Director: Lázaro Manhiça

A PÁ está pensativa e já não comunica com os restantes móveis da casa. Duvido que ela tenha algo para dizer em sua defesa. Sabes, Flávio, aquele objecto doméstico que cava e prepara a massa para os pedreiros erguerem as casas, ganhou outras funções na mão de Chimatana.

O estabelecimento que vende bebidas tradicionais está cheio, mas os clientes evitam conversar. Vi Flávio. Reparei que eles beijavam os copos com o líquido alcoólico, amarravam a cara e se deixavam levar pelas sensações que a embriaguês cria. Até fingiam não engolir o que tomavam.

O bairro, meu irmão... O bairro estava ansioso ontem. Todos perguntavam, todos queriam saber do estado de saúde do curandeiro que foi agredido. Todos queriam acariciar com chapadas, muros e pontapés o corpo de Chimatana, fazê-lo sentir a dor que causou.

No local do crime ainda era possível ver sangue. Sabe, nós não temos condições, mas devíamos vedar aquele espaço. Não podemos deixar que as pessoas desfaçam aquelas evidências.

- Estás a falar demais agente Alfredo.

- Estou impressionado.

- Cala! Cal… (gargalhada). Temos outros casos por seguir.

- Mas agente Flávio, ainda me recordo de tudo.

- Companheiro, tens de escrever este relatório.

- Ainda estou a tentar encontrar a melhor forma de começar o meu relatório, mas não consigo. Ontem gastei cinco folhas A4 e hoje já deitei dois rascunhos no lixo. O facto é que ainda não consigo parar de pensar no sucedido.

“Vai sobreviver, é forte. Vai sobreviver, foi bem formado, é um nhanga completo”, ouvi na rua. As pessoas acreditavam mesmo que aquele homem tinha chances de sobreviver. A população quando acredita em algo é assim.

“Chimatana tem força. Bateu na cabeça do curandeiro com o bico da pá. Escutei o som, até parecia que estava a bater numa pedra. Aposto que a cabeça do curandeiro explodiu, saía muito sangue”, disse em changana um velho que testemunhou a ocorrência.

- Alfredo, mas você não levou este homem para aqui no posto policial para testemunhar, porquê?

- O velhinho se recusou. Sou Polícia, tenho autoridade, mas não posso obrigar ninguém a falar.

- És puto mesmo. Um miúdo ainda.

- Não admito, Flávio.

- A verdade! Não admites.

- Deixe-me beber uma água. Cláudia, sabes, eu vi quando a informação foi dada. Recordo das palavras ditas: “Morreu. Fechou os olhos, dormiu um sono pesado. Estava com muito sono”.

A população estava desolada, alguns lacrimejaram. O sol incidia com intensidade, mas uma voz no fundo dizia. “Vai acordar, só está a descansar. Aquele nhanga é perigo, Pha!”.

Hélio Nguane-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.


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