Director: Lázaro Manhiça

NUM’VAL PENA: Me deixa lá você! (Leonel Abranches)

 

À MEDIDA que os anos passam os episódios relacionados com o dia dos namorados ganham dimensões cada vez mais rocambolescas. Uma cena do último 14 de Fevereiro, ainda que tenham passado muitos meses desde então, não me sai da cabeça. A cidade de Maputo ficou pejada de pares de namorados, casados e até amigos, que, não tendo uma relação necessariamente íntima, trocaram juras de amizade contínua. A verdade é que alguns e algumas “James Bond” do amor e da malandrice viram-se à nora para dar vazão às várias relações que têm. Uma casa de pastos, algures na baixa da cidade, virou autêntico ringue para a disputa de uma rapariga, que afinal estava comprometida com dois garbosos rapazes e com um quase sexagenário senhor. A jovem rapariga terá sido tramada por uma “amiga” que não suportava o sucesso e facilidades de encantar jovens rapazes e homens com quilómetros de experiência na estrada da vida. E porque nenhuma mulher comemora a vitória de outra, a “amiga”, com um telefonema em modo “private” enviou as coordenadas do restaurante a quem entendia ser o legítimo namorado. Não terminou a chamada em “private” sem fazer o derradeiro conselho:

“Vai lá agora mesmo você. Vais-lhe encontrar bem mesmo, juro por tudo o que é sagrado!

Está com um gajo da Matola...”

 Entretanto, enroscados numa mesa de dois lugares, bem no canto do pequeno restaurante, com a iluminação propositadamente fusca, o casal, com as mãos entrelaçadas, sussurrava alegremente como dois pintainhos recém-nascidos. Nem sequer olhavam para a comida, já fria e envergonhada pela desconsideração. O mundo estava literalmente aos seus pés.

O rapaz, magro e de feições a aproximar um caso de crise anémica, não parava de pigarrear e, às vezes, com um sorriso enfeitado lá se ia derretendo em juras de amor eterno. O clima romântico foi interrompido quando, de repente, assomou pela porta o jovem que recebera achamada em modo “private”. Parecia nervoso. Não devia ter mais de 30 anos. Os bíceps etríceps denunciavam uma relação muito estreita do jovem com o ginásio. Notava-se facilmente que era um gajo que carregava ferros. A camiseta quase que se rasgava por entre os contornos musculados dos braços arqueados.  Perscrutou o espaço com um olhar sinistro e com os olhos avermelhados. A jovem pressentiu a presença do diabo à solta e sorrateiramente tentou emigrar para a casa de banho, de onde sumiria pela porta dos fundos. Não foi a tempo. O vozeirão do jovem de enormes bíceps e tríceps ecoou pela sala:

“Ahh! Estás aí sua galdéria. Não fuja. Já te vi!” Avançou pelo diminuto corredor, afastando com estrondo as cadeiras e mesas que foi encontrando pelo caminho.

O rapaz que fazia par com a moça tentou desesperadamente fazer valer a sua masculinidade, entretanto desvalorizada pela descomunal magreza. Foi triangulado com um valente sopapo seguido de uma advertência mortífera com o dedo indicador em riste e bem entre os olhos:

“Você nem vala pena se meter. Vou-te despovoar essa cavidade bucal imbecil...”

...e dirigindo-se impetuosamente à menina:

“Então aqui é que é o funeral do teu primo? Isto é vida?! Você não passa de uma vaca.”

Entretanto, a miúda, refeita do susto, ripostou:

“Me deixa você! Você não é atencioso. Nem dinheiro de chapa você me dá. Quem você pensa que é para me chamar de p***?! Me deixa então se eu sou p***. Como pensas que vivo?!- A miúda falava com um misto de raiva e petulância. Garbosa, com as mãos nos quadris,foi destilando o fel de raiva enquanto meneava as ancas provocadoramente.

Os circunstantes, com opiniões divididas, iam apresentando os seus argumentos a solo.

O gajo dos bíceps e tríceps, já menos petulante, baixou a guarda e tentou a estratégia do drama e da auto-vitimização:

“...amor, eu juro que vou mudar...vamos refazer a nossa relação. Eu te gramo maningue!

Não vou conseguir viver sem ti...”

Um coro de reprovação pela estratégia ecoou pela sala.

“Esse gajo vai ser sempre um corno...”- alguém sussurrou, mas suficientemente audível, de que não tardou uma resposta violenta:

“Suca! Onde você entra com a minha cornice?! Quem não é corno aqui nesta sala? Bando de retardados!”

Pronto. Aí iniciou um autêntico Vietname. Incrédulos, todos os presentes apedrejaram

verbalmente o rapaz dos “bíceps” avantajados.

Entretanto, o jovem enamorado, ainda se refazendo do valente sopapo, acercou-se da “namorada” e convidou: “Vamá bazar djó...aqui já não está a dar...”

A resposta atordoou e gelou a sala:

“- Me deixa. Você também não é de nada. ”

E saiu disparada enquanto atendia uma chamada. No átrio de entrada a esperava um portentoso BMW pilotado por um senhor calvo e de uma barriga farta.

CONVERSAS AOS SÁBADOS

CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO

Presidente: Júlio Manjate

Administrator: Cezerilo Matuce

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