Sigarowane:  A viagem da mãe  (Djenguenyenye Ndlovu)

 

ALEXANDRE, provavelmente não tenhas podido ler a carta que te escrevi semana finda. Na outra terça-feira, como só o posso fazer. Mas tenho de te escrever mais esta, mesmo antes de me responderes a outra mais recente, para dizer das minhas razões para não ter estado ao teu lado, de te ter abraçado, de contigo vivermos a dor da ausência, da partida final daquela que durante nove meses te carregou no seu ventre, te suportou os chutos dentro da barriga, te trouxe ao mundo dando-me a possibilidade de amar, de juntos amarmos o mundo, as suas gentes com as suas alegrias e tristezas, sem os julgar. De vivermos insucessos na construção da estrada do progresso, sem desistirmos. De levantarmo-nos para a marcha de alegria e de liberdade por este mundo que nos é dado habitar. E, meu caro Alexandre, como sabido, ela nasceu, cresceu, as novas formas vieram pelo peito, pela zona nadegueira, se tornou jovem. Firmino, não resistiu aos seus encantos. Ela entregou-se de corpo e alma e foi na partilha do leito que nascia o primeiro rebento que nascia uma mãe. Que nascia um pai. Antes existia uma mulher. Existia um homem. E vieste tu, Alexandre, para dizer mãe. Tomou-a a velhice e então chegou o ladrão: a morte. A separação da alma do corpo.

E não pude estar contigo quando isso era importante. Para mim e para ti.

Não apenas para o cumprimento de um dever cristão. Para homenagear aquela que foi minha mãe. Para no lugar de água, com as tuas lágrimas, com as minhas lágrimas, regarmos as flores por cima do túmulo dela. E chorarmos de novo por não sabermos o que será da vida dela. Com quem estará. Que ainda sabemos com quem/que contar, incluindo a recordação, de momentos e de ensinamentos.

Ela partiu para não mais voltar justo na madrugada do dia em que devias receber a carta da saudade que te escrevi, naquela terça-feira. Partiu aquela que orando por ti, orava, também, por mim.

E escrevo-te, meu caro Alexandre Tchaúque Firmino, Syabonga, como gostas, como gosto de lugar muito distante, hospedeiro de um célebre PACTO, para viver a celebração da concretização de um sonho que permitimos que fosse alimentado, que fosse construído. Escrevo-te de uma cidade banhada por um exuberante verde, alegre, sedutora, acolhedora e hospedeira. De estátua sem bronze, de belo artesanato a que os cordões das bolsas não resistem.

No monumental Hilton, a bandeira de Moçambique evoluiu pelo palanque doutoral nas costas de um jovem de umas das matas do teu país. Era certificado, como outros, pela Vistula University (com estudantes de oitenta e seis países do mundo) como apto para a vida. Para iniciar caminhos e acalentar outros sonhos.

Escrevo-te desta cidade, por estes dias com períodos de cinzenta, mas que nada de temperaturas baixas, o que justifica a monstra presença de turistas e a grande facturação dos quiosques, restaurantes na grande pedonal apenas domingueira que se estende por uns quilómetros. Poucos, sim, mas quilómetros. E os chopinhos, a coca-cola, os sucos de frutos locais e a alegria de viver a noite branca que agora governa estes lugares.

Bom, meu caro Alexandre, tenho de terminar esta missiva, que te chegará às mãos antes do início da minha marcha com destino a esse lugar de lanho, de santolas, de surra. Lugar de repouso de geradoras de vidas, de mães das alegrias para muitas almas.

Syabonga!

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