Director: Júlio Manjate

Retalhos e Farrapos:  Vavivo perdeu emprego    (Hélio Nguane)

 

 

PRIMEIRO olhou para o trânsito: viu poucos carros em movimento; lentos, os veículos agitavam as rodas sem vontade de se locomover. Por instantes Vivito pensou que eles estavam calmos por sua causa.

Cheiro de motor, odores de alcatrão, o fumo de rodas queimadas era imenso, as marcas do atrito dos pneus e a estrada traçavam linhas difíceis de conhecer as origens e a finalidade. Finalmente, ele sentiu, consentiu um sorriso ao recordar dos seus filhos: Paulo, Carla, Marta e Deolinda. Pestanejou, na velocidade do abre e fecha das pestanas, viu-me em casa, a ser bem recebido, meteu os pés cansados no balde de água quente, o mapa do pé trocou carícias com o sal que em instantes vai deixar-se liquidificar.

Moveu os dedos, amarrou a cara ao recordar do salário, fez contas: 10 quilos de arroz, farinha de milho, peixe que baste, três litros de óleo, sal, açúcar e dinheiro para as verduras diárias. Viu-se a acertar as equações com a mulher: “São cinco mil. Leva três e compra o que não apodrece. O resto amarra na capulana, faz um nó firme, use sempre que necessário”, disse em ronga.

Moveu os dedos, sentiu a mão vazia, sabia que já não tinha salário, estava transtornado, pois perderá a fonte de rendimento. Fazer a limpeza é uma tarefa dura, não é para qualquer um a capacidade de emergir no caos dos odores e colocar a mobília da casa de banho limpa.

De novo olhou para o trânsito, viu que parte dos carros anda na sua velocidade característica. Tudo voltou ao normal. Então vieram os problemas. Recordou das falas do patrão: “Senhor Valdo, infelizmente... Nada posso fazer. O senhor é parte da equipa. Sei que pode não ter culpa, mas é parte da equipa. Ainda tem idade, tudo vai dar certo”.

Moveu os dedos, que agora deixaram o chão, sentiu o cheiro dos pneus, a fumaça do escape do carro, viu o mundo rodar, viu o tempo esvanecer, viu o escuro a imperar, a ser supremo. Tentou dizer algo, mas percebeu que o seu corpo já não lhe obedecia. Pensou nos filhos, pensou na mais velha, Deolinda de 18 anos; viu a esposa dona de casa, tirou uma lágrima e não aceitou os factos. O corpo moveu-se furioso, mas o reino tem suas próprias regras, o rei tem suas manhas, é o rei e basta.

De novo moveu os dedos, sentiu a mão da esposa, mentiu para si mesmo que não atravessou. Mentiu para o reino das treta, mas a escuridão é eficiente, não aceitou perder o emprego.

CONVERSAS AOS SÁBADOS

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Presidente: Bento Baloi

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