À LUPA: As greves da Maragra - Lázaro Manhiça: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

Lembro-me de ver, pouco antes da independência, se a memória não me trai, a minha mãe levar o meu irmão ao colo e a me chamar para rapidamente sairmos de casa para um lugar que, creio que nem ela sabia. Onde fosse possível se sentir em segurança.

Guardo na memória como se fosse ontem que caminhámos poucas centenas de metros, um pouco para o interior da localidade onde está enterrado o meu cordão umbilical. Desembocámos na casa de Nómen e Guillen, filhos de um machope que foi parar a Maciana, não ido do “Utxopi”  (terra dos machopes), como tantos outros na zona, mas sim da Suazilândia, hoje e-Swathini. A dona de casa era deste país vizinho e quando a coisa começou a ficar feia entre nós, devido a crise generalizada de 82-83 que assolou o país inteiro – faltava quase tudo -, facto aliado à guerra que por estes anos já começava a atingir a província de Maputo, esta família regressou, sem deixar rasto, à Suazilândia. Nunca mais soube dela, particularmente do Guillen, então menino da minha idade.

O que nos levara a dar à casa desta família tinha sido uma movimentação confusa de pessoas – homens, mulheres e crianças – que fugiam de um movimento de grevistas dos operários da fábrica de açúcar da Maragra, que exigiam, talvez, aumento salarial. Apenas.    

Ficámos abrigados na casa da tal família por algum tempinho até que tudo ficou calmo. Regressados à casa, cerca de dois quilómetros da fábrica, não havia nenhum sinal de os grevistas terem por lá passado e nem de alguma acção sua. Nem num outro lugar na zona.

Tinha sido um susto, provavelmente por uma questão de precaução ou pelas experiencias anteriores. Confesso que na fase adulta não cheguei a tocar este assunto com a minha mãe que possivelmente seria a única pessoa capaz de me explicar tudo à volta do facto.

Passaram-se depois muitos anos, marcados por uma vivência ligada à fábrica, uma Maragra de responsabilidade social perante as comunidades à volta; a Maragra da loja dos trabalhadores e da mini-bus de transporte de filhos destes, independentemente da função, desde o pessoal menor até aos gestores de topo e por ai em diante; a Maragra da grande equipa de futebol, constituída por jogadores que alimentavam até as grandes equipas do campeonato nacional. Mulima (Xinguerenguere) e Selvino – que Deus os tenha - foram disso exemplo. 

Veio depois a guerra que inviabilizou a empresa estatal, paralisando-a completamente. O projecto ficou adormecido durante vários anos até acordar novamente nas mãos de um privado, da mesma família que explorara a fábrica até à independência.

Porém, uma coisa é certa. Com muita ou pouca frequência, as greves sempre marcaram a vida da fábrica, uma das duas que a província de Maputo possui. E a causa tem sido mais ou menos a mesma: o aumento salarial, que alegadamente não é feito consoante os números determinados pelo Governo ou é feito quando os trabalhadores reclamam.

Não me vou pronunciar sobre o aspecto relacionado com os números e nem das reivindicações daqueles que argumentam que a fábrica, que nasceu como Marracuene Agrícola Açucareira (MARAGRA) é também da indústria transformadora, mas no tocante aos reajustes, penso que é compreensível que estes não sejam feitos de imediato, mas os trabalhadores têm que ser comunicados. Entendo que a falta de comunicação é um dos problemas que, nos últimos tempos, têm estado na origem das revindicações. Acho que a mediação, que tem conseguido apagar o “lume” de todas as vezes que este surge, tem que aconselhar o patronato neste sentido. A comunicação é muito importante nas organizações.  

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