De vez em quando:  Com motoristas do tipo “Mbunha” não haverá  autocarro que resista  (Alfredo Macaringue)

 

 

PASSA algum tempo, apanhei um autocarro público que fazia a rota Museu-Khongolote. É dessas viaturas novas acabadas de ser distribuídas numa cerimónia orientada pelo Presidente da República, no Zimpeto, em Maputo.

 Há muito entusiasmo, tanto nos passageiros, como nos próprios membros da tripulação. O que se diz é que a situação já não é tão gritante como dantes, embora o sofrimento, a desordem e a falta de respeito e consideração pelo passageiro persistam. Passageiro que, no final do dia, é o verdadeiro patrão dos cobradores e motoristas que ao pagar a passagem paga-lhes também o salário.

Enquanto esperávamos na “bicha”, a conversa serve para matar o tempo. E como eu, há outros que se limitam a ouvir, e a esboçar um sorriso quando há motivo, ou mesmo uma gargalhada, dependendo do assunto, e da forma como esse assunto é aflorado. Foi aqui que ouvi pela primeira vez  falar de “Mbunha”, alcunha dada a  um motorista que tem muitos seguidores por aqui. Aliás, antes mesmo de chegar o autocarro que nos levaria, aqueles que dominam o percurso diziam animados que é o “Mbunha” que vem!

A princípio não percebi o porquê daquele cognome, mas alimentei a esperança de que não chegaria  ao meu destino sem desvendar o segredo. Tive o privilégio de ocupar um dos primeiros bancos, logo atrás do condutor, e antes de sairmos, verifiquei que a viatura já rebentava pelas costuras. E nunca acreditei que pelo caminho iríamos parar  para levar mais alguém. Se isso acontecesse, seria uma loucura. Mas a prática mostrou-me que estava enganado.

Não demorou muito. Na paragem perto do Hotel Santa Cruz, na esquina entre as Avenidas 24 de Julho e Amílcar Cabral, o autocarro parou e abriu as duas portas – da trás e da frente. O motorista levantou-se para ajudar na “arrumação” dos passageiros como se estes fossem mercadoria comum ou ainda cabeças de gado bovino. Gritou alto em changana, dizendo: “a wumbangu wungue mbhunha halenu”. Não aguentei. “Mbunha” significa “nu”. Então o homem chamava as pessoas para um lugar que ele considerava estar “nu”. Qual “nu”?! Se seguirmos essa metáfora, então o lugar não estava nu, mas vestido de pessoas sufocadas, algumas das quais quase a perder os sentidos por falta de respiração normal.

O autocarro está superlotado. Mais do que superlotado, mas o condutor insiste em dizer que  “há lugar “nu” aqui à frente” (“a wumbangu wungue mbunha halenu”).  Ele repete isso muitas vezes, e no lugar de os passageiros reclamarem, riem-se. Eu também faço parte das gargalhadas que festejam a nossa própria desgraça! Os passageiros entram mesmo vendo que já não há mais espaço. Apinham-se até para além dos limites. As portas mal fecham. E a barulheira é infernal.

Foi assim em todo o percurso. Quanto mais cheio o autocarro, mais lugar “mbunha” havia para entrar mais gente. É terrível. E tudo isto numa cidade-capital, onde os níveis de urbanidade eram supostos estarem acima da média!

Lembrei-me desta façanha quando há dias testemunhei uma nova distribuição de mais meios circulantes para Maputo e arredores. A informação que surgiu durante a cerimónia é de que há autocarros que já estão a ficar precocemente obsoletos, e uma das causas para isso é a superlotação. Com este andar, não sabemos o que pode acontecer daqui a algum tempo.

Mas também o que é que se pode esperar com motoristas do tipo “Mbunha”?

Aguardemos.

A luta continua!

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