DE VEZ EM QUANDO: Como vai Maputo? Aqui na Munhava  é “kwangwanha-kwanganha”, mano! (Alfredo Macaringue)

 

NÃO estranhei o ar bem humorado do meu amigo Matsena quando me ligou de um celular conectado à rede da Movitel. Falava da cidade da Beira, no bairro da Munhava, um lugar que parece, segundo as suas palavras, o fim do mundo. “Vocês aí em Maputo pelo menos têm uma txilar bem gelada para abafar as vossas tristezas. Nós vamos abafar com quê esta dor?”

Ele fala-me a rir, como sempre, e diz-me ainda que nenhum senta-baixo funciona, ao menos aí iria apanhar uma “pinga”. “Está mal isto aqui, mano! É  kwangwanha-kwangwanha”, ou seja, está de qualquer maneira!

“Kabanga (bebida fermentada caseira) não há! Os bidões foram todos varridos pela água da chuva. É só sofrer”.

Desde que o ciclone passou pela cidade da Beira que o meu amigo não consegue dormir. “Estou com medo de apanhar sono, mano. Dizem que vão abrir as comportas de Chicamba, os  zimbabweanos também dizem o mesmo. E isso pode acontecer a qualquer momento, por isso não durmo, prefiro ficar acordado para ver a morte chegar”.

Mesmo assim, Matsena diz que não é humanamente possível manter-se em atalaia dias consecutivos, “ao menos que houvesse alguma kabanga. Isso havia de ajudar a manter-me de pé”. Mas para o meu amigo melhores dias virão, ou pelo menos voltará a anterior situação sem chuvas, nem ventos fortes como esta que passou. “É isso, mano, o que vimos aqui foi demais, não dá para esquecer. Você ainda pode dizer que ahh, mas nós também sofremos em 2000! Sim, sofreram, mano, mas o que aconteceu aqui! Eixxxx!”

Perguntei, sem pensar, a Matsena como é que se arranjam para satisfazer as necessidades. “Waaa! Isso é pergunta, meu irmão?  Fazemos assim mesmo, à maneira. Por enquanto estamos no inferno, não temos outra saída. Vamos esperar que tudo isto passe para retomarmos a vida. Mano, você lembra muito bem que tivemos a guerra dos 16 anos. Não esquecemos? Isto também vai passar, e vamos esquecer”.

-Tens razão, tudo passa.

-O que dói agora é que não temos aonde ir. Ir para onde! Tudo é água. Não há cerveja gelada pelo menos para molharmos a garganta. A nossa cidade não é esta. Dói, meu irmão.

Matsena agora fala com alguma comoção. Já não consegue esconder a dor, e algum conformismo. Começa a perder o entusiasmo. “Sabe, mano, Deus fala sozinho. Que culpa eu tenho de ter nascido na cidade da Beira? Vou dormir onde agora que a minha casa caiu? É para passar ainda mais quantas noites em cima desta mesa? Até quando vou assistir as minhas crianças chapinhando nas águas possivelmente contaminadas? Até quando, meu irmão?”

O meu amigo fica em silêncio durante largos segundos, e achei que já não havia mais palavras, nem da minha parte, nem da parte dele, e naquelas condições só podia lhe dizer o seguinte:

-Força, meu irmão!

Um abraço profundo!

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