Director: Júlio Manjate

Sigarowane: E tinha que ser assim tão tarde! (1)  (Djenguenyenye Ndlovu)

 

E, finalmente, José Marti. Lugar a partir do qual a terra, a água, o sol e as estrelas seriam de gozo pleno, depois de horas infindas em uma caixa voadora por milhentos quilómetros. E então, os anos sessenta e setenta, dos becos, vielas, ruas e avenidas de Lourenço Marques vieram povoar a mente: a mini-saia que,  em 1975, viria a ser morta pelo max, que também veio a dar, sem que o seu uso modificasse comportamentos num sentido, mas noutro, sim. É que como um lavrador jubila diante de uma floresta virgem, desbasta-a e logra rendimentos tamanhos da terra, governa-o o mesmo sentimento em relação às mulheres: quando chega o momento da descoberta do que o max não deixa ver, do que a capulana ao ser desenrolada brinda é mesmo celebração, é de vibração que leva a libertação de prazeres até então não sonhados. Quem viveu esses tempos certamente que agora, com um sorriso nostálgico, um fechar de olhos para a revivência  e, finalmente, um ai!..que doce foste tu.

Pois, a vida continua doce, que para isso basta o desejo. Apenas o desejo.

No aeroporto, curiosamente, com maior número de mulheres, a mini-saia, nalgumas vezes aos níveis de vestes menores, foi uma surpresa total. No início foi de admitir que fossem funcionárias de uma empresa prestadora de serviços, mas depois nos recordamos que os irmanos não têm esses hábitos. Gerem eles mesmos e com altos padrões de qualidade os seus negócios. O bom do Daniel, que viria a ser o companheiro de mais de uma semana, disse que vestimenta diferente daquela só de estrangeiras se tratando ou então de calças. Está difícil de engolir, mas existe a noite para trabalhar a mente e esquecer as vivências desses tempos de outras formas de celebrar momentos da vida.

Já era noite. Com alguma gordura até. E apenas o admirável néon de Havana e o silêncio do Atlântico cuidaram da condução ao emblemático Hotel Nacional de Cuba, símbolo da história, cultura e cubania, plantado numa colina, a poucos metros da água. Inaugurado em 1930, Dezembro, em 1959 passa à gestão do governo e recebe o nome que tem. No seu pátio, constrói-se um museu, justamente no local onde esteve plantada a bateria espanhola, em anos idos, muito idos, para a sua defesa, na condição de colonizador, contra investidas americanas. Estão restaurados os bunkers e a história em imagens e textos sobre a crise de 1961.

O pátio tem uma iluminação… romântica que é preciso esperar pelo dia para mais alegrias de novos descobrires.

O quarto está óptimo mas não há nada a mexer. A mala ficou pelo caminho. O que resta é esperar e a vontade é mesmo pegar sono, mas da recepção dizem de um vizinho de muito longe à espera. Em uma mesa, numa das explanadas dizia do bué de amor na terra, no sorver de vinho local ao som de rumba vomitado por um quarteto, formado por avós e netas, pelo menos pelo que aparentavam. A explanada estava lotada com gente de muitas vindas: Europa, Ocidente, África, a região asiana e não se sabe de onde mais. E depois tudo misturado. E depois tudo uma família. Os celulares a filmarem, a tirarem fotografias, os bares a facturarem, as goelas a deixarem escorregar líquidos de relaxarem os músculos, de dilatarem veias, de deixarem os homens e as mulheres mais felizes.

E a noite deu lugar à madrugada e a transição não foi sentida. Mas, também essa madrugada prenunciava um dia morto, pelo que tanto fazia o ir à cama, depois de uma passagem pelo chuveiro, se calhar. E então, deixou-se que o quarteto continuasse fazendo carícias ao coração, melando o ouvido em uma doce madrugada e a poucos metros do mar e a pouquíssimos metros de um brilhante canhão, como acontece com os canhões em muitos outros lugares onde o seu uso foi uma necessidade primária para a sobrevivência, apontado ao mar. É dos tempos de ódio. Eles já mataram o ódio. Destruíram o ódio. No seu lugar plantaram o amor.

E Havana é amor. É, também, uma festa.

Os músicos estão como que endiabrados. Musicam. Musicam e carregam nos corações os aplausos de diversos mundos e então são do tamanho do mundo, são da dimensão do amor.

O vizinho cabeceia. Ou seriam vinhos sonolentos? Não importa. Ele precisa dormir. Despede-se e o chofer leva-o à quinta avenida. Por cá, mais uma taça de vinho, que agora está no ar o Wa tanamera. Até pode ser que não se escreva assim, mas o leitor compreende. Nada de mais sacrifícios. Sacrifício prazeiroso é continuar aqui sozinho no meio de muitos, mas como dito, todos, uma família.

E a música termina. E a cama que espera terá agora de servir e cuidar de massajar o corpo, que bem precisa, neste lugar de amor.

E tinha que ser assim tão tarde?

 

CONVERSAS AOS SÁBADOS

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