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Categoria: Opinião & Análise
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CA DA TERRA: Uma brevidade entre os anguni (Osvaldo Gêmo-osvaldoroque0371ɕgmail.com)

 

VOLTEI, quinta-feira passada, àAngónia, Tete, onde não punha os pés desde o Recenseamento Geral da População e Habitação, de 1997, e encontrei os mesmos traços de então:aalegria e vitalidade de um povo trabalhador que não verga perante as adversidades.

Abençoados pelo clima e fertilidade da terra, os anguni fundaram aqui o seu império e usam da habilidade no cultivo da terra, que lhes é peculiar, para dela tirar o seu sustento, em culturas como batata, feijões, milho, amendoim e outras como o tabaco.

Angónia é, na verdade, uma corruptela adoptada para se referir ao povo anguni, que habita a região desde os anos 1825/1840. Reza a história que este povo, originário da Zululândia, na África do Sul, teria migrado em razão do Nfecane, para se fixar nas margens do rio Limpopo, direcção também tomada por Sochangane, o Manicusse, com quem se desentenderam e acabaram demandando terras mais à norte de Moçambique.

Por volta de 1825, os anguni atravessaram o Zambeze para se fixar nas terras férteis do que é actualmente a Angónia, mantendo, no entanto, a identidade, os traços culturais e suas tradições, incluindo a posse de gado da raça nguni, popularizado na região.

Desta vez voltamos para fazer um percurso quase completo, desde a fronteira com o distrito de Tsangano, à Dómuè, passando por Lifidzi, onde se ergue a majestosa missão que leva o nome do povoado.

Atravessamos este território numa altura em que decorre a colheita, que demonstra um ano quase perfeito, a avaliar pelos celeiros cheios nas comunidades e o ritmo com que se entregam à comercialização dos excedentes.

São terras onde a população está a viver estes momentos com bastante frenesim, chegada a hora de colher o resultado do esforço de vários meses. Também é o período que os povoados junto a este trajecto de estrada de terra, que vai até ao cruzamento de Daka, em Chiúta, tal é o caso de Dómuè, Chipindo ou Mpulo, registam um elevado fluxo monetário, em razão da comercialização dos excedentes e também do tabaco.

Apesar do fluxo de dinheiro que estas regiões têm registado o apego às tradições e à magia negra faz com que a maioria não invista na opulência, sendo que muitas das casas continua a ser de adobe, apesar de popularizada a queima do tijolo.

O momento das colheitas também impulsiona os casamentos na região, pela simples razão da disponibilidade de alimentos usados para a festa e dos derivados usados para produzir a Pombe, uma bebida bastante apreciada pelos Anguni.

Para além das habituais oferendas para os familiares da noiva e dinheiro da gratificação, o noivo também é colocado à prova, que passa por desbravar uma porção de terra, indicada pelos pais da futura esposa, para demonstrar que tem capacidade de cuidar da sua amada e da sua futura prole.

Os Anguni têm demonstrado ser um povo vencedor, pela capacidade que tem de superar os obstáculos e pela diversidade das suas manifestações culturais que perduram há várias gerações. Os dois dias de temperatura amena que passamos no planalto de Angónia, também acabaram por ser bastante gratificantes pela riqueza de experiências vividas. 

Um ditado local diz que “o dono da terra não treme”. Nós também não trememos.