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Categoria: Opinião & Análise
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Retalhos e farrapos: O caos tem nome  (Hélio Nguane)

 

11.03.19:TEM quatro meses. Poucos sabem da sua existência. Chorou no dia do parto, mas hoje sorri por tudo e por nada.

Na esteira, coberta de mantas fofas, repousa o seu corpo, olha para o tecto de chapas e pensa na vida que vai ter. De vez em quando alguém chega e carrega-o. O menino fica no colo, aceita a demonstração de afecto e retribui com um sorriso, que exalta as gengivas, que esperam ansiosas pelos dentes de leite.

A casa tem quarto, sala e seis seres que refugiam as suas dores naquelas paredes recém-construídas. As comidas são preparadas no quintal, que é compartilhado por mais cinco famílias. O pai do bebé não tem emprego, mas trabalha, não tem salário, mas ajuda nas despesas do lar.

A machamba tem apenas quatro canteiros férteis, o resto é terra seca e dura, que serve de tapete para quem quer roubar o pouco verde que a família quer colocar na panela. Por vezes são os animais selvagens. Mas, enfim, tanto os que andam sobre duas ou sobre quatro, no fundo são selvagens.

O bebé não conhece a machamba, ainda não foi apresentado ao mundo, os familiares juntam alguns tostões para a grande cerimónia.

12.03.19: A data foi marcada, o bebé será apresentado à comunidade no sábado. O pequeno está agitado, rebola na esteira, sem parar, e agora está no colo da mãe. Não aceita outra pessoa. Com os dedos na boca, murmura palavras imperceptíveis. O dia ganha forma, o sol perde a potência, a lua entra tímida, o céu está atípico, existem nuvens carregadas de um negro que causa arrepios.

13.03.19: O bebé passou a madrugada em claro. Acordou a mãe por inúmeras vezes. Os irmãos saíram da sala para ver o que se passava com o pequeno.

Não é só o recém-nascido que está convulsivo, o bairro está agitado: em grupos de quatro e cinco, as pessoas conversam. Famílias embrulham os seus pertences em capulanas e namoram com o caminho. Os pais do bebé têm fé, rezam, de joelhos rogam a Deus, este que desconheço as razões a cada dia, para que nada atrapalhe a cerimónia do filho.

14.03.19:O bebé acordou mais cedo. Está feliz, já tem um nome. Foi uma decisão complicada, todos queriam ver a criança com o seu nome. Para evitar conflitos, o pequeno terá dois nomes, um para agradar os antepassados e outro os vivos.

A noite chegou. Do nada, o bebé viu-se embrulhado numa capulana, sentiu as brisas violentas da rua. A mãe segurava, pelos braços, mais dois filhos e o quarto corria sem rumo. Pensou em levar a mobília, panelas, peneira, ralador, pilão, mas só tem dois braços. Mas essa não é a maior preocupação, o marido está em parte incerta.

15.03.19:A criança flutua nas recordações de alguém estatelado numa tenda. Deus é romancista, sempre deixa alguém para narrar o caos.

16.03.19.