PHC

Director: Lázaro Manhiça

NUM VAL’PENA: Uma viagem de txopela no meu quase último tango (Leonel Abranches)

 

ESTES seriam deviam ser definitivamente os meus últimos rabiscos. Pelo menos durante os próximos trinta dias. Mais uma vez as férias disciplinares foram adiadas. O bom do meu director decidiu: “perá-lá aí, agora vou eu de férias. Ando cansado pah!” Olhei para ele e percebi que o boss anda mesmo cansado: olheiras e barba por fazer. E ficou claro que não ia  “stopar” as crónicas. Outra vez. E a decisão de continuar surgiu depois de uma viagem enigmática a bordo de um txopela. Enigmática justamente pela conversa que o “chauffeur” foi entabulando distraidamente comigo. Por acaso até fui eu quem iniciou o papo. Aliás, vou à garupa daquele txopela há vários meses. A simpatia do rapaz contrasta com a estrutura hercúlea do seu corpo, um tipo barbudo, cara arredonda e braços torneados por bíceps e trícipes paridos num ginásio qualquer. O tipo logo que me viu tratou logo de marcar espaço junto dos colegas de praça:

-Não valapena amigos esse é meu cliente. Cliente particular.” - sentenciou, ar que ando os minúsculos e grossos braços. Os colegas de praça não tugiram nem mugiram. Acto contínuo o meu “chauffeur” particular “dumissou o xitututu” e acenou bruscamente:

“Vamã mano...aqui mesmo que você não tenha taco vou te levar sempre...você é meu”

Agradeci a amabilidade, enrosquei-me no pequeno “cockpit” e tratei logo de mudar de conversa:

“- Diga mano, este negócio dá certo?”-  Sem mesmo olhar para mim por razões óbvias, respondeu com um tom musgoentre o cinzento e amarelo.

“- Sabes, ilustre, este negócio só pode dar certo se tu tiveres foco e, sobretudo, humildade. O meu sonho foi como de qualquer outro jovem. Formar-me e empregar-me num escritório onde me serviriam café logo que chegasse às 9 ou 10 horas e me tratassem por “sódoutor”. Queria também ser um janota de fato e gravata com ares de importante como aqueles manos dos bancos. Sonhei com a transição de mobilidade de um chapa para um veículo protocolar, com direito a estacionamento reservado. Felizmente isso não passou de sonho.”

“Felizmente?! como assim?”– indaguei tentando perceber até onde queria chegar o driver do motociclo.

“Felizmente sim amigo. Não consegui formar-me como era sonho dos meus pais e muito menos consegui emprego nos maiores e melhores escritórios da baixa da cidade, por isso tive que me virar. Juntei dinheiro de um pequeno negócio e comprei o meu primeiro txopela.”

“- Primeiro?! Então este não é o primeiro?”– a minha curiosidade deve tê-lo levado a pensar que estava a fazer uma pesquisa de mercado, pois esboçou um olhar de soslaio, não sem antes de repetidamente praguejar contra um condutor mais ousado que tentou cortar-lhe prioridade.

“- Este é o quarto txopela mano. Tenho agora uma frota de motociclos e emprego pessoas. Construí a minha casa e equipei-a com aquilo que sempre quis, plasmas e ar condicionados. Durmo num quarto suite e não falta o básico em casa. Meus filhos não estão nas melhores escolas mas não lhes falta educação formal. Meu primeiro txopela fez o meu casamento. E ainda comprei um dubaizinho simpático.”

Esbocei um sorriso desconfiado e questionei:

“- Hummm vatalixar pah. Tudo isso só com txopela?!”

 “I´m telling you.”– garantiu-me.

Persisti na dúvida e ainda atirei algumas achas de desconfiança à fogueira:

“- É que conheço um gajo que desistiu e vendeu o txopela...alegou essa coisa de Covid não Covid. Parece que os clientes….”.Nem me deixou terminar.

“Faltou-lhe persistência mano, foco, dedicação e amor ao trabalho. Sobretudo muito espírito de sacrifício. E digo-te mais: o que parecia uma morte certa por causa da Covid transformou-se numa oportunidade única para mim. Cresci mais agora.”

Ainda ruminava o que ele dizia quando percebi que tínhamos chegado ao destino. Encostou o motociclo, desgrudou os olhos da estrada e do tráfego e sentenciou:

“- Nada se faz sem sacrifício djó! Para chegar ao mel você precisa passar pelas abelhas. Quer que o espere? Não terá custos adicionais…”

Dei comigo a pensar antes mesmo de responder: “- este gajo, para além de filósofo, sabe do business.”

“- Não precisa esperar amigo. Obrigado pela conversa.” – respondi enquanto esboçava o gesto que levava a palma da mão ao bolso de onde retirei duas notas envergonhadas. Paguei, o “chauffeur” barbudo de cara redonda que agradeceu e atirou:

“- Bom fim-de-semana amigo. O que vai fazer ilustre?”

“- Nada meu! Ficar em casa. Ainda estamos a meio do mês e não há taco para gastar. Tá todo mundo txonado pah”– respondi, preparando-me para abandonar o txopela.

“- Tá certo amigo. Ficar em casa também é uma boa opção. Eu vou a Bilene com a madame e os putos…”. Ligou o triciclo, bateu uma “drampa” na esquina a seguir e escafedeu-se.

Fiquei ali com a cara à banda e ainda ouvi a minha própria alma sussurrando:

 

“- Sacana do gajo…!” 

CONVERSAS AOS SÁBADOS

CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO

Presidente: Júlio Manjate

Administrator: Rogério Sitoe

Administrator: Cezerilo Matuce

JORNAL DIGITAL


Template Settings

Color

For each color, the params below will give default values
Tomato Green Blue Cyan Dark_Red Dark_Blue

Body

Background Color
Text Color

Header

Background Color

Footer

Select menu
Google Font
Body Font-size
Body Font-family
Direction