Director: Lázaro Manhiça

NUM’VAL PENA!: O terrível segredo do Prof. Domingos (Leonel Abranches)

 

O HOMEM de meia-idade deambulava pelas ruas da cidade. Barba farta e cabelo desgrenhado. A face carcomida e os olhos enterrados na cara denunciavam a longevidade da alma. O corpo, longe de ser franzino, marcava uma enigmática estrutura em arco, com os ossos cobertos por um conjunto de peças de tecido mal distribuídas. À cintura um enorme cordão cujas pontas eram seguradas de forma escalonada entre a mão esquerda e a direita, num ritual que fazia recordar o menear de um vulto feminino dançando voluptuosamente. Tinha virtudes extraordinárias, pois era de uma cortesia fora do comum, cumprimentava todo o mundo e sempre se predispunha para uma conversa, que podia ser longa ou não. O ar bonacheirão e perspicaz fazia prever o homem educado que era o Prof. Domingos. Educado porque era por demais cortês, mas também pelo felino toque do verbo. O homem falava a língua portuguesa com uma limpeza monocórdica fora do comum, sem erros e com uma dicção de fazer inveja a qualquer luso-metropolitano. Mas tinha um defeito insuportável: era um exímio catador de beatas de cigarro. Não lhe escapava qualquer beata e pedia de forma compulsiva a quem cruzasse ou visse com um cigarro. Fumava que nem uma chaminé, de forma inveterada.Eu o via quase sempre ali entre os Correios e a Capitania. Recordo-me perfeitamente que o Prof. Domingos tinha o hábito de me chamar de “fedelho”, com um toque lusitano que transitava para “fidelho”, e eu ficava altamente ofendido, não gostava nada, até porque considerava que o homem passava a vida a insultar-me. Pior ainda, a malta do bairro ria-se a balda fora e em coro gritavam:

“- Ohh Prof. Domingos ali vai o teu `fidelho`…”e o Prof. sorria matreiramente, certamente divertindo-se da ignorância do pessoal. Hoje sei que afinal de contas o bom do Prof. não me insultava. Era uma simpática forma de tratamento que me dispensava. O estranho efeito fonológico da palavra também não ajudava muito.

Ninguém sabia ao certo quem era o Prof. Domingos, nem sequer se conhecia um familiar seu. Era apenas visto às primeiras horas da manhã e ao fim dia sumia para o seu casulo desconhecido. Simplesmente desaparecia. Era um gajo bom, mas também tenebroso. Misterioso. Havia ali na alma do professor um ressentimento qualquer. O homem oscilava entre a alegria de falar e conversar com qualquer um e a tristeza e vazio que de repente o acometia. Nessa altura ninguém ousava sequer chegar por perto, tal era o manto triste e pesado que o cobria. E uma tarde dessas o homem estava assim: triste e melancólico. Sentado num pedregulho granítico, com as pernas cruzadas e uma beata já gasta e a queimar-lhe os dedos, Prof. Domingos dedicou minutos e horas aos seus pensamentos com os olhos grudados num horizonte cinzento e com nuvens agoirentas.

E aí começaram as habituais especulações do povão:

“Pronto…já lhe deu outra vez! A pancada voltou. Está a recordar-se da mulher  que o abandonou…parece que era muito rico esse aí…a mulher fugiu com um branco…”- Dizia um tipo aligeirando o bigode e com ares de sábio e conhecedor das entranhas sociais da cidade e arredores.

“- Hummm jura-lá! Mulheres pah!”– Questionou outro, sem deixar de amaldiçoar a mulher que fugiu com o branco e aproveitando-se para cutucar a espécie feminina.

“- Não é nada disso vocesjê! Esse gajo marrava maningue. Parece que até chegou a ser piloto de aviões laaá na União Soviética. Queimou fusíveis lá mesmo esse. Veio assim já escafiado, era para a mulher fazer o quê….deu gás com outro…”– discordou outro, tentando justificar o acto vil de traição e abandono da esposa do prof.

“- Então quêdzer…esse white já existia naué?! Se calhar o gajo ouviu isso na Rússia…por isso os fusíveis queimaram ué! Essas gajas não valem nada toutadizer eu- Alimentou a fogueira com achas do maldizer à figura da mulher um calmeirão com um vozeirão que mais parecia um trovão em dias de chuva torrencial.

“ – Esse gajo não é nada disso que vocês estão a dizer…era professor ali na secundária. Altamente inteligente. A mulher é que lhe deixou assim…levou tudo e lhe deixou na penúria. Não aguentou o gajo…agora isso do white não posso confirmar!”– sintetizou autoritário um jovem que passava por perto. 

E o bom do Prof. Domingos ficou ali sentado, engolido por “flashes” psicadélicos de más recordações. Ouviu cada uma das justificações de quem se achava com legitimidade judiciária para o defender. Ouviu e franziu a testa demasiadas vezes certamente porque percebeu que todas as abordagens tinham um denominador comum: a mulher. Ainda assim levantou-se e com uma solenidade religiosa sorriu e ante a plateia que o mirrava com um misto de sentimento de dó e de medo, anunciou:

“Sobre os meus segredos digam o que quiserem, mas não falem mal da mulher e muito menos da minha…”

….e desatou a catar beatas. Acendeu uma com um pedaço de lenha que luzia por perto, puxou o cordão à cintura e pôs-se a assobiar acordes de uma música de Lindomar Castilho…sumindo no horizonte do fim da tarde para o seu desconhecido cubículo…

CONVERSAS AOS SÁBADOS

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