Retalhos e Farrapos:  Bloqueado (Hélio Nguane)

 

Senta, olha para a folha virtual em branco. Sorri, pois quando há crises não adianta entrar em pânico. Relaxa, pensa no que vai escrever, olha para o teclado, começa a escrever e saem apenas duas linhas:

“A vassoura: Nasceu da união, fez-se objecto, utensílio utilitário, funcional, fundamental para a limpeza do armazém”.

Olhou para o que escreveu e usou a tecla DELETE para tornar folha branca. Ficou cinco minutos a olhar para o monitor e percebeu que nada tinha para escrever. Relaxou, pois há poucos minutos teve uma palestra que lhe mostrou que é preciso prestar mais atenção à questão da saúde (coração).

A inspiração não surgia, no meio do caos, apareceu-lhe a ideia de resgatar um texto que escreveu no “chapa” em 2015.

Aquela bomba atómica

Afeganistão, Irão ou Iraque? Nenhum desses países é capaz de produzir um mililitro do líquido que escorre nas axilas deste senhor. Rendo-me, faço vénias ao metabolismo deste ser sub-humano. Engenheiros químicos deviam usar o corpo desse idoso como estudo de caso para uma tese, dissertação, sobre armas humanas de destruição massiva.

Estrondoso, o seu odor é veloz. Espaçoso, toma conta do local, faz dele sua residência. Inconveniente, este cheiro senta, abraça-nos sem a nossa permissão, olhou-nos nos olhos, enfrenta-nos.

Com os braços cruzados, o velho observa, ao pé da porta os recém-entrados no “chapa”.

Nem no 11 de Setembro o azar veio dessa forma. No “chapa” entrou um bombista. Rezo pelo bem-estar dos passageiros. Rezo pela integridade do velho, o Pentágono não pode saber disso. O mundo não pode saber que a fórmula da nova bomba atómica se esconde nas axilas e no corpo destes seres.

Em segundos, a população do “chapa” já sabia quem ele era. Ainda bem que me sentei na cadeira da fila solitária. Ainda bem nada, no último assento consigo sentir o cheiro do velhote que está na porta.

A viagem prossegue, o “chapa” passou pela lixeira do Hulene, mas ninguém notou, pois a “bocaria” esteve no “chapa” desde o início da viagem.

Não posso colocar as minhas mãos no nariz, não posso envergonhar o armamento bélico. Não posso envergonhar o ancião.

Hipótese: acho que não é ele, pode ser aquele plástico que segura.

Hipótese anulada: um plástico tão minúsculo não pode exalar o cheiro de um Homem que não conhece o carinho da água há décadas.

Tentei suster a respiração, mas não consegui, estava a passar mal. Olhei para os lados e percebi que não era o único. Tinha de solucionar a situação, então tomei uma decisão, mas antes tinha de ter certeza, levei a mão ao bolso, encontrei moedas suficientes e pude gritar:

-Paragem!

-Não é paragem aqui.

-Um toque.

-Não paramos aqui.

-Cobrador, ajuda-me.

-Motorista, pára existe um miúdo que está a passar mal aqui.

Em debandada, os que tinham condições financeiras seguiram-me e a pé comentámos. Quando regressei à casa respirei mal, neste dia fiz sentir nos pulmões danos que uma bomba atómica causa.

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