dias voltei à cidade da Beira e encontrei um cenário mais animador, com um número maior de casas já reabilitadas ou em fase avançada do processo, embora nalguns bairros do interior a destruição continue com marcas visíveis, muitas das quais continuam a condicionar a vida das comunidades.

De facto, além de infra-estruturas reabilitadas, deu para perceber como as gentes lá do Chiveve se esmeram por retomar a vida e tocar a bola para frente.

Num desses finais de tarde decidi sentar-me numa das varandas do Índico, ali no mítico Oceana, para apreciar o vai-e-vem dos barcos que procuram o Porto da Beira, e admirar todos os outros que se servem daquela auto-estrada para dar sentido à vida.  De repente, um jovem abeirou-se de uma mesa vizinha onde estava sentado um casal que, tal como eu, desfrutava daquele ambiente que testemunha a reanimação da economia.

O jovem trazia consigo um aparelho de som, daqueles que se accionam via Bluetooth, com o qual reproduzia instrumentais de músicas de vários autores, colocando ardilosamente a sua voz por cima, numa espécie de karaoke. Assim mesmo, o jovem oferecia músicas de todos os tipos.

Cantou alguns números de músicos brasileiros, angolanos e cabo-verdianos que, se a mim e ao colega que me acompanhava podiam não ter muito significado, para aquele casal vizinho parecia algo que cimentava a sua relação, por trazer versos carregados de sentimentos que nenhum deles parecia ter a coragem de revelar ao parceiro, pelo menos naquele lugar público. 

No fim, o jovem do casal entregou uma nota de cem meticais ao artista, que agradeceu com um sorriso largo. Aí percebi que afinal aquilo era um negócio, uma espécie de show itinerante, ao qual qualquer um poderia aderir, bastando ter alguns trocados disponíveis para patrocinar o astuto artista.

Quando o jovem chegou próximo da nossa mesa, decidi satisfazer algumas curiosidades:

-  Parabéns, jovem. Cantas bem! Disse-lhe, ensaiando uma aproximação.

- Obrigado, mais velho. Disseram para reinventarmo-nos. Estou a tentar. Faço isto para sobreviver. Desde que pararam as festas, os espectáculos e outros eventos que nos davam algum rendimento, ando nisto. Vou cantando e, quem sente alguma solidariedade e reconhece o meu trabalho, vai largando algum que me permite não andar na mendicidade. Meu nome é Amor Zacarias, e muita gente aqui na Beira, e não só, já  conhece este nome.

- Bravo! Respondi.

De facto, estava a testemunhar um caso de resiliência; um caso de alguém que não aceitou atirar a toalha ao chão, e que mobiliza o seu talento para manter a arte viva e capaz de gerar algum sustento.

Pedi que cantasse uma música de Hortêncio Langa. Respondeu que não tinha a instrumental, mas que podia cantar qualquer uma de Mr Bow. Deixei-lhe cantar e no fim contribuí como pude. O jovem agradeceu e afastou-se, sorridente, da nossa mesa, indo “pousar” numa outra, ali por perto.

Dias depois, um amigo levou-me a viver uma outra experiência de recuperação pós-Idai, usando a arte e inteligência como armas de base. Fomos à esquina do “Anselmo”, lugar que um outro amigo, o Naguibo, me tinha recomendado a conhecer quando fosse à Beira.

- Epa! Não saias da Beira sem passar por lá. Sério que não te vais arrepender… - recomendou.

Quando chegamos ao local, percorri rapidamente o espaço com os olhos e percebi que a recomendação não tinha nada a ver com algum requinte ou coisa que tal.

Havia meia dúzia de mesas zelosamente arrumadas num pequeno alpendre coberto de chapas IBR. No resto do quintal também vedado com chapas de zinco, meia dúzia de árvores produziam uma sombra que purificava a brisa leve que se distribuía pelas mesas.

Depois que ocupamos uma mesa, começou o desfile de pratos de marisco, que só parou quando nos rendemos à evidência. Apesar de gostosa, era comida demais para os nossos estômagos, habituados à vigarice por que passam em muitos restaurantes do nosso país, onde muitas vezes pagamos até gorjeta pelo nome, e quase nunca pela qualidade, pelo bom serviço ou qualquer outra coisa boa que um restaurante pode oferecer.

Tanto quanto percebi, o local do Anselmo é muito procurado e bem referenciado pela qualidade; pelo atendimento humilde, diligente e simplicidade em tudo o que ali acontece.

Percebi como o cliente pode dar-nos a mão se lhe mostrarmos que gostamos do trabalho que fazemos, e que o respeitamos e nos preocupamos em oferecer-lhe o melhor do que sabemos fazer.

E foi isso que o Anselmo segredou-nos quando finalmente se abeirou da nossa mesa para cumprimentar e saber como nos sentíamos, gesto raro entre os donos e gerentes da maioria dos restaurantes moçambicanos. Contou-nos que, nalgum momento, depois que o “Idai” arrasou praticamente tudo o que era o seu estabelecimento, convenceu-se que, na verdade, apenas tinha perdido as paredes e o tecto do seu espaço de negócio, mas que o essencial continuava com ele: a arte de cozinhar, o bom gosto, a vontade de recomeçar e a certeza de que tudo estava nas suas mãos.

- Nenhuma tempestade nos pode arrancar o conhecimento e a nossa paixão pelas coisas que fazemos e que sabemos que nos dão vida. Juntamos os pauzinhos e estamos aqui, a recomeçar,  resumiu.

Não precisei de ouvir mais para compreender aquela história de sucesso inevitável. Em pouco tempo, todas as mesas estavam preenchidas e todos saboreavam o marisco com notável  prazer.

Era mais um exemplo de que é possível nos levantarmos sempre que cairmos, seja qual tiver sido a violência do tombo.

Depois de tudo que testemunhei na Beira, quando para lá voltar, espero encontrar uma cidade mais alegre e confiante, mais próxima do seu ideal. E quando voltar ao Anselmo, não espero encontrar luxos, luzes e chiliques que me façam pagar por fantasias... Quero é encontrar a mesma humildade, o mesmo esmero, simpatia e simplicidade, mas sobretudo uma comida temperada com o gosto de quem sabe o valor do trabalho que faz.

Até lá...

CONVERSAS AOS SÁBADOS

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